Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida
Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura. Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares), do renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria.
Montaner parte de uma inquietação que me interessa particularmente: a arquitetura precisa rever alguns dos nomes, conceitos e certezas que construiu ao longo de sua história. E essa revisão passa por três dimensões inseparáveis, técnica, forma e ética.
A história da arquitetura costuma ser contada a partir de grandes nomes, grandes obras e grandes rupturas. Montaner percorre outro caminho. Volta ao Iluminismo e ao século XIX para mostrar como a Revolução Industrial modificou profundamente as possibilidades técnicas, mas também produziu problemas sociais, ambientais e éticos que continuam presentes. Nesse percurso, aparecem Gaudí, Walter Benjamin e outros personagens que ajudam a construir pontes entre tempos diferentes. A arquitetura vai deixando de ser apenas uma questão de forma e construção para se revelar como parte de transformações maiores da sociedade e da cidade.
Essa perspectiva me interessa porque, na prática profissional, é impossível separar completamente o edifício das pessoas que irão ocupá-lo. A técnica importa. A forma importa. Mas existe sempre alguém do outro lado dessas decisões, as pessoas que ocuparão estes espaços.
Na segunda parte do livro, Montaner propõe uma atualização dos conceitos da teoria contemporânea. Fala de sistemas modulares, habitações de emergência, cultura popular, realismo e, especialmente, da passagem de uma história centrada nos monumentos para uma atenção maior à memória coletiva e compartilhada. E aqui a arquitetura começa a ganhar outras escalas.
A memória de uma cidade não está apenas em seus edifícios reconhecidos como patrimônio. Está também nas casas onde famílias viveram durante décadas, nas praças onde gerações se encontraram, nos lugares que guardam histórias que dificilmente aparecem nos livros de arquitetura. E talvez também por isso, a dimensão ética proposta pelo autor tenha encontrado um eco profundo em mim. Quando pensamos em envelhecimento, por exemplo, a pergunta “para quem estamos projetando?” ganha outra densidade. Uma casa projetada para uma pessoa jovem e saudável pode se transformar em um território de obstáculos algumas décadas depois. Uma cidade que parece eficiente para quem se desloca de carro pode ser hostil para quem caminha lentamente, usa bengala, empurra um carrinho ou simplesmente precisa de um lugar para sentar. A arquitetura registra de forma concreta nossas escolhas projetuais muito antes de percebermos suas consequências.
Na terceira parte, Montaner questiona conceitos que durante muito tempo pareceram naturais aos ensinos e discursos da disciplina, como a autonomia da arquitetura, a ideia de estilo e a figura do arquiteto como herói individual. É uma crítica importante porque toca numa tradição que ainda persiste: a arquitetura como expressão da genialidade de seu autor. Pessoalmente nunca tive e tenho cada vez menos paciência para essa ideia de arquitetura como espetáculo autoral.
Montaner coloca os feminismos e o ecologismo no centro dessa revisão teórica. Com isso, amplia também todas as pessoas que participam da construção do pensamento arquitetônico. A disciplina passa a reconhecer experiências que durante muito tempo permaneceram nas margens. Quantas arquitetas ficaram esquecidas em suas trajetórias ou foram tratadas como exceção, quando deviam fazer parte das regras.
"quando se enterra a memória de nossas predecessoras, presume-se que não havia nenhuma, e cada geração de mulheres acredita que enfrenta o peso de estar fazendo tudo pela primeira vez" Joana Russ - pg 189
Isso me parece particularmente necessário quando pensamos nas cidades contemporâneas. Mulheres, pessoas idosas, crianças, pessoas com deficiência, pessoas em situação de vulnerabilidade, diferentes configurações familiares e diferentes modos de viver exigem que a arquitetura abandone algumas respostas prontas. A diversidade da vida é muito maior do que os modelos que nos ensinaram a desenhar.
É nesse ponto que a tríade proposta por Montaner ganha muito sentido. A evolução técnica pode incorporar tecnologias intermediárias, autoconstrução e soluções adequadas às condições de cada lugar. A evolução formal pode se afastar da obsessão pela imagem icônica e prestar mais atenção à cultura, à diversidade e ao cotidiano. E a dimensão ética pode recolocar a responsabilidade social no centro das decisões.
Depois de tantos anos de profissão, continuo acreditando que arquitetura é uma forma de construir espaços. Mas sempre acreditei que também é uma forma de revelar quem consideramos quando construímos. E talvez seja essa a provocação mais interessante que se leva da leitura de Montaner: antes de perguntar que arquitetura queremos fazer, talvez devêssemos perguntar quem e que mundo estamos imaginando quando projetamos.
Isso me parece particularmente necessário quando pensamos nas cidades contemporâneas. Mulheres, pessoas idosas, crianças, pessoas com deficiência, pessoas em situação de vulnerabilidade, diferentes configurações familiares e diferentes modos de viver exigem que a arquitetura abandone algumas respostas prontas. A diversidade da vida é muito maior do que os modelos que nos ensinaram a desenhar.
É nesse ponto que a tríade proposta por Montaner ganha muito sentido. A evolução técnica pode incorporar tecnologias intermediárias, autoconstrução e soluções adequadas às condições de cada lugar. A evolução formal pode se afastar da obsessão pela imagem icônica e prestar mais atenção à cultura, à diversidade e ao cotidiano. E a dimensão ética pode recolocar a responsabilidade social no centro das decisões.
Depois de tantos anos de profissão, continuo acreditando que arquitetura é uma forma de construir espaços. Mas sempre acreditei que também é uma forma de revelar quem consideramos quando construímos. E talvez seja essa a provocação mais interessante que se leva da leitura de Montaner: antes de perguntar que arquitetura queremos fazer, talvez devêssemos perguntar quem e que mundo estamos imaginando quando projetamos.
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