Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?



Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno.

A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão. 

Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de novo esburacados por outras empresas, numa sinfonia maluca e sem orquestração.

Pensei em todos os meus vizinhos. Moro em um prédio e bairro com várias pessoas pessoas idosas. Muitas morando sós e precisando fazer estes percursos quase todos os dias. Muitas são minhas amigas. As encontro na rua, gostam de sair, se arrumar, conversar com os vizinhos, ir à padaria, à farmácia, ao mercado. Conhecem o bairro há décadas porque moram aqui. Suas vidas estão espalhadas por estas quadras. 

É justamente aí que meu lado arquiteta e cada vez mais estudiosa dos processos de envelhecimento buzinam mil alertas. Pois quando falamos em envelhecer, costumamos pensar no corpo. Em como manter a saúde, a autonomia, cuidar de doenças crônicas, da memória, da mobilidade. Mas pouco se fala sobre o espaço onde essas pessoas vão viver. As suas casas, as calçadas, as praças, o comércio da esquina, o ponto de ônibus, a árvore onde se encontra uma amiga. Tudo isso faz com que a experiência de envelhecer seja vivida na cidade. Ou não.

Existe um campo de estudo chamado de Gerontologia Ambiental que trabalha justamente com essa relação entre a pessoa e o ambiente. O espaço que pode favorecer autonomia ou produzir dependência. Que pode facilitar a permanência de alguém em seu bairro ou fazer com que, aos poucos, essa pessoa deixe de sair de casa. É o que chamamos hoje de conceito de aging in place, ou em bom português, o poder envelhecer no lugar em que se vive. Onde sempre se viveu. Onde se tem referências. Onde se construiu memórias.

Mas além do cuidado com os espaços privados e públicos, existe uma questão que precisamos colocar nessa conversa com muito mais urgência: o clima que está sofrendo mudanças drásticas. Ondas de calor matam pessoas. Enchentes matam pessoas. A umidade excessiva causa doenças e lota hospitais. Imaginem então como uma cidade quente, sem árvores, com pouco espaço de descanso e trajetos difíceis e que já cria obstáculos para uma pessoa idosa, ficará quando chegarem ondas de calor mais intensas, chuvas extremas ou inundações, esses obstáculos se transformam em riscos muito maiores.

E quem sofre mais com isso? Um dos grupos mais vulneráveis é o das pessoas idosas. O envelhecimento modifica a capacidade de regular a temperatura corporal. O calor extremo, por isso, pode ser especialmente perigoso para pessoas mais velhas. E existe ainda um efeito menos visível: quando sair de casa se torna desconfortável ou arriscado, a pessoa começa a reduzir seus deslocamentos. Primeiro deixa de ir à praça, depois evita o mercado, acaba adiando a visita à amiga. Começa a pedir que alguém compre o pão. A cidade passa a ser uma quase inimiga. Onde antes havia vida e trocas, a solidão vai aumentando a medida que as pessoas vão deixando de ocupá-la.

Sem falar das enchentes que assolam nosso estado e acrescentam outra - dramática - dimensão ao problema. Em uma emergência, imaginamos com facilidade quem consegue correr, carregar seus pertences, entrar em um carro e sair rapidamente de uma área de risco. Mas o planejamento precisa considerar também quem usa bengala ou andador, quem tem dificuldade para subir escadas, quem possui alguma limitação cognitiva ou quem vive em uma instituição de longa permanência. As pessoas não enfrentam uma emergência nas mesmas condições. Isso deveria estar presente nos protocolos de Defesa Civil, nos planos urbanos e nos projetos arquitetônicos. Deveria também fazer parte das decisões sobre onde construir, como construir e como adaptar o que já existe.

A mesma lógica vale para o dia a dia. Uma calçada nivelada facilita a vida de uma pessoa idosa, mas também de uma criança, de alguém que empurra um carrinho de bebê ou de quem sofreu uma lesão temporária. Uma árvore oferece sombra para quem caminha e reduz a temperatura do espaço urbano. Um banco permite que alguém faça uma pausa e continue seu percurso. Uma boa iluminação aumenta a segurança. Uma sinalização clara ajuda quem tem alguma dificuldade visual ou cognitiva.

Essas coisas parecem pequenas quando vistas isoladamente. Juntas, determinam quem consegue circular pela cidade com autonomia. Talvez por isso eu desconfie quando ouço que adaptar cidades para o envelhecimento é criar uma cidade para velhos. É uma visão estreita.

