Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Enganando a morte - ou a força da argumentação

Como assim, enganar a morte? Talvez desejo de muitos de nós, senão a maioria, mas algo que só se consegue na imaginação. É o que fui ver em deliciosa palestra da amiga professora Ana Maria Dischinger Marshall em outro Almoço Clio, revisitando contos de vários locais do planeta que contam como os personagens tentaram passar a morte para trás.

 

O dia não poderia ser mais apropriado para mergulhar nessa dualidade vida e morte. Almoço agendado um mês atrás, recebo a noticia da visita de uma tia querida que vem nos ver após a perda do pai, seu irmão. Dois corações. 

Meu lado sentimento me chama para ficar. Meu lado renovação de vida minha me chama para sair. Eu versus outros. Resolvo dar uma chance à vida. Minha vida. De certa maneira me sinto também "engambelando" a morte. Aquela que nos faz não viver em vida.

Das histórias que começam pelo Oriente, passando pelos contos de Ricardo Azevedo, pelos contos do Tirol e do México, vemos que o poder da argumentação aliado ao não enfrentamento direto, faz com que a Morte, esse personagem simbólico e temido, se apiede do infeliz mortal e caia na sua conversa, abreviando a sua partida, nem que seja por momentos. E cá entre nós, ganhar momentos de vida, a verdadeira, vale por anos de vida não vivida.

Aprendi também que "o importante é cuidar da vida" e que na sabedoria milenar "a fala cala a morte". Da dualidade em que me encontrava ao entrar no almoço, saí mais renascida pelo poder da literatura e do saber dizer (e ouvir) transformar o mundo. Senão todo o mundo, pelo menos o nosso particular. O que já ajuda bastante.

Gastronomia dos chefs Leonardo Magni e Liliana Andriola, da Mandarinier.
Cardápio
Entrada
Creme de feijão branco com ragú de coração de galinha
Prato principal
Risoto de arroz negro, com cogumelos, cubos de presunto e molho vermelho picante
Sobremesa
Devil's cake

Fotos: Elenara Stein Leitão

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