Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Enganando a morte - ou a força da argumentação

Como assim, enganar a morte? Talvez desejo de muitos de nós, senão a maioria, mas algo que só se consegue na imaginação. É o que fui ver em deliciosa palestra da amiga professora Ana Maria Dischinger Marshall em outro Almoço Clio, revisitando contos de vários locais do planeta que contam como os personagens tentaram passar a morte para trás.

 

O dia não poderia ser mais apropriado para mergulhar nessa dualidade vida e morte. Almoço agendado um mês atrás, recebo a noticia da visita de uma tia querida que vem nos ver após a perda do pai, seu irmão. Dois corações. 

Meu lado sentimento me chama para ficar. Meu lado renovação de vida minha me chama para sair. Eu versus outros. Resolvo dar uma chance à vida. Minha vida. De certa maneira me sinto também "engambelando" a morte. Aquela que nos faz não viver em vida.

Das histórias que começam pelo Oriente, passando pelos contos de Ricardo Azevedo, pelos contos do Tirol e do México, vemos que o poder da argumentação aliado ao não enfrentamento direto, faz com que a Morte, esse personagem simbólico e temido, se apiede do infeliz mortal e caia na sua conversa, abreviando a sua partida, nem que seja por momentos. E cá entre nós, ganhar momentos de vida, a verdadeira, vale por anos de vida não vivida.

Aprendi também que "o importante é cuidar da vida" e que na sabedoria milenar "a fala cala a morte". Da dualidade em que me encontrava ao entrar no almoço, saí mais renascida pelo poder da literatura e do saber dizer (e ouvir) transformar o mundo. Senão todo o mundo, pelo menos o nosso particular. O que já ajuda bastante.

Gastronomia dos chefs Leonardo Magni e Liliana Andriola, da Mandarinier.
Cardápio
Entrada
Creme de feijão branco com ragú de coração de galinha
Prato principal
Risoto de arroz negro, com cogumelos, cubos de presunto e molho vermelho picante
Sobremesa
Devil's cake

Fotos: Elenara Stein Leitão

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