Pular para o conteúdo principal

Uma Arquitetura mais humana. Será novidade?

Eu milito na Arquitetura já faz algum tempo. Tinha dezessete anos quando fiz vestibular em 1974(!). De lá para cá nunca abandonei o afazer arquitetônico. E nunca consegui enxergar a Arquitetura como um produto de uma mão só. Ou seja, como a concepção miraculosa de uma mente brilhante: o/a Arquiteto/a. Para mim sempre foi obvio que a Arquitetura ou é feita para o ser humano ou é escultura. E quando falo para mim, obviamente também me refiro à inúmeros colegas que pensam e a praticam assim.

Mas não somos ingênuos para não saber que existem campos de atuação em que isso não acontece. E existem profissionais que impõem modelos e práticas. Mas foi com uma certa surpresa que li um artigo no jornal (impresso) dominical. Sim, eu leio jornal de papel. E sim, o artigo estava nos classificados. Mas tinha um título bombástico que me pegou:

Olhar mais humano na hora de construir

Oba!!! Acordaram, pensei. E me veio à memória uma apresentação em um congresso no início do século XXI (ano 2000 para ser mais precisa). Estava apresentando um artigo baseado na minha dissertação de mestrado que mostrava a visão do cliente de imóveis residenciais em relação à visão do construtor, corretor e arquiteto, sobre o projeto e obra construída. E um dos pesquisadores que vinha após a minha fala meio que lançou um: o que importa para o sucesso de um empreendimento é a velocidade de vendas. Ponto. E naquela época era mesmo. Pelo menos para a grande maioria de empresas voltadas à incorporação. 

Passados 15 anos vejo que existe uma "nova abordagem" que prioriza o lado humano ao invés da grana. Ou seja, o comprador passa a ser visto como pessoa e não como uma carteira recheada. (E como toda onda atrasada, isso vem com o nome de "novidade"....).

E no mesmo dia, uma amiga, a querida Sam Shiraishi me marca em um vídeo TED que, de certa maneira, fecha essa equação, mostrando um outro ângulo (esse sim, novo para mim que não tinha raciocinado assim).

Como a mídia digital está mudando a Arquitetura - para melhor

O arquiteto Marc Kushner faz uma bem humorada apresentação onde contrapõe a oferta da Arquitetura como sendo um pêndulo entre o Novo e a Memória. Basicamente seriamos guiados pelas nossas lembranças de espaços que nos proporcionaram emoções. 
"A arquitetura não tem a ver com matemática nem zonamento — tem a ver com emoções viscerais" Marc Kushner
A história da Arquitetura seria uma oferta ora de avanços tecnológicos e formais, que resultaram em prédios e estilos nem sempre bem aceitos pelo público, que gerariam um revival de estilos que falassem à memória e com isso trouxessem tranquilidade aos usuários. E deixassem os arquitetos loucos!
Museu Guggenheim Bilbao


Para ele, este lento movimento pendular foi sacudido pelo advento das mídias digitais. E isso foi sentido, segundo ele, no Museu Guggenheim de Bilbao. O projeto de Frank Gehry parece ter se tornado uma unanimidade, ou quase, entre arquitetos, crítica e público. 

Qual teria sido a diferença? A propagação rápida das consequências econômicas e culturais para a cidade, gerando uma simpatia imediata. Isso foi sendo notado também em outros projetos e profissionais. Houve uma troca mais rápida de informações entre público e projetista (e incorporador, obvio, que arquiteto sozinho nada faz - a menos que seja rico). As décadas que separavam inovações de movimentos de retorno passam a ser aglutinar, gerando projetos mais simpáticos ao usuário. E mais ainda, abriu novas possibilidades de trabalho já que arquitetos poderiam sonhar soluções e não depender apenas de mecenas que as banquem. Mas as podem fazer acontecer via crowndfunding

Novos tempos. Novas possibilidades. 

Voltando à minha pergunta do título. Não, não creio que o fazer uma Arquitetura mais humana seja novidade. O que é novo são as formas de tornar isso possível de maneira mais ampla e acessível à mais pessoas.

Ele cita vários exemplos, muitos deles já mostrados aqui no blog, de obras que seguem esse novo conceito de uma arquitetura mais sinérgica, mais parceria e menos autoral. Muitos deles já foram mostrados aqui no blog como esse pavilhão para ver renas que ilustra o vídeo.

