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São só pedras em ruínas - para que serve a memória?

Naquele dia distante de 1990, meu coração disparava de emoção. Na noite anterior, passeando pelas ruas de uma Atenas onde recém tinha desembarcado de uma viagem de navio, seguida de uma inusitada passagem por um trem em terras helenas, tinha visto a visão. Cercada de luz, lá estava ele. Meu sonho de infância: o Pártenon.

Desde criança essas palavras e locais faziam parte do meu imaginário. Não era a Disney nem o castelo da Cinderela (que fui visitar mais tarde na sua forma original, na Alemanha). Por isso naquele momento em que percorria os caminhos da Ágora e subia a Acrópole eu estava quase em êxtase. Ao meu lado um simpático casal de argentinos que conhecêramos na chegada em Madri e que se tornaram nossos companheiros de jornada. Hector era o nome do senhor. Tinha sido pugilista olímpico e, sentado em uma das colunas caídas em frente ao Pártenon, respirou fundo e falou: qual a graça disso? São só pedras em ruínas...

Só pedras em ruínas. Só um templo pegando fogo. Só a história indo pelo ralo...Senti a mesma coisa com comentários que li aqui e ali, de gente para quem a memória não importa. Essa memória. E fiquei pensando comigo, para quê afinal serve a arte? 

Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado. Gabriel Garcia Márquez - O Amor nos Tempos de Cólera


Quando o interesse diminui, com a memória ocorre o mesmo. Goethe
Com tanta gente passando fome, precisando de empregos, de casa, por quê mesmo gastar com ruínas, com prédios que foram construídos trocentos anos atrás? Para que preservar o passado se o presente e o futuro nos acena com as suas possibilidades? Por quê choramos por estátuas destruídas? Por templos que às vezes nem representam nossa crença? Por museus que ardem com milhares de pesquisas? Por quê vamos atrás de respostas, de querer saber de buracos negros e de espécies que se extinguiram muito antes de nossa aparição na terra?
Para que serve a memória?

Talvez sirva para que a gente se sinta gente em meio à fragilidade da vida. Cada descaso, cada omissão no cuidado, cada intolerância nos doem na alma e é como se pedíssemos que se dê um basta à estupidez humana

Embora saibamos que a arte e, por tabela, o patrimônio cultural que construímos como humanidade, seja ao fim de tudo, inútil, é inegável que sem herança somos ainda mais frágeis. Você pode não sofrer ao ver ruir algo que levou séculos para ser construído e que traz apenas beleza. Direito seu. Pode pensar que a herança grega se resume em pedras em ruínas. Mas mesmo para você, que descrê das forças do simbolismo, a cultura persiste. Em cada lembrança, em cada ato de ressignificar a realidade e colocar no mundo uma marca pessoal, única. Um olhar diferente sobre nosso papel na vida.

Quando você não sabe de onde veio, fica mais difícil construir um futuro. O passado, mesmo quando não lhe diz respeito, fala de nós como espécie. Mesmo que a tecnologia tenha avançado, a humanidade continua tendo as mesmas paixões e inquietudes que guiaram as mãos dos primeiros desenhos nas cavernas. Que sejamos então merecedores da herança que nos deixaram e saibamos preserva-la.


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