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A voz do Arquiteto, onde anda?

Já passou mais de uma década e as questões ainda permanecem as mesmas, se não pioraram. Essa semana li um questionamento em um grupo do Facebook cobrando exatamente essa postura dos arquitetos. E no mesmo dia recebi e-mail do colega e colaborador Oscar relembrando essa conversa de 2001. Que continua tristemente atual. CAU, IAB, todos são chamados para responder à sociedade porque nossas habitações e cidades continuam não correspondendo às nossas necessidades.




(texto de 2001, debate na lista Arquitetura do yahoo) - será que mudou muita coisa ?)
 
O conceito de cliente é bastante amplo para o campo da arquitetura. Sempre prefiro assumir que o cliente é o usuário final de nossa obra construída, não importa quem esteja me pagando. Mas reconheço que, em grandes obras, é muito difícil ao profissional arquiteto manter contato com quem é este personagem, que na maioria das vezes é mal delineado nos planejamentos. 

Reconheçamos que, para empreendimentos que vão custar alguns milhões ou bilhões de reais e que se pretenda de uma vida útil de 30 a 50 anos (em nossa cultura descartável), o dinheiro gasto na etapa inicial (prospecção de mercado, projetos, etc) é ínfimo. Ainda somos uma sociedade que consome qualquer coisa que se lance no mercado. Mas até quando ? E para esta mudança que fatalmente virá temos que estar preparados. 


Como são poucos os profissionais que conseguem ter este contato direto com o cliente final, nos investimentos imobiliários, estatais e comerciais, este arquiteto acaba recebendo informações do investidor e a este considera como o seu cliente. E a ele trata de oferecer o seu melhor serviço, que muitas vezes se traduz por "quantos m2 podes socar neste terreno " ? E arquitetos milagreiros, ávidos por sobrevivência, acabam por oferecer os seus préstimos para perpetuar o que se vê por aí. 



E a ética onde entra ? Na sociedade em que vivemos muitas vezes a luta pela sobrevivência tem apequenado a ética, em todas as profissões. Como mudar ? A meu ver, que sou contra as soluções extremadas, tipo revoluções para mudar as sociedades, até porque elas costumam é mudar uma classe de poder por outra, a solução imediata está no conhecimento. Se temos o conhecimento necessário podemos oferecer um trabalho mais adequado à satisfação do cliente final, o que vai usar realmente aquele espaço, e convencer o investidor, que não é um bicho papão (alguns são, mas outros só querem ganhar alguma grana para também sobreviver com dignidade), que bons projetos podem ser mais lucrativos. Creio que oferecer soluções adequadas ao conforto térmico, acústico, higrotérmico, visual, tátil, antropodinâmico, segurança estrutural, ao fogo e a utilização, adequação à futura utilização, higiene, durabilidade, economia, estanqueidade e pureza do ar (só para citar as exigências do usuário expressas na norma ISO 6241, na qual existe um consenso internacional), não apresenta maiores problemas ideológicos, é só uma questão de dominar a técnica de melhor faze-lo. Digamos que seja uma questão de bom senso.



E a ética pessoal de cada um ? Bom, daí a questão é ampla, bonita e rende uma bela discussão. Porque sem ética pessoal ninguém consegue ter ética profissional. Parte do tipo de sociedade que queremos, e estas escolhas podem ser de ordem econômica, social, etc. Seja qual for o sonho pessoal de cada um, mais solidário ou mais individual, as respostas técnicas que vamos dar podem ser boas, consequentes, responsáveis.


 Abaixo resposta do Arquiteto Oscar Muller sobre o tema, na mesma ocasião


Concordo em tudo com o que escreveste, aliás com todos os teus e-mails dedicados a este assunto. Não tenho nenhuma dúvida de que, à parte qualquer conceito de ética, profissional ou pessoal, o caminho que resta disponível é a eficiência. Eficiência inclusive para abrir novos mercados, criar novas formas de atuação, e decidir quanto ao nosso futuro. A ética só pode influir na decisão, particular e de classe, em disponibilizar esta eficiência a serviço deste ou daquele interesse.

Creio mesmo que temos que achar como atender a lucratividade do investidor, mas este não pode ser tomado como único objetivo de nenhum projeto! Temos que contemplar o usuário final primeiro, depois buscar viabilidade econômica, isto sim é trabalho de qualidade.

Digo que só atender às expectativas de lucratividade do pagante não é o suficiente, pois como você lembrou, só para isso simplesmente não somos mais necessários. Esta discussão trata, na verdade, da nossa utilidade enquanto profissionais. Na luta pela sobrevivência estamos não só abrindo mão da ética, mas também da nossa utilidade. Em troca de um sanduíche de mortadela a nos saciar hoje, estamos a abrir mão de toda a possibilidade de ganha pão no futuro.

Reputo como questão de fundo a ética, pois é uma questão de postura. Ainda acredito que nosso papel é fazer arquitetura inteligente, e não apenas definir no projeto a geladeira que descongela pela Internet, o portão automático, ou entupir edifícios com webcams. Uma atitude é produtiva, outra apenas conivente. Claro que assumir a primeira depende de responsabilidade, capacidade e talento, enquanto que assumir a outra é fácil, quase que apenas aleatória, só uma questão de "jeitinho".

O caminho mais fácil, e acho que isso todos já perceberam, não serve a ninguém, não adianta nada fazer de avestruz e tentar tapar o sol com a peneira. Por mais que pareça confortável empurrar os problemas e responsabilidades para o dia de amanhã, o tempo segue inexorável, o amanhã se torna hoje, a noite cai, e o risco do apagão se torna certeza.

Há momentos em que a solução é fugir, mas também há outros em que fugir de nada adianta.


Oscar Muller


Comentários

  1. Excelente, excelentíssimo texto, Elenara, parabéns! Eu não me recordava dele e, infelizmente, é bastante atual...
    Triste mundo este nosso de hoje... :-(

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