O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Pritzker 2016 - Arquitetura melhorando a vida das pessoas

Um jovem chileno com uma produção engajada socialmente é o ganhador do Nobel da Arquitetura, o prêmio Pritzker.  Desde 1979 arquitetos das mais variadas origens, quase todos homens, tem sido premiados pelas suas obras, entre eles Oscar Niemeyer (1988) e Paulo Mendes da Rocha (2006). Alejandro Aravena, o premiado de 2016, parece consolidar uma tendência de que a Arquitetura seja vista não apenas como geradora de beleza e produção individual de um artista genial, mas como uma profissão que pode contribuir para a vida das pessoas.
a arquitetura, no seu melhor, pode melhorar a vida das pessoas. Tom Pritzker
Foi uma notícia que muito me alegrou. Eu sempre vi a Arquitetura como fator de aprimoramento da sociedade. Admiro grandes obras que encantam pela beleza, elas tem a sua função também já que a arte, o belo, nos resgata um lado mais humano e sensível. Faz bem à alma. Mas também sei que grandes obras como essas necessitam geralmente de um mecenas que as banque (basta olhar a história da humanidade). 

Por outro lado, nem todos moramos em Palácios ou templos. Nós moramos em casas reais, com problemas reais que necessitam soluções. E há aquelas camadas da população que são mais carentes e por isso mesmo, ainda mais necessitadas de quem proponha ideias e projetos de habitações e espaços que sejam funcionais, econômicos na execução e manutenção, ambientalmente corretos. E com isso tudo equacionado, resultem belos.

Este é o caso do trabalho de Aravena. Com seu estúdio ELEMENTAL vem se dedicando à habitações sociais, com propostas eficazes e arrebatando vários prêmios na sua trajetória.     
UC Innovation Center – Anacleto Angelini, 2014, San Joaquín Campus, Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile
Sketch by ELEMENTAL (Alejandro Aravena)
Monterrey Housing, 2010, Monterrey, Mexico
Photo by Ramiro Ramirez — An example of middle-class standard achieved by the residents themselves.


Quinta Monroy Housing, 2004, Iquique, Chile
Photos by Cristobal Palma — Left: “Half of a good house” financed with public money. Right: Middle-class standard achieved by the residents themselves.

Siamese Towers, 2005, San Joaquín Campus, Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile, University classrooms and offices
Sketch by Alejandro Aravena

As justificativas para a escolha de seu nome na premiação de 2016 encerram o reconhecimento do seu protagonismo como participe da construção de soluções que beneficiem a humanidade.
Alejandro Aravena simboliza o renascimento de um arquiteto mais socialmente engajado, especialmente em seu compromisso de longo prazo para enfrentar a crise global da habitação e lutar por um melhor ambiente urbano para todos. Ele tem uma profunda compreensão da arquitetura e da sociedade civil, como se reflete em sua escrita, sua militância e seus projetos. O papel do arquiteto está agora a ser desafiado para servir maiores necessidades sociais e humanitárias, e Alejandro Aravena claramente, generosa e totalmente respondeu a este desafio. 
 Essa premiação com todo a visibilidade que atrai, sinaliza rumos para a Arquitetura. Mais que uma produção de mentes individuais, um trabalho solidário e construtivo. Mais que obras que causam um OHHHH pela monumentalidade, um trabalho de construção conjunta e focado nas necessidades humanas, mormente as de populações mais carentes. Uma arquitetura mais social e mais afeita ao mundo onde se insere. 

Mas ainda temos muito a percorrer. Uma arquitetura social de verdade deve ser propositiva de não apenas habitações, mas de soluções urbanas que transformem nossas cidades, nossos espaços, nossa vida. Urge que arquitetos se voltem para a potencialidade que tem a oferecer com a solução dessas necessidades.


Muito mais do que trabalhar com arquitetura para camadas de rendas diferenciadas, que não têm acesso a arquitetura, a nossa função social hoje é, principalmente, trabalhar com a cidade. Entender a cidade no seu conjunto. Atualmente, cada vez mais, a produção da cidade é feita de forma fragmentada, setorial , abandonando a ideia de planejamento e de perspectivas de métodos de qualificação, de ampliação e de expansão da cidade. arquiteta e urbanista Angela Gordilho


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