Pular para o conteúdo principal

Espaços de Museus - outros olhares

"Não se deixe intimidar com os museus. Eles pertencem a todos "
Quando arquitetos falam de Museus normalmente se deixam levar pelos vícios da profissão e pensam em imagens onde as formas se sobressaem. 


Imagens de uma pesquisa Google basica
E mesmo os espaços internos, se povoados, são normalmente assépticos e fico imaginando quando é possível encontrar espaços tão vazios para admirar obras de arte. Em Museus famosos, quando acontecem, são inesquecíveis como quando vi a Guernica ainda em um pequeno espaço de Madri. Mas a Mona Lisa vi acompanhada de uma multidão...

Refleti sobre isso mais especialmente ao ler o livro de uma amiga. O livro se chama Essências e Geografias de Berenice Sica Lamas. Conheci a Bere em uma oficina de poesias uns anos atrás e lendo agora um mosaico de suas vivências, experiências, viagens e descobertas me senti transportada para um olhar sensível que me mostra o espaço de museus de uma maneira tão bonita. Os espaços e formas conformam sensações e sentimentos que ela nos descreve com tanta simplicidade e complexidade que me encantou. Me lembrei de tantas experiências pessoais e de como convivi com esses espaços em pequena, como eles são fundamentais para nossa trajetória, como resguardam não só a beleza, aquilo que costumeiramente entendemos como Arte, mas são reflexos de épocas, de questionamentos, de enfrentamentos e reflexões. 

Nesses nossos tempos em que o papel da Arte vem sendo tão debatido, sinal inequívoco de sua extrema necessidade como polarizador das tensões e questionamentos de sociedades e pessoas, mais os espaços dos Museus se tornam relevantes como impulsionadores desses encontros pessoais e culturais. Tenho para mim que Arte é como a Arquitetura. Não necessita rótulos. Apenas pede que se debruce sobre as obras e tente entende-las, seus significados, suas intenções, sua existência. Vai muito além do simplório gosto ou não gosto. 

E nesses questionamentos encontrei alguns textos interessantes sobre o papel dos museus nos mundo de hoje. E me detive em quatro. 

Um que fala no papel desses espaços nos idosos e de como podem auxiliar pessoas com perda de memória. Podem ler AQUI.
   "À medida que a sociedade mudou, também tem o trabalho dos museusOs clientes podem ter desafios com memória de curto prazo, mas isso não significa que eles não podem desfrutar e beneficiar - uma tarde em um museu de arte. Aliança Americana de Museus.
O segundo, bastante questionador, e por isso mesmo interessante, questionando sobre o papel dos Museus atualmente e de como transgredir ou desestruturar a a maneira tradicional de ver e viver um Museu. Leia AQUI  
Clayton M. Christensen , autor de "Perturbar a classe: como a inovação disruptiva irá mudar a maneira como o mundo aprende" diz que "inovação disruptiva .... transforma um produto que historicamente era tão caro e complicado que apenas algumas pessoas com muito dinheiro e muita habilidade tiveram acesso a ele. A inovação disruptiva torna muito mais acessível e acessível que uma população muito maior tem acesso a ela ".
Dos momentos mais belos e enriquecedores para mim ao visitar um museu é a presença de crianças. Turmas que vão acompanhadas de professores aprender a interagir com tantas descobertas. E aí o terceiro artigo questiona: Por que precisamos de gerenciamento de sala de aula em museus? E talvez aí a leitura do segundo se faça mais compreensível até a ordem em que os coloquei aqui. 


E por último, e não menos importante: a censura. Vemos com apreensão o pedido de fechamento de exposições, a agressão verbal à visitantes das mesmas, museus famosos fazendo uma auto censura (como o caso do Louvre e da escultura abaixo) e já li até setores do legislativo municipal fazendo uma devassa em bibliotecas para extirpar livros (!). Não que a censura às artes seja uma coisa moderna, longe disso. Podem ver nesse texto sobre um pouco da censura na arte como:    
Ao longo da história da arte, obras foram alteradas, silenciadas e até mesmo apagadas devido ao "conteúdo inaceitável" das peças, sendo por questões religiosas, sociais ou políticas. No entanto, há séculos que os artistas vêm empurrando goela abaixo os limites do "ofensivo" com suas obras. Damaris de Angelo
Escultura que foi retirada do Louvre 
Mas não são justamente os Museus os guardiões da produção de pessoas que com suas visões aguçadas ajudaram a mudar padrões e a fomentaram a reflexão através de seus questionamentos?  
"Isso é algo que não deveria acontecer. Um museu deveria ser um local aberto de comunicação. O papel do museu e da imprensa é explicar o trabalho. A peça em si não é muito explícita. É uma forma abstrata, não há genitais. É bastante inocente."Joep van Lieshout
Não são os museus os locais onde reunimos pedaços de nossa produção como espécie que se pretende civilizada? Uma espécie que vai mais além da mera sobrevivência? Que se emociona com o Belo, que se inquieta com a finitude, que se indigna com tanta coisa, que "aponta a Lua, embora muitos só olhem o dedo" ....

