O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Descarte-se o que não temos tempo para cuidar

Imagem gerada por IA (SeaArt)

Eufemismo de nossos dias chamar asilos de Instituições de Longa Permanência para Idoso (ILPI). Não deixa de ser depósito de velhos. Por mais pragmatismo que possamos ter ao concordar que não conseguimos cuidar de nossos anciões, que ficam melhor abrigados em lares onde possam morar com conforto e cuidados adequados, a verdade é uma só:
Falhamos como sociedade.
Podemos chamar de ILPI, senior house, master o que for, mas isso abriga a triste verdade que não temos tempo para nada que não seja produzir, consumir, correr.
Sobreviver.
Para que mesmo?
Para ter a casa melhor. Para comprar o produto mais refinado, mais moderno. Para se aprimorar mais. Ganhar mais. Garantir uma aposentadoria mais tranquila.
Para que mesmo?
Para, no fim da vida, ter que ir para um local com mais velhos para esperar a morte chegar com mais tranquilidade.
Para ter estranhos que nos cuidem, troquem nossas fraldas, escutem pela milésima vez nossas histórias, fazendo de conta que acham graça. E nós, fazendo de conta que a vida valeu a pena.
Desculpem a acidez, mas passar o tempo em uma sociedade onde somos descartáveis quando não somos mais úteis é muito triste.
Passar os últimos anos sem a presença dos locais de afeto, reduzidos a descarte, visitados em dias de festa, e olhe lá.
Vestidos, embonecados em ocasiões especiais, onde tiram fotos de nossos rostos enrugados e exibem nossas faces velhas como para mostrar o quanto se importam conosco.
Trocaríamos as festinhas ridículas, onde nos tratam como crianças, pedindo para abanar bracinhos e perninhas, por momentos de troca real com gente que amamos.
Ouvir a voz do filho de longe, sentir seus braços de afeto, sorrir quando ele escuta e lembra o tanto que fizemos.
Tempo, seu malvado, nos afastou da vida verdadeira e nos jogou no limbo de um depósito de velhos para que façamos de conta que ainda temos muito a esperar da vida.
Um manifesto por uma sociedade onde se trate com dignidade quem muito produziu. E que não se trate como descarte quem ainda tem vida e sabedoria para trocar.



Comentários

  1. Acompanho seus textos pelo flipboard. E hoje deixei de ser um espectador de pedra e venho dar meus parabens. Seus textos são ótimos, principalmente sob o ponto de vista crítico e humano.

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    1. Obrigada, principalmente em um texto que saiu das entranhas e que pensei muito se devia ou não escrever. Grande abraço e deixe mais comentários!

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  2. Parabéns pelo texto! Muito verdadeiro

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  3. Excelente texto, que sirva de inspiração para todos.

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