Hoje podemos interagir com as obras de arquitetura como não se fazia no passado. Podemos visitá-las inclusive de nossas casas, por meios digitais. Tiramos selfies e contamos nossas histórias através delas. Podemos conhecê-las antes mesmo de serem realidade, por meio de maquetes digitais hiper realistas. O conhecimento está mais do que nunca em mãos do público. Esse conhecimento sim, interage com o projetista e democratiza as decisões. Oxalá saibamos aproveitá-los para tecer uma Arquitetura humana, sustentável e bela.


Gostou? Conta para a gente a sua opinião.
Nos siga também nas redes sociais 
Twitter: @arqsteinleitao
snapchat: arqsteinleitao

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Casa Kiah, um santuário sustentável forte e positivo com home office

Uma herança que a pandemia de 2020 nos lega é uma maior consciência com os nossos espaços residenciais. Fomos obrigados a conviver full time em nossas casas, as usando como local de trabalho e não apenas como dormitórios. Isso fez com que o olhar se tornasse muito agudo para as necessidades e as deficiências a corrigir. Não a toa o boom de reformas e mudanças daqueles que podem se dar a este luxo no período após muitos meses isolados. Eu mesma tenho escrito menos no blog e isso é consequência direta de toda a gama de emoções que afloraram neste período onde portas se fecham e janelas se abrem .  Por isso achei interessante como assunto de volta, trazer esta casa australiana que contempla exatamente essa necessidade de focar em espaços de qualidade em uma casa de campo. Um casal, seus três gatos e a vontade de um "santuário forte e positivo" que incluiu, na reforma da residência, um dormitório que fosse mais que um local de dormir e um espaço para trabalhar com conforto e aleg

Transparência e estrutura em madeira na nova loja da Apple na Tailândia

Uma grande árvore em madeira cercada por um fechamento em vidro é a aparência da maior loja da Apple na Tailândia. Projetada pelo renomado estúdio de  Foster + Partners  foi inaugurada em julho de 2020, em plena pandemia. Batizada de Apple Central World, a loja tem um diâmetro de 25 metros e sua forma foi gerada por uma curva de Bezier 360 °, uma curva paramétrica usada em computação gráfica. Veja AQUI mais detalhes de como foi feito. Todos sabemos que a Apple segue o conceito de se diferenciar em inovação e as suas lojas representam esse modo de se posicionar no mercado. Na nova loja asiática são usados 1461 perfis de carvalho branco europeu no revestimento da coluna de suporte do telhado.  A aparência interna é de um grande tronco que sustenta a copa de madeira em balaço. Uma escada de aço inoxidável serve de conexão para os andares. O prédio tem um fechamento totalmente envidraçado o que permite a visão da cidade e a transparência externa para quem vê o prédio que se mostra e convi

Calungas, a representação da escala nos desenhos

Fonte Embora as fotografias de Arquitetura raramente tenham seres humanos, as representações gráficas dos projetos as tem. As calungas. Este nome esquisito foi o que aprendi a nominar a representação humana nos desenhos, a tal da escala humana, que mostra de maneira mais clara como os espaços se conformam em proporção aos nossos corpos.  Fonte Hoje é muito comum que tenhamos blocos de seres humanos, animais e plantas em todos os programas gráficos. E há sites onde podemos buscar figuras das mais diversas etnias e movimentos para humanizar nossas plantas e perspectivas. Me lembrei das calungas ao falar com um colega arquiteto, bem mais jovem que eu, que me mostrou fotos de projetos da década de 80, com simpáticas figuras, simulando movimentos. E, para minha surpresa, ele nunca tinha ouvido falar do termo calunga. Como eu nunca tinha parado para pensar sobre isso, fui dar uma rápida pesquisada e achei que o termo tem origem africana  e talvez tenha vindo em função das b

Apartamento pequeno para jovem casal

Mescla de materiais e cores claras fazem deste pequeno apartamento, um ambiente muito agradável para um jovem casal. Projeto do estúdio  Art Ugol . Mesmo sendo um imóvel pequeno, o projeto consegue manter a privacidade com áreas de cozinha e estar bem resolvidas e que parecem amplas. A planta baixa nos mostra que existe uma pequena entrada com o banheiro e área de cozinha localizados a esquerda, onde se pode ver as áreas de colunas hidráulicas. Os arquitetos localizaram grandes armários na entrada, um deles servindo de divisória para um nicho onde, sobre um estrado com gavetões, colocaram o quarto. Na verdade a cama, que é escondida com uma grande cortina que confere privacidade ao ambiente. Para harmonizar com a área de estar, criaram um painel em madeira que serve como um grande rodapé divisor da parede, gerando dinamismo e ao mesmo tempo aconchego e iluminação. A cozinha é ampla com o uso de madeira e branco que são usados em todo o apartamento. Estes materiais são que