E por que Arquitetos se importam com esse olhar sobre espaços? Porque não projetamos para o vazio. Não fazemos nossas criações para serem admiradas apenas por outros arquitetos. Projetamos para pessoas. E pessoas sentem, vivenciam, tem sensações. E tem visões e pensamentos diferenciados. Que projetemos uma arquitetura mais humana para facilitar essas trocas. 


Nos siga também nas redes sociais

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Slim Fit, uma micro casa que tem muito espaço

  Uma micro casa vertical de 50m², vencedora do Design Awards 2018 na cateHabitat, chamada de SLIM FIT House pela arquiteta portuguesa radicada na Holanda, Ana Rocha , é uma proposta de moradia permanente para pessoas que moram sós nas grandes cidades. Segundo o site da arquiteta, a micro-residência, que ocupa menos que duas vagas de estacionamento, tem como conceito ser projetada " para o grupo crescente de solteiros que preferem a localização ao invés do tamanho, e que desejam viver de forma compacta, mas confortável, durável, cheia de identidade e, acima de tudo, centralmente em contextos urbanos." A casa vertical joga bem com a equação sensação de espaço e economia de metragem. Setoriza área de alimentação, refeições e despensa no térreo. Uma escada, sutilmente mesclada a um armário estante faz a ligação aos outros andares. No segundo, um estar e dormitório e banheiro no terceiro.     Fotos: Christiane Wirth Nos siga também nas redes sociais Twitter   Flipboard   Faceboo

Redes sociais, o aprendizado e as interações perdidas e achadas

Sim que a vida digital trouxe uma série de vantagens em nossas vidas. Posso ser jurássica e em muitos casos, ainda analógica, mas amo uma interação social e profissional virtual. Um dos grandes locais onde conheci vários amigos super queridos, profissionais, que tanto me acrescentaram, foi o grupo de Arquitetura do Yahoo. Lembro até hoje quando li em uma revista de arquitetura sobre ele, me inscrevi e lá estava eu no meio de debates de todas as matizes e locais. Por isso senti profundamente quando os grupos daquela plataforma foram extintos.  Leia também  Nuvem passageira Por sorte, também sou acumuladora em redes virtuais . Meu espaço de email guarda uma série de debates desde 2005. Às vezes volto a eles e constato o quanto tem de assuntos relevantes, inclusive para os dias atuais. Fazendo uma breve reflexão tendo a pensar que, nesses 15 anos de interação virtual e convivência em redes, perdemos muito em profundidade de debates, embora tenhamos crescido em possibilidades. Lógico que f

Transformando um problema em solução - impressão 3D

Uma cabana feita com impressão 3D usando concreto e uma madeira que era imprestável, porque destruída por um inseto invasor, é o projeto realizado pelos professores de arquitetura, Leslie Lok e Sasa Zivkovic, da Cornell University. O Emerald Ash Borer é um besouro que ataca bilhões de freixos em todos os Estados Unidos e as inutiliza para o uso comercial. fazendo com que as árvores infestadas sejam queimadas ou simplesmente largadas como refugo. Foi pensando neste problema que os pesquisadores da HANNAH chegaram a essa solução de aproveitamento da madeira para construção. Para tanto construíram uma plataforma robótica para processar essa madeira que seria descartada. Como isso foi feito? Usando um braço robótico que antes construía carros e foi adaptado para dar forma à madeira, aliado a um sistema de impressão 3D que usa uma quantidade mínima necessária de concreto. O resultado? Fotos: HANNAH / Andy Chen / Reuben Chen Nos siga também nas redes sociais Twitter   Flipboard   Facebook  

Dicas para economizar na conta da luz

  Não bastasse os sustos do ano, os gastos do fim dele (ufa!) que não são apenas presentes, mas impostos, 13°, etc, etc, vamos ter também bandeira vermelha nas contas de luz. A Agência Nacional de Energia Elétrica já tomou essa decisão, que começa a vigorar no começo de dezembro.  O verão se aproxima com promessas de muito calor, estamos usando muitos aparelhos em casa para manter nossa rotina e trabalho seguindo. Então o que podemos fazer para economizar e não levar (tanto) susto na hora de pagar a conta?    Consciência Em primeiro lugar: consciência. Parece básico, mas não é. Sabe aquele ato automático de abrir a geladeira e ficar pensando no que vai comer? Ou beber? Não faça. Deixar acesas luzes em ambientes onde ninguém está. Apague. Lembro sempre do meu pai que nos incutiu essa cultura do não desperdício desde pequenos. Assimile e passe adiante. Splits e ar condicionado Este será um verão atípico porque muitas vezes teremos que abrir mão de ventilação mecânica em função da pandemi