Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Gosto não se discute! Não?

Gosto é gosto e é coisa pessoal. Afinal o que seria do amarelo se todos amassem o fúcsia, não é verdade?

Não, essa coisa de respeito ao gosto alheio parece cada dia mais distante nesses tempos nossos tão mais sectários onde clicar em um polegar para cima ou em uma carrinha brava é tão simples. 
E embora haja mais liberdade para que cada um expresse o seu estilo em sua casa ou negócio, ainda há algumas "normas" que definem o que é elegante do que é considerado kitsch


kitschque se caracteriza pelo exagero sentimentalista, melodramático ou sensacionalista, freq. com a predileção do gosto mediano ou majoritário, e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões inautênticos, encarnar valores da tradição cultural (diz-se de objeto ou manifestação de teor artístico ou estético)."literatura, pintura, decoração k." 
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Mas afinal, o que é esse tal de bom gosto?

Para mim o que distingue o “mau” gosto do bom gosto é a falta de conteúdo. É a falta de verdade. A Arquitetura não é diferente da vida da gente, brilho falso pode até agradar, mas não dura. Vira coisa datada como se vê tanto por aí. Um móvel, um revestimento, um ornamento que é moda uma temporada ou duas, mas não fica. É datado. Os clássicos, os estilos de verdade, permanecem. (Elenara Leitão)
E embora haja poucas dúvidas quanto ao acerto do uso de peças clássicos - e por isso são normalmente escolhidos para ambientes de uso público, sejam privados ou pertencentes aos Estados - há quem não goste delas por ene motivos. Já ouvi falar de gente que achava que o quadro tinha que combinar a cor com a mobília. Ou que um determinado estilo não é condizente com o seu gosto pessoal. 
Quando o ambiente é privado sou a favor de total liberdade. Cada um faz com o seu orçamento o que lhe dá mais prazer. Quando é privado mas de uso público, uma empresa, por exemplo, talvez seja interessante levar em conta outros componentes que passem a imagem do negócio. Uma firma de advogados em tons de rosa talvez fiquem bem no filme Legalmente Loira, mas talvez soe estranho para quem trabalha com clientes de perfil mais conservador.  
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Quando o prédio é público falamos de bens que pertencem ao povo. E por mais abstrata que essa palavra possa parecer, ela é custeada pelos impostos. E impostos todos sabemos a origem. E nesse caso sou bem mais rígida. Acho que deveriam ter normas para mudanças. E vou contar uma experiência pessoal para que entendam porque penso assim desde adolescente:

Morei em Brasilia nos anos 70. Meu pai trabalhava em um órgão estatal e fomos morar em um apartamento funcional. Para quem não sabe o que é isso, é um imóvel que pertence a um órgão público e que é posto à disposição de uma pessoa que está trabalhando para aquele órgão. Por um tempo determinado, leia-se. Mesmo na época da ditadura havia uma alternância de pessoas no poder. O apartamento onde fomos morar tinha uma decoração estilo nordeste brasileiro. Era muito interessante! Cadeiras de couro diferentes, uma mesa imensa com tampos de azulejo. Diferente do gosto sulista de quem assumiu o poder ali. Ordem de cima: tira tudo e decora de novo. Lembro que meus pais tentaram ficar com o que tinha ali, que era muito bom, não estava estragado e mesmo não sendo nosso gosto pessoal, era perfeitamente viável para quem ia morar ali por poucos anos. Conseguiram ficar com um pouco, mas como já tinha sido feita uma compra em uma loja local, os móveis de antes foram para um depósito(!). Isso incluiu eletrodomésticos. Tudo para o tal depósito. Anos fiquei pensando em como ele seria? Não aproveitariam de novo? Ficaria tudo lá mofando? Não existia liberdade de imprensa, ninguém podia fiscalizar de fora....

Então quando vejo hoje que se trocam os móveis, tapetes, enfeites simplesmente porque não são do gosto de quem não é o dono sozinho, não gosto. Quando se coloca um adendo nada a ver em um jardim tombado de um bem público, não gosto. Um bem público não pode ficar sujeito ao gosto pessoal de quem lhe habita. Ponto. E aí sim, discuto o gosto. E acho que se não houver regras que definam o que pode ou não ser modificado, elas devem ser feitas. Se existirem devem ser obedecidas.     

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