Uma cidade preparada para uma população que envelhece é uma cidade que reconhece a diversidade de quem a habita e dos tempos da vida. Crianças, adultos, pessoas com deficiência, gestantes e pessoas idosas compartilham muitos desses mesmos espaços e necessidades. 

O Brasil já está vivendo essa mudança demográfica. A população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em apenas 12 anos. No Rio Grande do Sul, o crescimento foi ainda maior, 74%, de acordo com o 
Censo Demográfico 2022 do IBGE. Mas Porto Alegre, assim como outras cidades, parece continuar projetada para outra população. Essa é uma situação que me interessa particularmente como arquiteta.

Estamos vivendo mais, mas ainda construímos muitos espaços como se a vida tivesse uma data de validade para a autonomia. E existe outra contradição: discutimos a crise climática muitas vezes a partir de grandes obras, energia, emissão de carbono e infraestrutura. Tudo isso importa. Mas existe uma dimensão cotidiana da questão ambiental que precisa entrar com mais força no planejamento urbano. A sombra de uma árvore importa. A proximidade de uma farmácia importa. A possibilidade de caminhar até o mercado importa. Um lugar para sentar importa. A existência de uma vizinhança onde alguém conhece seu nome pode importar tanto quanto uma solução tecnológica sofisticada.

Quando penso em envelhecimento e cidade, volto sempre para os meus vizinhos e para as pessoas que encontro pelas ruas. Eles não estão pedindo uma cidade especial. Querem apenas uma cidade que permita que suas vidas continuem acontecendo. E talvez esse seja um bom critério para avaliarmos nossas cidades daqui para frente: observar quem consegue continuar vivendo nelas quando o corpo muda, quando a temperatura sobe, quando a chuva vem forte, quando a mobilidade diminui.

A crise climática está nos obrigando a rever a maneira como ocupamos o território. O envelhecimento da população deveria nos obrigar a rever para quem estamos projetando esse território. 

Um pequeno resumo de artigos que pesquisei sobre o tema e podem embasar o debate necessário:

Desafios do Envelhecimento Urbano e Crise Climática: Uma Análise Gerontológica e Socioespacial

A Gerontologia Ambiental emerge como o campo interdisciplinar crítico para mediar a relação entre o indivíduo idoso e o seu entorno. Além dos pontos que citei acima, é importante citar: 

  • Invisibilidade em Protocolos de Emergência: Planos de contingência para desastres, como inundações, frequentemente falham em considerar a mobilidade reduzida e as necessidades específicas de idosos em Instituições de Longa Permanência (ILPIs).
  • Protagonismo e Políticas Públicas: A implementação de diretrizes da OMS para "Cidades Amigas do Idoso" ainda enfrenta barreiras culturais (idadismo) e falta de obrigatoriedade jurídica em protocolos nacionais.

Impactos das Mudanças Climáticas na População Idosa

As mudanças climáticas atuam como um multiplicador de riscos para a população idosa, afetando tanto a saúde física quanto a integridade social.
Ondas de Calor e Regulação Térmica: O envelhecimento natural dificulta a termorregulação do corpo, tornando as ondas de calor extremo potencialmente fatais. Exemplo Histórico: A França registrou 15 mil mortes de idosos em 2003 devido ao calor extremo, o que levou à criação de decretos obrigando estabelecimentos refrigerados a acolherem essa população.
Gestão de Crises e Inundações: Eventos extremos de chuva e inundações revelam falhas graves no planejamento urbano e institucional:
  • Vulnerabilidade em ILPIs: Instituições de longa permanência abrigam pessoas com limitações cognitivas e de mobilidade. A ausência de treinamento específico para gestores e planos de evacuação coordenados pela Defesa Civil coloca essas vidas em risco.
  • Inexistência de Protocolos Específicos: O Plano de Enfrentamento à Crise Climática de Porto Alegre (PLAC), por exemplo, agrupa idosos com crianças e pessoas com deficiência sem detalhar medidas para mobilidade reduzida ou idosos institucionalizados.

