Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Quando chega o frio

Quando chega o frio parece que a vida se renova. Explico: vivo em uma zona temperada de um país tropical. Antigamentente, muito antigamente, havia nessa terra tempos de quatro estações bem definidos.
Ao verão se seguia o outono. Ele estrava mansamente e nos dava tempo de fazer a transição entre o calor e a vida mais extra muros com a reclusão e o cair das folhas.
Outono sempre foi minha estação predileta. Mais que a primavera. Uma que, mesmo sendo uma criatura solar, não sou dos extremos. Meu caminho sempre foi o do meio. O equilíbrio.


(...)
Foi sempre meu desejo
ser aprendiz de Outono,
ser pequeno irmão
do laborioso
mecânico dos cumes,
galopar pela terra
repartindo
ouro,
o inútil ouro.

E outono tem a vantagem de não ter ventos como a primavera. Pelo menos não tantos e tão fortes.

Não gosto de ventos. Prefiro a calmaria.
Mas, amanhã, Outono, ajudar-te-ei, farei com que os pobres das caminhos recebam em folhas de ouro. Outono, boa montada, galopemos, antes que o negro Inverno nos impeça.
As cores do outono são especiais. Aqui no Rio Grande do Sul elas eram como postais. Amarelas, ocres, vermelhas...Verdes variados. Esmaecidos.
Longe de pensar que o outono é triste. Ele é como tempo da semeadura. Há que compreender que a terra precisa descanso. Assim como nós. O preparo para o inverno.   
E as nossas casas, assim como nós, vão se travestindo de mantas, almofadas mais fofinhas, texturas mais aconchegantes. Nossa alma precisa de toques mais acolhedores. Voltamos um pouco mais para dentro.  
Bons livros. Bons vinhos. Boas companhias. O frio, longe de nos fazer adormecer para a vida, nos acende fogueiras de busca de contatos. O frio nos abastece muitas vezes. Precisamos de comidas com mais substância. Precisamos de elementos mais marcantes. 


É duro o nosso trabalho.Vamos amar a terra e ensiná-la a ser mãe, a guardar as sementes que no seu ventre vão dormir cuidadas por dois ginetes vermelhos que correm pelo mundo: o aprendiz do Outono e o Outono.

Talvez isso explique o fascínio que os primeiros declínios da temperatura são recebidos. Com a secreta alegria dos velhos amigos que chegam. Mesmo que por pouco tempo.
Assim das raízes escuras e ocultas poderão sair bailando a fragrância e o manto verde da Primavera.
 Neruda, Pablo, Odes Elementares

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