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O que seria o tal conceito no projeto de arquitetura?

Uma das coisas mais importantes para que uma edificação possa ser considerada arquitetura é ter um conceito, uma proposta. E isso só é possível se existir um programa para AQUELE problema, AQUELE cliente, AQUELE terreno. É a partir desses condicionantes que o arquiteto pode gerar uma solução que seja a mais adequada possível. Elenara Leitão - arquitetura é mais que desenho.
Tenho para mim que um dos maiores desafios da profissão arquitetura seja definir com consistência um conceito e segui-lo com coerência até o resultado final. 

Mas o que seria exatamente o conceito de um projeto arquitetônico?

Há quem o defina como a ideia mestra que vai nortear as decisões projetuais. Aquela ideia que surge da reflexão sobre os condicionantes estudados para muitos. Ou um insight milagroso que surge da mente do projetista e que vai gerar formas ou padrões que tragam algum significado, para outros.

Podemos ver pelas frases de arquitetos muitas de suas ideias mestras que geraram os conceitos de seus projetos. Quando Le Corbusier diz que "a casa é uma máquina de morar" podemos ver claramente isto posto em suas obras, como concebia os espaços de maneira ordenada e funcional. Já em Oscar Niemeyer a frase "se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito" quase se revela como antevisão de suas formas arredondadas e de traço livre. Aliás, analisar o discurso e a prática de muitos arquitetos nos dá uma visão fantástica do afazer arquitetônico.

Mas e nós, o comum dos mortais arquitetos, ou mesmo o leigo que adora a arquitetura como uma arte de bem morar e viver, como podemos entender o tal de conceito?

Conceito :  representação intelectual abstrata de um objeto

Mas qual objeto quando este ainda não existe? Lembrem-se que arquitetura lida, na maioria das vezes, com o futuro. Ou mesmo quando ele existe, uma reformulação do presente e portanto, ainda assim uma abstração, uma ideia de algo que ainda vai ser erigido.

Vamos ao básico. O cliente nos contacta, ou nós nos oferecemos para resolver ou conceber um determinado problema. Uma casa, um edifício, uma capela ou uma cozinha. Não importa a dimensão do espaço. Os passos básicos serão os mesmos. 



Conversar com o cliente para saber as necessidades. 
Medir espaços, móveis, terreno, enfim, levantar os aspectos físicos e condicionantes legais e desejáveis.
Até aí aparentemente não entrou o conceito? Muitas vezes já. Não inteiro, não total, mas ele começa a ser delineado nos aspectos intangíveis e nos insights que a interação entre cliente, problemática e bagagem do profissional faz acontecer.

A experiência do profissional faz o processo ser mais rápido ou mais lento. Digamos que seja um jovem profissional, ou um estudante. Como estabelecer uma ideia razoável que atenda a uma gama de dados já levantados? Começa a pesquisa do estado da arte. Há várias maneiras de estudar como outras pessoas solucionaram o mesmo problema. Entender o arcabouço de como se deu esse processo é um campo de aprendizado fascinante. Mais do que meramente copiar soluções sem ter a convicção necessária para defende-lo.    



Isso me lembra muito as angústias de projeto na época da graduação. Isso ou aquilo? Esta forma mais pura ou algo que cause um OHHHHH admirado? Custo x benefício? As possibilidades são tantas que se não estivermos com o nosso conceito muito bem estruturado, podemos nos perder nos processos e fazer um projeto final que mais pareça uma salada de frutas. E nem sempre uma forma bonita resulta numa construção que seja consistente. Vide os casos emblemáticos de projetos que ganharam concursos de arquitetura e foram demolidos poucos anos depois por não satisfazerem necessidades de seus habitantes.


Muito bem, estudos feitos, lidos livros, vistos projetos, formamos uma ideia mestra sobre o que queremos no projeto em questão. Vejam bem, uma ideia mestra, não uma ideia rígida. Há que se saber onde podemos tangenciar o conceito, onde não. Queremos uma casa eco eficiente. Perfeito, bolamos formas que se adequem à captação de energia solar, telhados verdes, captação de águas da chuva. O cliente nos impõem um orçamento não compatível, embora externe o desejo de sim, ter uma casa sustentável. Como conciliar ideia e prática? Lá vamos para o papel especificar algo que possa ser acrescentado no futuro sem maiores quebras ou obras. 

Somos formalistas e projetamos uma cozinha segundo a última tendência reinante nas mostras de decoração. Ela pode ser coerente se pensamos no que possa ser modificada para eventuais alterações de revestimentos ou eletrodomésticos. Ou rígida se tudo precisar ser demolido para que o mesmo cliente fique satisfeito algum tempo depois.

Um colega já me disse que nossos conceitos de projeto se parecem conosco, espelham nossas personalidades e tendo a acreditar que sim. São nosso resposta à um problema levantado. Outro profissional poderia dar outra solução. Embora tenha que admitir que as soluções cada vez mais se parecem entre si, havendo pouco espaço para sutilezas que mostrem a autoria. Ou quando existem, muitas vezes são tão forçadas que poderiam estar em qualquer lugar e não apenas naquele em questão.

Dizendo em bom português, o conceito seria o pensar criticamente sobre uma questão. E ao invés de partir para achismos ou soluções já adotadas, debruçar sobre o problema como se o visse pela primeira vez, estuda-lo com profundidade em todos os seus aspectos e aí, sim, adotar uma ideia sobre qual solução é a mais adequada para ele. 

Partir daí para a solução formal acaba sendo bem mais tranquilo que quebrar a cabeça a cada passo.

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