Quem o algoritmo vê? Gerontoarquitetura, desenho e os invisíveis do projeto

 Quem o algoritmo vê? 

O que o desenho computacional ainda não aprendeu sobre envelhecer na cidade


Cruzar gerontoarquitetura com design algorítmico levanta uma pergunta que nenhum software resolve sozinho: aging in place para quem? Quem entra nos parâmetros. Quem vira exceção. Quem nem chega a existir como dado.

Começando com uma historinha imaginária, mas que poderia ser real. Imagine ver um pombo pousando na calçada Rua da Praia. A ave fica parada enquanto a cidade continua. Não tenta desviar das pessoas, apenas espera. Há algo de ancião no jeito como fica quieto no meio do movimento, seguro de si, sem pressa de provar nada.

Pensei nisso enquanto pesquisava sobre ferramentas de parametric design aplicadas ao planejamento urbano. Softwares que geram plantas, otimizam fluxos de circulação, simulam incidência de luz, calculam acessibilidade. Promessas tecnológicas que chegam embrulhadas em palavras como "inclusivo", "resiliente", "centrado no usuário". E me perguntei: qual usuário? Qual corpo esse sistema aprendeu a reconhecer?

O que "aging in place" carrega quando a ferramenta não envelhece

O conceito de aging in place, envelhecer no lugar de origem, na própria casa, no próprio bairro, virou balizador de políticas urbanas em boa parte do mundo. A OMS formalizou o que já era uma percepção evidente: forçar pessoas idosas a deixarem seus espaços afetivos tem custo físico, cognitivo e emocional enorme. A cidade amiga do idoso não deveria ser uma concessão já que é uma questão de saúde pública.

Mas quando esse conceito encontra o desenho paramétrico e os sistemas de inteligência artificial aplicados ao urbanismo, há um momento de atritos que nem sempre aparece nos relatórios técnicos. Os algoritmos aprendem com dados históricos. E para quem foram produzidos estes dados históricos do espaço urbano? Em sua maioria para corpos jovens, masculinos, sem limitações de mobilidade, sem deficiência, sem a experiência de orientação espacial comprometida pela demência ou pela baixa visão.

32%da população brasileira terá mais de 60 anos até 2050
67%das cidades brasileiras não têm planos de acessibilidade adequados ao envelhecimento
1 em 4pessoas acima de 80 anos tem algum grau de comprometimento cognitivo relevante

Esses números estão em relatórios mas raramente entram nos conjuntos de dados que treinam sistemas de análise urbana. O que o algoritmo aprende a otimizar é, com frequência, a experiência do pedestre médio, uma abstração, mas que foi construída como norma.

Gerontoarquitetura: adaptação ou reconhecimento.

Preciso ser precisa aqui porque confundir esses dois termos tem consequências projetuais sérias. Adaptar é partir de uma forma já concebida e tentar torná-la funcional para quem ficou de fora. É a rampa ao lado da escada, o banheiro adaptado que não cabe cadeira de rodas porque o banheiro original não foi pensado com largura suficiente.

Reconhecer é outro movimento. É começar a pergunta projetual desde o corpo que envelhece, desde a pessoa que tem 78 anos e leva o neto ao mercado, desde quem usa bengala não porque é fraca, mas porque as calçadas urbanas podem ser campos de batalha. É perguntar, antes de qualquer parâmetro: quem usa esse espaço às 6h da manhã, quando ainda está escuro e o frio úmido do sul endurece as articulações?

O algoritmo não tem articulações. Não sente o brilho de um piso liso sob sol de verão. Não hesita na beira de um meio-fio rebaixado de forma irregular. Mas pode ser ensinado a considerar quem sente.

Reflexão do blog Arquitetando Ideias

A gerontoarquitetura, quando praticada com rigor, exige que o projetista entenda fenomenologia do envelhecimento: como a percepção de profundidade muda, como o contraste visual se torna essencial, como a fadiga cognitiva transforma um espaço "simples" em labirinto. Isso não está em nenhuma biblioteca de parâmetros pronta para download.

