Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Um exemplo de arquiteto de primeira



Casa da Vila - Projeto de reforma de Oscar Muller
O que faz um arquiteto de primeira? Projeta obvio. Mas o como projeta e o que lhe desperta o interesse é que faz toda a diferença. Tive a oportunidade de conhecer alguns durante a minha vida profissional. Admirava suas personalidades, sua tenacidade, sua criatividade. Alguns foram referências profissionais. Outros se tornaram bem mais. Antes de Arquitetos são seres humanos de primeira. Um deles em especial é o Oscar Müller

Oscar Müller Kato, neto de Bunzo Kato e Deolinda Kato e filho de Elisete Müller e Oscar Kato. Faz parte dessa incrível miscigenação nacional que Domenico de Masi aponta como uma das lições que o Brasil tem para compartilhar com o mundo (e que espero, não desaprendamos). Somos todos meio mestiços nessa terra brasilis e isso faz a nossa riqueza em forma de cultura diversa e convivência com as diferenças.
Interiores da Casa da Vila - Projeto de Oscar Muller
Tive o privilégio de acompanhar, via internet, o projeto de reforma de sua casa namorada, a casa da vila onde mora com a sua eterna musa, Sil, formando um dos casais mais bonitos e harmoniosos que tive a honra de conhecer. Sua casa foi garimpada em demolições, foi projetada a partir de achados como bancos escolares em uma loja de sobras, foi feita com amor, invenção e muita alegria. No seu interior é impossível imaginar que se encontra ao lado de uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, tal a tranquilidade e sensação de interior que se sente lá. Do banheiro se vê uma mata, uma cortina verde que serve de proteção acústica e climática
 
Oscar Muller

Suas palavras falam sobre ele melhor do que ninguém. Pincei algumas delas do seu currículo, e espero que ele não se importe. O Oscar é daqueles arquitetos apaixonados pelo que faz. E ele atenta para um ponto fundamental no ato de projetar: o conceito. Compreender o cliente, saber o que quer, captar o que nem ele sabe expressar. Função de arquiteto. Aliás função básica. Sem conceito, arquitetura não existe.

 Vejam o que escreveu em Armadilhas do bem, sobre a leitura precoce e a influência das estantes:  "Na casa dos meus avós, onde passei muito tempo na minha infância, também havia uma estante que tinha três prateleiras baixas, que circundavam duas das paredes na sala de estar. O descortinar daqueles livros, bem na altura dos olhos, tão certinhos e organizados em grupos com a mesma cor e tamanho, talvez seja uma das mais antigas memórias que guardei."Quando falo de arquiteto de primeira, falo do ser humano integral, o que se forma da infância, o curioso que monta casinhas, o que inventa, o que se preocupa com o outro ser humano, com o seu país. O que busca soluções. O que propõem. Um arquiteto de primeira não é apenas o que faz bons projetos e/ou ganha prêmios (embora sim o Oscar os faça e tenha ganho prêmios). Um arquiteto de primeira é o que pensa a Arquitetura de forma integral e como solução para a vida das pessoas.

 

É dele também o curso Arquitetura, espaço e estímulo, que "aborda o como os espaços interagem conosco, como podem ser terapêuticos, como podem influenciar em nosso humor e no nosso bem viver".    

 
"Ainda acredito que nosso papel é fazer arquitetura inteligente, e não apenas definir no projeto a geladeira que descongela pela Internet, o portão automático, ou entupir edifícios com webcams. Uma atitude é produtiva, outra apenas conivente. Claro que assumir a primeira depende de responsabilidade, capacidade e talento, enquanto que assumir a outra é fácil, quase que apenas aleatória, só uma questão de "jeitinho".

O caminho mais fácil, e acho que isso todos já perceberam, não serve a ninguém, não adianta nada fazer de avestruz e tentar tapar o sol com a peneira. Por mais que pareça confortável empurrar os problemas e responsabilidades para o dia de amanhã, o tempo segue inexorável, o amanhã se torna hoje, a noite cai, e o risco do apagão se torna certeza.

Há momentos em que a solução é fugir, mas também há outros em que fugir de nada adianta.
"

Oscar Muller


E como hoje é o seu aniversário, deixo minha homenagem na voz de Joan Baez - Gracias a la Vida que nos há dado tanto!

Comentários

  1. Gemtem!
    Receber esta homenagem e comentários assim, de figuras que eu admiro tanto, não é pouca porcaria, não há mastercard que pague este presentão!
    Obrigado, amigos!

    ResponderExcluir

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