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Obra de Debret...e a pergunta: Pode-se conter o artista?

Quem me acompanha há mais tempo aqui no blog, sabe que uma das minhas diversões prediletas são as atividades gastronômicas culturais (e etílicas) do Studio Clio. Elas me dão um refresco na alma e me garantem um alento de sobrevivência porque sem Arte e sem diversão a Vida fica muito pequena. E chata.

O tema do almoço cultural era o olhar de Debret sobre a realidade do Brasil oitocentista. E é interessante destacar como os estados (leia-se aristocracia reinante) de então se valiam dos artistas para passar o seu recado. Pensem que afinal não havia redes sociais, não havia fotografia e cabia aos artistas, especialmente os pintores, a tarefa de mostrar como eram e como viviam os poderosos. E talvez fosse isso o que motivasse tantos mecenatos (e ora vivas que assim o fosse!). Ganhamos todos nós com obras que retratam a arquitetura, os palácios e os acontecimentos importantes. 

Mas ( e aí se encontra um poder fantástico do artista - ser desafiador e curioso), muitos desses que foram contratados para a tarefa de divulgadores do status quo, olhavam além. E seus olhares sensíveis não ficavam alheios à realidade da vida cotidiana. Foi o caso de Debret (com essa intenção ou não) que fez vários estudos e retratou uma realidade que lhe espantava. Talvez encantava de um lado pela diversidade de cores e frutos. Mas também lhe causava espécie o papel dos menos favorecidos (os escravos) que arcavam com o ônus do trabalho duro.
“Tudo assenta, pois, neste país, no escravo negro”. Na roça, o escravo rega com seu suor as plantações do agricultor. Na cidade, o comerciante fá-lo carregar pesados fardos. Se pertence ao capitalista é como operário ou na qualidade de moço de recados que aumenta a renda do senhor. Mas, sempre mediocremente alimentado e maltratado, contrai às vezes os vícios de nossos domésticos, expondo-se a castigos públicos, revoltantes para um europeu”. Debret
No meio de um ambiente acolhedor, desfrutando de um excelente almoço e passeando pelas obras de Debret que mostravam um Rio de antigamente, não pude deixar de pensar no papel da Arte e do artista nos dias de hoje. 

Em tempos de câmeras e meios digitais que retratam tudo sobre a vida de todo mundo (acabo de saber que um jornalista divulgou um exame médico de uma pessoa por julgar de interesse público ao arrepio da privacidade de um doente) é de se pensar como esse olhar desafiador do artista que capta a realidade se manifesta nos nossos dias. Há os que defendem que a Arte deva ser enquadrada e restrita à locais apropriados. Outros defendem a liberdade de expressão, mesmo que fira a propriedade privada. A pergunta é: pode-se conter o artista? Quem define o que é arte? Muitos dos gênios de hoje foram execrados em suas épocas. O que admiramos em Debret hoje não são exatamente as suas obras oficiais mas as que fez pelo seu desejo interno de retratar algo que lhe espantava...   
Almoço Clio | Os pinceis de Debret e seu olhar sobre o Brasil oitocentista
Charles Lopes

"Convidado para integrar a Missão Artística Francesa, Jean-Baptiste Debret desembarcou no Brasil em 26 de março de 1816. Sua principal incumbência, juntamente com outros compatriotas, era a de elaborar as bases de uma Academia de Belas Artes. Ao longo de sua permanência por 15 anos no país, o artista desenvolveu uma intensa relação pessoal e emocional com o território brasileiro. Nesse período, retratou o cotidiano e a sociedade do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro. Com sua minuciosa observação eternizou a realeza, a vida da nobreza, o cotidiano de escravos, e os festejos populares do período.Nesse Almoço Clio, o professor Me. Charles Ross Lopes convida a percorrer algumas obras desse magnífico artista, que se consolidaram como registros históricos da formação de nosso povo e nação. Enfim, conheceremos um pouco da produção desse importante mestre para a pintura brasileira. Gastronomia da chef Carine Tigre."
Entrada : Empadinhas de queijo com saladinha de rúcula (adoro empadas então sou suspeita para elogiar, mas estava delicioso. Pena ser só uma...)
Principal: Picadinho à la calvados com purê de mandioca (não costumo comer carne vermelha, mas a quantidade dela não era exagerada e tinha algo no meio que não soube definir se era uva ou cogumelo...mas o aroma e o sabor...dos Deuses!)

Sobremesa: Bavaroise de manga com couli de maracujá (saia justa do almoço. Não curto maracujá - é uma longa história e qualquer dia eu conto. Mas gosto de manga e noves fora, estava muito bom) 
Fonte das imagens de Debret - Carta Capital

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