A Cidade como Ambiente Hostil: Barreiras e Necessidades

Pesquisas realizadas em capitais como São Paulo e Porto Alegre apontam que a infraestrutura urbana atual não acompanhou a transição demográfica.
Barreiras Urbanísticas Comuns
  • Mobilidade: Calçadas desniveladas, falta de rampas adequadas e pavimentos escorregadios são causas frequentes de quedas, que podem alterar permanentemente a autonomia de um idoso.
  • Comunicação e Sinalização: Há uma carência de sinalização acessível, essencial para indivíduos com declínio cognitivo.
  • Espaços Verdes: A destruição de áreas verdes urbanas retira o direito constitucional de acesso à cidade e elimina ilhas de frescor necessárias durante picos de calor.
Atributos e Funções de Espaços Públicos Ideais

Para serem considerados "amigáveis", os espaços públicos devem atender a requisitos objetivos e percepções subjetivas:
  • Funcionalidade (Atributos): Conforto térmico, arborização, proximidade de serviços, segurança no tráfego e superfícies niveladas.
  • Usabilidade (Perceções): Identidade histórica, apego ao lugar, motivação para interação social intergeracional e sensação de segurança.

Políticas Públicas e a Década do Envelhecimento (2021-2030)

A ONU e a OMS estabeleceram diretrizes para transformar as cidades em ambientes inclusivos, porém a implementação prática no Brasil é lenta.
Porto Alegre recebeu a certificação de 
Cidade Amiga do Idoso (OMS)em 2015, mas as diretrizes urbanísticas ainda enfrentam resistência para serem executadas. O guia estipula que o planejamento deve:
  • Promover a inclusão social e combater o idadismo (preconceito de idade).
  • Garantir transporte público acessível (incluindo isenção de tarifas para acompanhantes, em certos contextos).
  • Fomentar a participação cívica e o protagonismo sénior.
  • Desafios de Governança : Implementação Não Obrigatória: O Protocolo Nacional Conjunto para Proteção Integral (2012) não se tornou uma prática comum por não ser mandatório.
  • Omissão no Plano Diretor: Revisões recentes de planos diretores urbanos frequentemente tratam idosos apenas sob a ótica de isenções fiscais para construção de asilos, falhando em regular zonas seguras para essas edificações.
  • Educação Gerontológica: Especialistas defendem que os idosos não devem ser apenas "objetos" de políticas públicas, mas agentes ativos em sua formulação.

Conclusões e Recomendações

O cenário aponta para uma urgência em integrar o planejamento urbano à ciência do envelhecimento. A adaptação das cidades para a população idosa beneficia a sociedade como um todo, criando ambientes mais seguros e sustentáveis.

Principais Recomendações Extraídas dos Documentos:
  • Articulação com Unidades Básicas de Saúde (UBS): Utilizar a capilaridade das UBS para oferecer hidratação e refrigeração em dias de calor extremo.
  • Desenho Participativo: Incluir idosos no planejamento de jardins e espaços públicos em instituições e bairros.
  • Intergeracionalidade: Fomentar espaços que permitam a convivência entre diferentes faixas etárias, combatendo a segregação social dos mais velhos.
  • Revisão Urbanística: Garantir calçadas niveladas, iluminação adequada e mobiliário urbano (bancos para descanso) em trajetos curtos.

Bibliografia 
  • Jornal da Universidade (UFRGS). Reportagem: Meio ambiente | Avanços na ciência aumentam a expectativa de vida da humanidade, mas cidades não acompanham necessidades das pessoas idosas. Foto: Pietro Scopel. 05.02.26.
  • Martins, Ernesto Candeias. A implicação dos espaços públicos e do ambiente físico-social no envelhecimento (gerontologia ambiental). Instituto Politécnico de Castelo Branco. Comunicação no 3º Congresso Internacional AGE.COMM, 18 de novembro de 2023.
  • Nascimento, Mariana Alves da Silva do. Aging at Home in Brazil: Community Research from an Architectural Perspective. Universidade de São Paulo (USP). Simpósio "Aging in Place in Brazil", Abstract igae098.1282.
  • Tomasini, Sérgio Luiz Valente. Aging in Long-Term Care Facilities in Brazil: New Challenges for Institutional Environments. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Simpósio "Aging in Place in Brazil", Abstract igae098.1283.
  • Oswald, Frank. Rethinking the Place of Place for Aging: Enduring and New Challenges for Environmental Gerontology. Goethe University Frankfurt. Abstract igae098.1281.
  • Doll, Johannes; Kohlrausch, Estela. Aging in Place in Brazil: Some New Empirical Evidence and Remarks on the Role of Environments for Education. Abstract igae098.1280.
  • ONU / IBGE. World Population Prospects (2022) e dados do Censo demográfico brasileiro citados no contexto da reportagem do Jornal da Universidade.

Comentários

  1. Querida Elenara, se considerarmos que a idade da população está aumentando, e que a solução depende de planejar, projetar, e executar, já estamos muito atrasados neste cronograma!

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