Café Alta Política- Metamorfose da Vida

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No Café Alta Política, no dia 14 de agosto de 2026, tive a oportunidade de representar o Coletivo Metamorfose da Vida e falar sobre envelhecimento, autonomia e o papel que cada pessoa pode assumir na construção da própria longevidade. O Café Alta Política é organizado por Julio Pujol e Giselle Hubbe. Um encontro no belo café do Margs em Porto Alegre. Este foi o 60º e teve como tema Leituras do Envelhecer. Junto comigo para um bate papo, o ex-vereador e Secretário Adjunto de Inclusão e Des. Humano de Porto Alegre e Vinicius Kaster, Secretário Adjunto de Esportes de Porto Alegre. Falei sobre minha formação como arquiteta, mestre em Engenharia de Produção e integrante do coletivo Metamorfose da Vida, e como uma experiência mudou minha maneira de olhar para a vida e para a arquitetura: durante cerca de 20 anos, acompanhei o envelhecimento e o adoecimento dos meus pais. E aprendi como a sala de espera de uma UTI pode ser uma espécie de pós-graduação sobre a condição humana. A partir dessa ...

Tachos de cobre e a reflexão sobre a vida

 
Sou uma entusiasta de pesquisar o passado, e também sou acumuladora. Gosto de guardar objetos que me digam algo, uma máquina de escrever onde meu pai ganhou a vida, um relógio de sol que mostrava o tempo passado, gosto de chamar esse resgate de sustentabilidade afetiva.

Tenho notado em minhas pesquisas sobre espaços como essa apropriação de objetos com história vem calando fundo nas pessoas. Já mostrei vários espaços, inclusive comerciais, que mostram como valorizar o passado faz o presente mais bonito.
Mas eis que, no meio de uma pesquisa sobre crônicas dos anos 40, encontro uma pérola de Rubem Braga chamada O Funileiro

Rubem Braga (1913/1990) é considerado um dos grandes cronistas brasileiros. Talvez o mais fiel e melhor. A crônica, esse gênero de escrita que se aproxima ao jornalismo tem muito a ver com o que se faz em blogs. Alguns melhores que os outros, alguns com fina maestria como Rubem. 

Em maio de 1949, ele narra o encontro com um funileiro, vindo do sul, em sua rua, na zona sul carioca. Quando o viu, pensou em lhe encomendar um tacho de cobre.

Interrompo para dizer que no momento em que lia, voltei no tempo. Minha mãe fazia geleias em casa. Não lembro se em um tacho de cobre, mas a gente sempre brincava com ela que íamos dar um de presente quando já éramos adultos, para que ela voltasse a fazer aquelas delícias. Ela nos devolvia um sorriso zombeteiro e dizia: jamais! Faço agora só de brincadeira, cansei, não quero mais compromisso de encostar a barriga no fogão!   
E é como na crônica onde o genial Rubem também reflete que jamais o funileiro conseguiria reproduzir as sensações da infância, os cheiros e sons que já não existem, a não ser na nossa memória.

E faz uma ponderação que me deixou reflexiva...
Que é inútil usar uma parte da própria história como objeto de decoração. Seria como se a pureza e beleza de algo se corrompesse por um uso indevido. Talvez dito assim pareça não fazer sentido aos nossos olhos contemporâneos. Mas ele diz com tal poesia e verdade que se torna quase incontestável.

Uma coisa antiga deixa de ter autenticidade e vira uma outra coisa. Uma cuba de banheiro, um vaso de flores, um enfeite na parede.   
Confesso que me tocou. Eu que junto pés de máquinas onde mãos desconhecidas cozeram vidas, fazendo deles ponte para as lembranças da infância, do barulho de minha vó mexendo infinitamente seus pés na delicada arte de costurar. Arte que lhe rendeu a vida, viúva que ficou muito cedo. 
Nesses tempos em que as recordações se fazem prementes e que os velhos se tornam descartáveis, fazer de conta que temos memórias pelo uso de peças que nada nos dizem continua a ser inútil.

Compreender os caminhos que a vida se faz, que os atos e ações de todos conformam a cidade, a aldeia, o mundo, talvez nos faça perceber a inutilidade do egoísmo que o exacerbado individualismo nos leva a praticar.

Ninguém vive só. As memórias nos formam. Mais que enfeites, moram dentro de nossa história. Resgata-las para a vida também nasce de dentro. 

Imagens: Pinterest

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