Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Arquitetura multissensorial

Tenho escrito algumas postagens sobre a função sensorial e multissensorial da Arquitetura. Um dos últimos, onde coloquei um título provocativo, chamando a um resgate do elemento erótico na Arquitetura gerou uma conversa in box que de certa forma foi complementada por um email sobre uma das últimas postagens, a de uma loja japonesa que usa madeira cheirosa na sua estrutura.

Arquitetura multissensorial....Ninguém duvida que a visão é muito explorada ao projetar. O tato também tem a sua parcela de intenção com revestimentos e mesmo formas. Da audição já se disse que a Arquitetura seria música congelada. Mas e os outros dois? Paladar e olfato?

OK, paladar me parece o mais complicado de conciliar com a arquitetura. Sim, tempos as hortas verticais, podemos ter elementos que possam ser digeridos dentro dos ambientes (árvores de frutas e hortaliças). Nas estruturas, talvez se imitarmos a casa da bruxa má de Joãozinho e Maria, possamos ter em escala real o que esse artista esculpiu. E pensando bem, com o futuro da impressão 3D, vai que um dia façamos ambientes comestíveis. Já estou imaginando uma loja de chocolates.....uauuuuuu!!!!

E o olfato? Seria mais fácil? Ah, se um dia a TV tiver cheiro. Ou a internet. Ou a arquitetura....Sabe-se que o cheiro é um dos elementos mais marcantes na formação da memória humana. Todos temos lembranças de cheiros marcantes. E se formos pensar bem, muitos estão associados aos ambientes. Cheiro do sol entrando e iluminando, cheiro da chuva molhada no jardim. Cheiro do pão que saia quentinho de algum forno. Cheiro do perfume de alguém que ficava no ar e nos dizia se essa pessoa já tinha passado por ali. Já li que o cheiro, por levar mais tempo para chegar ao cérebro, ali se aloja por mais tempo que os outros sentidos. O que o torna realmente relevante.    

Se pudéssemos marcar os ambientes com cheiros, além de formas, como eles nos marcariam e como poderiam ser melhor compreendidos e vivenciados. Há estudos para pesquisar os cheiros nas cidades, para entender a sua importância no planejamento urbano. Mas e na arquitetura? Como usá-lo de maneira mais intencional, ou melhor, como despertar esse sentido tão especial e que parece ser esquecido como parâmetro de projeto? 
A professora e escritora Victoria Henshaw nos explica algumas das razões porque o cheiro é relegado como elemento marcante de projeto:
  1.  Baixo valor dado ao olfato nas sociedades ocidentais.
  2. Dificuldade de mensurar cheiros. E apesar de modernas tecnologias tentarem suprir essa lacuna, ainda não são tão eficientes assim. 
  3. Na verdade pouco se sabe como o cheiro realmente funciona. Segundo a Victória, "quanto mais aprendemos sobre o cheiro, mais ele torna-se intrigante
Fui atrás de alguns exemplos onde o olfato foi utilizado como elemento de projeto, seja de instalações seja de arquitetura. 

Smell Architecture instalation
In/odore, instalação projetada por diverserighe studio para o the Courtyard of Honour no Palazzo d’Accursio em Bolonha, na Itália. O conceito reúne a ideia utopica representada por um jardim natural, projetada para o céu, com a realidade de um jardim artificial com hastes falsas, feitas de material reciclado, plantadas no chão com saquinhos de plástico contendo panos embebidos com perfumes sintéticos. Uma crítica ácida e real. 
Smell Architecture instalation
Outra instalação, a"Perfume Squadron" do escritório de Khoury Levit Fong se inspira no jardim tradicional japonês e usa os cheiros de forma deliberada.
Smell Architecture instalation

Michael Green Architecture usa em seu projeto de um centro de inovação em madeira de um imenso painel desse material onde as pessoas podem ver, tocar e  cheirar.


Como podem ver não achei muitos exemplos na Arquitetura, o que comprova que o olfato ainda não está sendo explorado como poderia. Um dado a ser levado em conta pelos arquitetos em suas pesquisas. E um desafio: como inserir cheiros nos projetos?

Fontes
http://www.taylorandfrancis.com e http://sensingarchitecture.com


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