Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

Imagem
Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Ninho de amor

Recantos para namorar - sofá com fotografia na parede
Fonte
Há muitos anos li um livro saboroso chamado Fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes. É desses livros que a gente lê aos poucos, saboreando cada palavra, cada definição, cada vírgula e sem querer vai comparando com as que a gente fez e faz pela vida. Aos que tiveram muitos amores, eles se apresentam de tantas formas. Cada amor é único. Aos que tiveram a sorte de encontrar sua alma gêmea logo, também sabem que nem sempre se ama com a mesma intensidade todos os dias. Talvez sábio seja viver as diversidades amorosas como se fossem as descobertas da leitura. Com mente aberta, com bom humor e com criatividade.  

Com os ninhos de amor também não é diferente. Ninho de amor é todo local onde podemos amar. Amar o parceiro ou a parceira, amar a nós mesmos, amar a leitura, amar um hobby, amar a Vida.

Escrivaninha reciclada
Que é que eu penso sobre do amor? — Em suma, não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é,mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência. O que quero conhecer (o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso amoroso). A reflexão me é certamente permitida, mas como essa reflexão é logo incluída na sucessão das imagens, ela não se torna nunca reflexividade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas às outras), não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano, só poderia esperar pegar o conceito “pelo rabo”: por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: “O lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre embaixo da lâmpada”.” 
R. Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, p. 50.
quartos para namorar
Fonte
O gosto que tenho pela leitura é semelhante ao gosto que tenho pela arquitetura. Nas duas me fascina a descoberta, a possibilidade de imaginação. A porta que se abre para que a mente veja o além.

Não importa se é um móvel, um ambiente, um prédio. O espaço que ele encerra é amplo de magia. É repositório dos sonhos de alguém.  

Fonte
Dormitório com luzes na cabeceira
Fonte
Cruzo-me, ao longo da minha vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, não amo senão um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo. (…) Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas tentativas), para que eu encontrasse a imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Aí está um enigma cuja solução jamais conhecerei: por que razão desejo eu aquele Tal?
BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso

Cama no chão
Fonte

Cada um desses ninhos de amor aqui colocados falam de carinho. Falam de ambiente bom de ficar. Falam de aconchego. Mais que tendência, mais que moda, amor é permanência. Amor é persistência. Amor é colocar para fora aquilo que em nós é essência. 

Um colchão jogado ao chão, um jogo de luzes, um movimento de colchas, corações de recordação. Detalhes. Arquitetura é feita de detalhes. De sutilezas. De intenções. Assim como o amor. Arquitetura é feita de conceitos. Sem eles é qualquer outra coisa, menos arte. Amor sem conceito até pode ser bom, mas não é sublime.


É isso, seu ninho tem que expressar o seu amor. Tem que dizer alguma coisa, tem que falar emoção.






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortina verde na fachada

DIREITO À PAISAGEM

Processo da Arquitetura

10 motivos para NÃO fazer arquitetura