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Arquitetura e o usuário

Fala-se muito em satisfação do cliente e hoje mesmo li um texto sobre isso : "Quem precisa de um ofurô" onde uma jornalista questiona exatamente ao que é oferecido ao cliente final do mercado imobiliário e o quanto este é ainda pouco exigente em relação ao que importa em suas residências! Já estudava isso no mestrado em 1998! E me lembro que na época fazia a seguinte reflexão em uma lista de arquitetura. (A palavra "user" se refere ao usuário final e o "owner" é quem paga o arquiteto, o investidor.)   

Quem paga a conta é, em última análise, nós, sociedade, que pagamos os desperdícios, os retrabalhos em construção civil, principalmente os que não são medidos como, por exemplo, quando os usuários reformam as suas habitações para torná-las moráveis. E note que não estou falando em personalização, mas para contornar erros de projeto que poderiam ter sido evitados se o foco do projetista fosse a satisfação do "user" e não a do "owner".  
Mas para focar mais, quem paga a conta final é o "user" desconhecido que compra do nosso "owner". Se este último nos passou boas informações, o nosso projeto, acrescido de nosso bom senso e da nossa ética enquanto profissionais, deve estar de acordo com as necessidades do "user". E aí teremos edificações econômicas, adequadas ao nosso clima, entorno, cultura, etc, etc. Aquelas coisas que todo arquiteto sabe (ou deveria saber). Mas e se o nosso "owner" não conseguiu prospectar bem o seu mercado e nos oferece um programa de necessidades mínimo, é nosso dever para com o nosso "owner" nos adequarmos ou seriamos profissionais mais éticos com o nosso "owner" se lhe oferecêssemos soluções que se adequassem às necessidades de seus "users" ? Ou seja, quem nos paga o projeto espera de nós boas soluções para o seu mercado. Ou não ? E não somos todos solidários (inclusive perante o código de defesa do consumidor) nesta transação ? Somos nós que traçamos o projeto, que é considerado o vilão em falhas do processo construtivo, somos nós que especificamos os produtos, não deveríamos ter uma voz mais atuante junto ao nosso "owner" ? E quando projetamos não devemos esquecer que a equipe de produção deve receber um projeto em condições de construtibilidade, bem detalhado, um bom projeto de execução. Nesse ponto de vista, esta equipe é nosso cliente (não achei a definição americana apropriada), deve receber toda a nossa atenção, pois do seu bom rendimento vai resultar um bom produto para o nosso "owner", que normalmente é um cara que não gosta de desperdiçar o seu dinheiro - e por isso chora na hora de nos remunerar...

Não esquecendo que quem para nós é "user", para o nosso "owner" é "owner". E segundo a velha máxima capitalista: "cliente sempre tem razão".

E repare que eu não falei em personalização de apartamentos, mas em reparos de erros de projeto, baseados naqueles requisitos de desempenho que são aceitos como "exigências" do usuário em vários locais do mundo (adaptação à utilização, conforto, etc, etc). Estes erros são apontados em várias pesquisas de APO como causas de insatisfação do usuário e que, algumas vezes, são repetidos pelo arquiteto n vezes por puro desconhecimento. Culpa dele ? Talvez. Culpa maior de um sistema que nos leva a querer satisfazer acima de tudo ao nosso cliente pagante e a nos contentarmos em sermos uma pecinha muito pequena de uma cultura construtiva que vai perpetuando a ideia, baseada também em renomados autores, que a maior parcela de falhas na construção decorrem do projeto arquitetônico. E quem o faz ? Como querer então que a sociedade nos respeite como profissionais que trarão soluções aos seus problemas, se formos somente profissionais preocupados com o resultado imediato para o nosso cliente pagante ? É nesse sentido que eu vejo que para nos inserirmos em um processo moderno na construção temos sim que ter a preocupação com quem é o usuário que vai ocupar o que projetamos, até para podermos projetar melhores produtos para o incorporador. Note que eu não estou dizendo que financiemos pesquisas de APO, isto é função do incorporador. Estou dizendo que devemos tomar mais contato com a obra concluída, com os usuários finais, conversar com quem conversa com eles (diretores de obra, mestres, até mesmo corretores) até para que saibamos quais soluções construtivas podem ser as melhores. 


E se isso já era realidade no século passado, imagine agora onde ainda discutimos e percebemos que muitos projetos não se adequam às necessidades do usuário. Por isso super pertinente esse livro que o Oscar Muller me passou como dica e que já está na minha lista de desejos.

"O livro Arquitetura sob o olhar do usuário, escrito pelos professores da Faculdade de Arquitetura da Universidade Tecnológica de Delft (Holanda), Theo J. M. van der Voordt e Herman B. R. van Wegen, esclarece a importância da Arquitetura centrada no usuário, sob uma perspectiva histórica, dos mais diferentes tipos de edifícios, como prédios empresarias, hospitais e moradias, entre outros. Permite a arquitetos, docentes, pesquisadores e estudantes o aprendizado de uma Arquitetura voltada às necessidades do ser humano, sem se distanciar do olhar estético. "
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