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A linguagem das cidades - indicação de livro



Os livros nos ajudam a compreender o mundo através das viagens que fazemos em suas palavras e, principalmente, nos questionamentos que nos abrem. Um livro que nos faz refletir sobre as cidades onde vivemos, seus significados, suas ideias, monumentos e como nós, seres que as habitam, nos relacionamos com elas, que nos faz viajar pelo fascinante mundo real urbano e do que nos faz sentir pertencentes ou não à uma cidade. Esta a sensação que tive ao devorar O Linguagem das cidades, de Deyan Sudjic. Mas já lhes digo que é um livro que desperta curiosidades. Como e por que mudam ou não mudam as cidades foi um dos motes iniciais do autor que é escritor e diretor do Design Museum de Londres.



O que é uma cidade?

Muitos de nós podemos responder de variadas formas, um amontoado de casas, um núcleo urbano com relações significativas, um lugar onde viver em comunidade. O autor dedica um capítulo para nos falar do significado de cidade. E destaca que "uma verdadeira cidade oferece aos seus cidadãos a liberdade de se tornarem aquilo que desejam". E reforça dizendo que "há evidências reconfortantes de que aquelas cidades que praticam a tolerância são mais prósperas do que as intolerantes". Isso pode nos levar à uma ideia de utopia, mas ele vai mais fundo e analisa as relações de poder político e econômico que vemos em cidades. A capacidade de subsistência e como muitas entram em declínio, algumas chegando a morrer e deixando ruínas que atestam uma vida pregressa. Salienta que as cidades que tem a capacidade de se reinventarem conseguem sobreviver com mais sucesso. A expansão e os limites urbanos também merecem sua atenção neste capítulo onde discorre sobre os planejamentos que tentaram delimitar o crescimento natural das cidades, propondo um ordenamento higiênico que mudou o perfil de muitos centros urbanos e criou outros inteiramente novos. Confesso que é interessante ler um não arquiteto falando sobre isso, ele abre novos olhares que a leitura técnica muitas vezes não alcança.


Como fazer uma cidade

No segundo capítulo lemos sobre os mecanismos e maneiras de como as cidades são feitas, sendo que o primeiro requisito é um nome. Cidades cujas identidades são contestadas, segundo o autor, acabam por ter nomes múltiplos. Os exemplos de cidades que tiveram seus nomes mudados por variadas razões são conhecidos, e há as que ainda hoje sejam chamadas de várias maneiras, mas também quanto mais poderosa econômicamente for uma cidade, "mais provável que seus parceiros comerciais usem seu nome comum."

Os monumentos são outra forma de significar uma cidade. podendo representa-las sem palavras ou legendas. São marcos visuais e registram sua história, tendo um aspecto emocional bastante significativo para seus habitantes. Não a toa são alvo de destruição em guerras, revoluções e a ficção os usa como marcos de impacto nas mudanças sociais. A cena final do primeiro filme O Planeta dos Macacos que o diga.

As pessoas obviamente são o recurso principal em uma cidade. Não apenas pelo número mas também pelo impacto que podem gerar. Fomentar a vinda de empreendedores e/ou cérebros brilhantes em incubadoras e universidades pode gerar dividendos imensos para os centros urbanos. Fazer essas pessoas quererem morar ali pode modificar a história das cidades, as perpetuando em história e riquezas.

"As ruas são o produto de uma mescla entre arquitetura e economia, visão e ganância, infraestrutura e modismo".

E além das ruas, a navegação por uma cidade, seja real ou digital, nos ofereça a segurança do anonimato, diferente da aldeia onde todos se conhecem, com a possibilidade de escolher múltiplos caminhos que a sua diversidade e tolerância oferecem.   

Como mudar uma cidade

Um capítulo com mais exemplos práticos de como intenções planejadas ou não podem mudar o contorno das cidades, valorizando e revitalizando zonas abandonadas ou degradadas. E aqui entram os visionários que por motivos vários, enxergam outros rumos e os fazem acontecer. Avenidas rasgadas pela força de leis que controlam possíveis rebeldias revolucionárias, mas que acabam por marcar uma cidade e a tornam referência de muitos planejamentos. Um distrito comercial, um grande e simbólico edifício, aeroportos e infraestrutura que sinalize e marque o apogeu que se pretende para aquela cidade, fazendo com que seja reconhecida mundialmente e atraia investimentos e prestígio. O autor salienta que "para uma cidade a prática pode ser mais importante que a teoria". 

O governo de uma cidade

Foi sobre a inspiração do mural "A alegoria do bom e do mau governo" de Ambrogio Lorenzetti em Siena que Sudjic escreveu grande parte de seu livro. 


Um capítulo em tudo interessante onde analisa os planejamentos impostos e os mais orgânicos que respeitam a democracia com possibilidade de avaliação por parte de seus habitantes. Alerta para a complexidade do que forma uma cidade e como ela não pode ser simplificada para quase um faz de conta (o mundo de Truman lembra algo?). E termina com a constatação de que "uma cidade bem-sucedida é a que caminho para surpresas e que dependem do tipo de democracia que supõe mais que votar".

A ideia de uma cidade

Uma das ideias modernistas de "controlar a cidade incontrolável" parece uma passado utópico distante ao vermos nossas ficções mostrando projeções de centros urbanos caóticos e extremamente densos. E fala de Venturi e de como Las Vegas alertou para o mundo como ele é e não como o imaginamos.


Esse olhar revolucionário do arquiteto para o mundo real também abrange assentamentos sem riqueza e sem opções, mas muito vibrantes de relações humanas e necessitando de um olhar apurado e múltiplo. E termina com as modernas cidades do vale do silício onde a velocidade e mudança talvez sejam o melhor exemplo das relações urbanas dos nossos dias.

As multidões e seu mal-estar


"Uma cidade sem pessoas é uma cidade morta". 

As pessoas oferecem segurança seja para exigir negociações, seja para circular pelas ruas. Se alguém se queixa da violência das nossas ruas, imaginem percorre-las nas madrugadas..."Espaços públicos legíveis, bonitos e com boa facilidade de circulação fazem os indivíduos se sentirem parte de algo que compartilham com o resto da cidade".

Uma leitura para nos contextualizar com nosso ambiente urbano, sua linguagem e significados. E pensar com mais reflexão sobre o que é nossa cidade.


A linguagem das cidades 


A maioria de nós vive hoje em cidades. Mas o que faz uma cidade ser uma cidade? É um lugar? Uma ideia? E como deveríamos definir a cidade que evolui hoje? Deyan Sudjic, diretor do Design Museum de Londres, decodifica as forças fundamentais que configuram os espaços urbanos ao nosso redor, de seus prédios a seus nomes; do poder das multidões ao motivo de ser paulistano, nova-iorquino ou moscovita pode nos trazer uma sensação de identidade e pertencimento maior do que qualquer outra.

“Um livro profundamente original e necessário.”
Alain de Botton

“Um guia indispensável sobre aquilo que faz uma cidade ser uma verdadeira cidade.”
Evening Standard

“Um pequeno e agradável guia sobre o que são as cidades e como elas funcionam.”
Financial Times




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