A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Destruir o edificio, destrói a memória? Neruda e Luiz Carlos Prestes

Uma das funções da Arquitetura é ser símbolo e memória. Seja em forma individual, uma casa ou mais coletiva, um memorial. Falo isso por duas coisas que li essa semana. Uma o livro de Matilde Urrutia, Minha Vida com Pablo Neruda onde ela relata como suas casas foram destruídas durante o golpe militar de 1973 no Chile. Outra a notícia dessa semana em que um protesto falava em demolir o memorial de Luiz Carlos Prestes em Porto Alegre. O crime dos dois? Serem comunistas na visão dos oponentes. Nem vou entrar no mérito de quem tem razão, ou de que o comunismo, quando regime vigente em muitos países também cometeu o mesmo tipo de barbárie. Vou falar exatamente do ato simbólico de destruir o que não aceitamos. Destruir um edifício, uma estátua, um tempo, mudar o nome de uma rua ou monumento apaga o que houve? Não. Destruir nunca apaga a memória de ideias e atos que marcam a história. 

Nem as poesias de Neruda morreram com as suas casas (que depois foram restauradas) nem a proeza da marcha de 25 mil quilômetros da Coluna Prestes e toda a sua história posterior se apagaria com uma eventual demolição do Memorial Luiz Carlos Prestes.

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O único projeto de Oscar Niemeyer (laureado com o Pritzker, o Nobel da Arquitetura) feito em Porto Alegre, o memorial tem 700 m2 de área edificada e está localizado na Av. Edvaldo Pereira Paiva, perto do Rio (ou Lago) Guaíba. Com uma foice e martelo no teto, alusão ao símbolo comunista, o prédio usa a cor vermelha como elemento marcante. Ele terá uma área de exposição com o acervo de fotos e documentos da vida de Prestes, biblioteca e miniauditório.
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“Como arquiteto, vejo, satisfeito, que meu projeto vai contribuir para manter viva a memória de Luiz Carlos Prestes, um brasileiro que lutou em favor de seu povo, contra a miséria e a desigualdade social que, infelizmente, ainda persistem em nosso país. (…)" Oscar Niemeier

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Polêmicas a parte sobre o projeto, aliás como o são todos os projetos e detalhamento (ou falta dele) de Niemeyer, vou me deter mais na figura histórica de Prestes. Principalmente porque 2014 marca os 90 anos do início da famosa marcha, que começa em outubro de 1941, na cidade de Santo Ângelo (RS) e que durou dois anos e meio e percorreu 25 mil quilômetros. Abaixo o memorial de Prestes naquela cidade, que tive a oportunidade de conhecer há pouco tempo.
Foto Elenara Stein Leitão
Foto Elenara Stein Leitão
90 anos da Coluna Prestes e 90 anos da morte de meu avô, jornalista Fábio Leitão, morto no combate do Barro Vermelho, no levante do 3 Batalhão de Engenharia de Cachoeira do Sul. Vô Fábio era um jovem idealista de 36 anos, maragato combativo e atuante. Sempre penso que, se não tivesse perecido naquele 10 de novembro de 1924, será que teria acompanhado Luiz Carlos Prestes em sua coluna e marcha pelo país? Nunca saberei. Deixou viúva minha avó Estelita, com 26 anos, e quatro filhos pequenos. Meu pai com três anos não se lembrava do pai, mas sempre cultuou a sua memória.

Não, a Coluna não foi uma unanimidade e nem foi um ato pacífico. Mas quem conhece um pouco da história recente do nosso estado e país vai saber que os tempos eram bastante mais bélicos.
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Para se ter um real posicionamento da História é preciso conhecê-la. Não basta bater o pé e tentar riscar do mapa o que não nos serve ou renegamos como verdade. Sob pena de legitimarmos a derrubada dos Budas de Bamyan 

Independente de se gostar ou não do que acreditavam em algum momento de suas vidas Neruda e Prestes eles marcaram a História com vozes e atos. Neruda com a sua poesia conquistou um Nobel de Literatura. Prestes realizou uma marcha inédita no mundo. Os dois são seres históricos do maior quilate. Muito maiores do que qualquer fanatismo vindo talvez da ignorância de suas histórias e importância.

Pense nisso: Destruir edifícios e/ou livros não destrói a memória. Ideias se debatem com ideias.   

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