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Mostrando postagens de março, 2026

Nem nos sonhos as cidades são seguras para as mulheres

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  Por que o urbanismo ainda ignora o corpo feminino? Às vezes os sonhos, mesmo que sejam pesadelos, são mais honestos do que qualquer relatório técnico. Relatei um desses que tive onde estava sozinha tendo que caminhar ao anoitecer no centro de minha cidade. Ainda haviam pessoas no sonho, mas a sensação de medo era palpável.  O inconsciente nos revela várias camadas adormecidas por meio dos sonhos. A gente acorda pensando naquilo. Sentindo as emoções daquilo. Sabendo que são insights simbólicos, alguns claros, outros escondidos. Como tudo na mente da gente. Essa diabinha que não para de se expandir. E de exigir atenção, feito criança birrenta. Espaços externos x espaços internos. Primeiro literais que sonho de arquiteta é repleto de detalhes espaciais. Chega a cansar de tanta coisa. Tem até escada inacessível que deixa a gente indignada até no sonho! E ele não te poupa da realidade. E quando tenta analisar aquele pesadelo, observa que na lista de recados simbólicos, a gente lê...

Sua casa está preparada para envelhecer com você?

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A gente só percebe uma coisa quando tropeça: que o chão que parecia plano a vida inteira, acaba por nos trair. Aquele mesmo chão comum, de todo dia, aquele que os pés conhecem de cor. É ali, na rotina que já virou automatismo, que mora o risco que ninguém vê. O conceito que algumas pessoas chamam hoje de “aging in place” traduz algo que a maioria das pessoas sente, o desejo de envelhecer no próprio ambiente. Onde a gente possa estar rodeada pelas marcas que a vida foi deixando nas paredes, nas gavetas, no jeito que a luz entra pela janela da cozinha às sete da manhã. Pesquisas indicam que 90% das pessoas acima de 65 anos querem exatamente isso. E 80% acreditam que a casa atual é onde vão ficar para sempre. O problema é que essa mesma casa pode estar se tornando, silenciosamente, um obstáculo. O risco não mora no extraordinário Entre 1996 e 2019, os óbitos por quedas no Brasil cresceram 319%, saltando de 24.645 para 103.284. O custo ao SUS: R$ 51 milhões por ano. Esses números têm um e...

Calçadas que cuidam: quando o chão da cidade decide quem tem o direito de sair de casa

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A imagem nos mostra uma condição ideal, mas a realidade nos traz outra verdade. Quantas vezes sentimos medo ao andar em nossas calçadas urbanas? Falta de manutenção, pontos de buracos e ficamos pensando se vamos conseguir atravessar sem cair. Esse cálculo silencioso acontece todos os dias em Porto Alegre, a cidade onde moro. E, com raras exceções, acontece nas cidades desse país, sejam grandes ou pequenas. E muitas vezes a população, que passa apressada, não se apercebe. Principalmente os jovens.  Mas calçadas não são apenas calçamentos e materiais. Elas são a primeira decisão urbana sobre quem pode participar da cidade e quem fica para trás. Em um momento em que quase 40% da população do Centro Histórico de Porto Alegre já tem 60 anos ou mais, esse chão virou questão de saúde pública. Os dados do Rio Grande do Sul confirmam o que qualquer arquiteto atento já viu nas ruas: as quedas de idosos crescem, e boa parte delas acontece fora de casa, no espaço que deveríamos chamar de públ...