Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

O dia que esbarrei em Carlos Bratke

Entre as noticias de partidas desse plano - e são tantas que a gente mal tem tempo de respirar, que já parte outro. Hoje foram Zygmunt_Bauman ( "Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar") e Carlos Bratke. 

A arquitetura seria a antítese da liquidez que não perdura. Teoricamente o arquiteto vive de erigir. De tornar perene. De fazer um sonho acontecer de forma concreta.

Quando enfim me formei, lá pela década de 80, eu tinha meus ídolos. Um deles era Carlos Bratke.
Carlos Bratke: Edifício Jacarandá, São Paulo
Ele tinha uma ousadia, uma maneira de expressão que eram para mim, na época, muito inspiradoras. Tinha uma secreta vontade de trabalhar com ele. Dessas vontades que ficam guardadas dentro da gente. Principalmente quando a gente aqui não é atirada e não vai bater na porta dos ídolos com a cara e a coragem (e a produção da faculdade que era a única coisa que tinha para mostrar). O tempo e a experiência me mostraram que isso nem é loucura. Que muitos profissionais curtem quem é ousado e que a única coisa que pode acontecer é levar um não na cara. O que por si só já é igual a não fazer nada.
   
Residência em Brasília II / Carlos Bratke /Imagem: Joana França
Enfim, fiquei acompanhando a produção do Bratke de longe. Nesse meio tempo fui conhecendo mais a trajetória de seu pai, Oswaldo Bratke, e me encantei pelo seu processo de trabalho, pela sua preocupação com o bem estar dos usuários.

Uma residência não é verdadeira pelo impacto que possa provocar, mas por seu conteúdo. É o ambiente em que a pessoa, mesmo só, não se sente desamparada.  Oswaldo Bratke

Fonte
E fui mudando o foco da forma do filho para o conteúdo do pai. Fui achando outros ídolos dentro da Arquitetura. Até que um dia esbarrei (literalmente) em Carlos Bratke...

Mas não da forma como gostaria de ter feito. Estava em uma Bienal em Buenos Aires (a mesma onde vi uma palestra de Zaha Hadid e fiquei no mesmo hotel de Eolo Maia). Era uma exposição de obras de arquitetura e eu, super entusiasmada, me afastei para fotografar um painel e dei um encontrão na pessoa atrás de mim. Que obviamente não gostou e expressou em alto e bom som. Sim. Era Carlos Bratke.  

(Por coincidência todos morreram cedo. E em plena produção)    

 Há momentos em que ou se transforma o limão em limonada (puxa!!! Tu é Carlos Bratke!!! Sou super tua fã, te admiro demais, etc, etc) ou se enterra o sonho de outrora em um buraco que se abre no chão e nos engole em vergonha pura. (adivinha qual a minha escolha...)

Por isso hoje, quando vi que o Bratke tinha encerrado sua passagem nessa terra, ainda em plena atividade profissional, fiquei triste. Lembrei de tantos momentos em que ele esteve ligado à minha própria trajetória. E passou um filme na cabeça, da inspiração dos primeiros anos, à passeios pela Berrini em São Paulo, onde sua obra se mostrou mais profícua.

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