Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Calçadas urbanas - responsabilidade de todos

Uma cidade também é feita de obras relativamente pequenas, mas que causam um bem estar imenso aos habitantes. Uma dessas obras é manter calçadas seguras, livres de barreiras, com acessibilidade e sem armadilhas para pedestres. Semana passada tivemos aqui em Porto Alegre uma tragédia originada por uma calçada mal cuidada - idoso cai na calçada e morre atropelado por ônibus
Calçadas Urbanas
E se olharmos esses dois exemplos de calçadas vamos lembrar de alguns casos que vemos em nossas cidades. Elas não são incomuns.

Em 2005, três administrações municipais atrás, eu participei do Seminário Porto-Alegrense de Calçadas – Calçadas Seguras, Responsabilidade de Todos e na época foi feito o lançamento do projeto Calçada Nota 10. Posteriormente foi lançado o programa Minha Calçada, eu curto, eu cuido (inclusive com a mãozinha de curtir de uma conhecida rede social, numa tentativa de captar a simpatia das pessoas mais conectadas - eu creio). Este programa inclui a notificação dos proprietários para que regularizem suas calçadas, adequando-as às normas da cartilha elaborada pelo poder público. Meu edifício já passou por essa notificação um ano atrás, inclusive todos os 56 apartamentos receberam cartas de notificação da prefeitura. Tivemos que tirar barreiras como floreiras e providenciar a regularização do piso. Providências que achei bem oportunas.     
Fonte
Imagine o que é caminhar por uma calçada como essa....e tente imaginar se for uma pessoa cega, ou um cadeirante. Ou um idoso. Ou uma criança. Complicado não é mesmo?

Embora a gente saiba que os proprietários tem a obrigação de manter suas calçadas em ordem e o poder público a de fiscalizar se realmente as calçadas estão em condições, nem sempre isso funciona a contento. E por isso a vigilância da comunidade é importante e existem já várias maneiras de apontar problemas nas cidades: 

  • Olhem que bacana essa iniciativa chamada Curativos Urbanos.  Em locais onde encontramos barreiras, calçadas com problemas, buracos, colamos um grande curativo rosa. E ele não é difícil de fazer, no site tem um tutorial de como fazer os seus e colar na sua cidade. Aqui a página no face. Esta é uma atividade de chamar a atenção e pelo que entendo funciona se tiver um holofote, ou seja fotos em redes sociais, nos jornais, etc.

Curativo Urbano
  • Esse outro projeto chamado de Acessibility View pretende mapear as calçadas urbanas e fazer uma espécie de Google Maps dos cadeirantes. 
Fonte
  • Levantamento Panorama das Calçadas do Brasil feito pelo Mobilize. Segundo o site "as calçadas funcionam também como um "sensor" da qualidade de urbanização de uma cidade. Alguns pensadores afirmam que se pode medir o nível de civilização de um povo pela qualidade das calçadas de suas cidades. E há quem diga que as calçadas são melhor indicador de desenvolvimento humano do que o próprio IDH."  É um levantamento bem completo feito em varias cidades brasileiras e com uma completa lista de como fiscalizar e onde denunciar problemas em calçadas.  
  • Jornais também fazem sua parte. Um jornal de Porto Alegre colocou um espaço para que as pessoas possam denunciar problemas na cidade. Veja AQUI como. 
  • Mapas colaborativos de acessibilidade em Porto Alegre - AQUI
Ou seja, todos nós somos responsáveis pela qualidade de nossas cidades e do espaço que temos nelas. Mais que apenas reclamar e dizer que isso é coisa do Brasil como tantos fazem, sem no entanto agir, é muito mais eficiente usar das ferramentas existentes ou bolar outras e fazer acontecer. Colaborar é a palavra chave das sociedades civilizadas.
Exemplos de boas práticas e boas propostas existem. E o custo não é exorbitante. E o resultado é um retorno enorme em qualidade de vida das pessoas. Fica a dica.  
E se você tiver mais exemplos de colaborações que as pessoas possam fazer nas cidades, seja em forma de aplicativos, de sites, de cartilhas, compartilhe conosco nos comentários. E se tiver uma experiência conte para gente.

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