O problema de quem define a diversidade "real"

Há uma contradição deliciosa no modo como o urbanismo contemporâneo fala de diversidade. Produz-se muito material sobre "espaços inclusivos" e ao mesmo tempo utilizam-se ferramentas que homogeneízam o usuário a partir do momento em que traduzem o problema para linguagem computacional.

Pense em como funciona um sistema de simulação de fluxo pedestre em software paramétrico. O modelo define agentes: velocidade média de deslocamento, capacidade de desvio de obstáculos, raio de percepção. Esses parâmetros vêm de estudos empíricos, que foram feitos, majoritariamente, com adultos sem deficiência em contextos ocidentais específicos. O idoso de 82 anos que caminha com andador não aparece como agente padrão. Aparece, quando muito, como variável a ajustar manualmente, como exceção que alguém precisa lembrar de incluir.

E antes do idoso com andador, pense em quem nem chega a essa etapa: a mulher de 70 anos com deficiência visual congênita que também está envelhecendo. A pessoa com múltiplas condições crônicas. O homem negro de periferia cuja rua nunca recebeu investimento de mobilidade e portanto nunca produziu dado de fluxo pedestre sistematizado. Esses corpos passam longe de ser exceções, so a maioria da população urbana invisibilizada nos conjuntos de dados.

Sistemas que poderiam aprender diferente

Aqui não quero ser apenas crítica. O cruzamento entre gerontoarquitetura e desenho algorítmico tem potencial genuíno se partir de pressupostos diferentes.

Primeiramente, os dados precisam ser coletados de forma participativa, com as pessoas que efetivamente usam o espaço. Isso significa metodologias como caminhadas acompanhadas com idosos, mapeamento de pontos de fadiga, entrevistas sobre percepção de segurança. Dados qualitativos que podem, sim, ser incorporados em sistemas computacionais, mas que não aparecem espontaneamente em nenhum banco de dados público.

Em segundo lugar, os parâmetros de avaliação precisam ser revisados. Um espaço que otimiza velocidade de fluxo penaliza quem anda devagar. Um espaço que otimiza "eficiência" de circulação pode eliminar os bancos de praça onde alguém descansa, o guarda-chuva de uma árvore grande que protege do sol, o ponto de referência visual que orienta quem tem comprometimento cognitivo leve.

A ressonância do que o projeto decide ignorar


Existe um princípio que aprendi observando projetos que envelhecem bem: a coerência entre intenção e consequência. Um espaço projetado para ser inclusivo que não inclui é mais desonesto do que um espaço que nunca reivindicou essa qualidade. A retórica da inovação tecnológica aplicada ao urbanismo às vezes funciona exatamente como essa desonestidade: anuncia diversidade enquanto parametriza a normalidade.

A essência do que gerontoarquitetura tenta fazer é reconhecer que envelhecer é o destino de quem sobrevive, e que o espaço que ignora esse processo ignora o tempo. Algoritmos não têm memória afetiva do lugar. Não sabem o que significa ter passado cinquenta anos na mesma esquina e não conseguir mais atravessá-la com segurança. Não calculam a humilhação silenciosa de precisar pedir ajuda para subir um meio-fio que simplesmente não deveria estar ali.

Mas podem aprender a mapear onde essas humilhações acontecem com maior frequência. Podem identificar padrões de exclusão espacial. Podem cruzar dados de atendimento de emergência com topografia urbana e encontrar correlações que nenhum gestor municipal vai perceber olhando para um mapa estático.

O ponto não é desconfiar da ferramenta. É desconfiar de quem define o problema antes de acioná-la.

Da próxima vez que você ler sobre uma "cidade inteligente" que promete ser amiga do idoso, pergunte: quais dados treinaram esse sistema? Quem foi entrevistado? Quem ficou de fora do mapa? Porque cidade amiga não é aquela que tem boa tecnologia. É aquela que tem boa pergunta. E a pergunta começa sempre pelo mesmo lugar incômodo: quem a cidade decide não ver?

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