Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Saudade, memória e Arquitetura

saudade
Saudade
A finitude nos espera. Sejamos seres humanos, sejamos civilização. Quem sabe a certeza do que um dia acaba, nos leve à tentativas de sermos perenes. E a Arquitetura mais que abrigo, mais que função de uso, talvez seja uma das formas com que consigamos nos aproximar de algo que perdure. Por isso, imagino, nosso fascínio por ela.
A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração. Coelho Neto
Palácios, mausoléus, templos e tantas outras formas de edificação nos falam de tempos que passaram. O garimpo por cidades antigas e formas do passado nos falam de pessoas que tiveram vidas, sonharam, realizaram. E quiseram marcar. Marcar em material o que lhes escapava do controle. Perpetuar a vida. Suas vidas.

sentimentos - saudade
Sentimentos
Ideias ficam. Marcam. Mas são na forma física que nos encontramos com a vida dos que se foram. Os Museus. Eles nos falam da história. Nos mostram pedaços de uma imensa colcha de retalhos chamada civilização humana. Buscamos quem sabe, enganar a morte com a força de nossas histórias. Quem nunca sonhou com isso? 

Crianças e poderosos reis, com certeza. Arquitetos sempre. Talvez aí também resida uma certa sensação de poder que nos faz achar que podemos cristalizar momentos. Já vi arquitetos se deixarem morrer quando sua obra do coração vai ao chão.
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. José Saramago
memória - azulejos
memória
Guardamos cidades como foram há séculos. Restauramos antigos prédios conservando sua memória porque sabemos da importância da saudade. A saudade nos resgata. Nos torna parte de uma linhagem. Nos faz parte da humanidade.

Neruda já falava sobre a memória em seu livro Confesso que Vivi: 
“Estas memórias ou recordações são intermitentes e por vezes fugidias na memória, porque a vida é precisamente assim. É a intermitência do sono que nos permite aguentar os dias de trabalho. Muitas das minhas recordações desvaneceram-se ao evocá-las, ficaram em pó como um vidro irremediavelmente ferido.

Não vivi, talvez, em mim mesmo; vivi, talvez, a vida dos outros.
A minha vida é uma vida feita de todas as vidas – as vidas do poeta.”

Torre de Vilharigues, Vouzela - Portugal
Torre de Vilharigues, Vouzela - Portugal
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão. Carlos Drummond de Andrade

De saudades e memória é feita a Arquitetura. Não apenas a monumental. As nossas casas tem muito das nossas lembranças de tempos bons ou do que imaginamos que seriam. Nossos sonhos são feitos de referências. 

Sabemos que vamos morrer. Mas no fundo de nossas almas esperamos deixar nessa passagem um quê que nos faça lembrados. Ou que faça tudo ter valido a pena.     

Leia também a Arquitetura da morte

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