Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Portas abrem passagem

Essa semana tenho lido- e opinado- sobre liberdade, expressão, comunicação. Cada um tem sua maneira de enxergar a realidade e a maioria dos conflitos surge exatamente da defesa extremada do seu ponto de vista e da pouca tentativa de entender o lado do outro.

Mea culpa. Eu nem sempre sou tão boazinha que, mesmo defendendo a liberdade de cada um pensar como queira, não me irrite com algum pensamento exposto que seja radicalmente contrário ao meu. Mas...

Assim como a Arquitetura é feita de condicionantes que delimitam e no entanto exprime beleza, assim a comunicação humana é feita de vieses e verdades que se delimitam, mas que no conjunto atuam para o crescimento da espécie humana. Se para o bem ou para o mal, não se sabe. A própria noção de bem ou mal já é demasiada limitante. O bem quase sempre somos nós, o que pensamos parecido. O mal são eles. De vez em quando eles acabam se tornando nós, e isso dá um giro na cabeça. Mas sempre foi assim na história da humanidade. Manter a coerência é um constante desafio. E as vezes nos torna pessoas meio chatas. Paixão sempre foi um componente das grandes obras, inclusive as arquitetônicas.  
E as portas? O que tem a ver com isso?  Muito! Portas abrem passagem. O gesto de abri-las é simbólico. Fecha-las muito mais.

Portas exprimem múltiplos conceitos, desde marca a religião. Significam abertura e sobretudo passagem. Abrir uma porta significa quase um desarmamento. Não é a toa que as fortalezas contavam com portas enormes, fortes e resguardadas - os portões. Abrir uma porta em nós, é permitir que o outro nos adentre. Conheça nosso interior, saiba de algo mais que a fachada que expomos para a rua.

Esse é um exercício que proponho cada dia mais dificil pelo que observo nas várias redes sociais onde atuo. Noto que as posições andam extremadas, que as pessoas mais ponderadas tendem a não se expor diante das paixões com que são defendidos argumentos de vários lados. 





Se você abre uma porta, você pode ou não entrar em uma nova sala. Você pode não entrar e ficar observando a vida. Mas se você vence a dúvida, o temor, e entra, dá um grande passo: nesta sala vive-se ! Mas, também, tem um preço... São inúmeras outras portas que você descobre. Às vezes curte-se mil e uma. O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta. A vida não é rigorosa, ela propicia erros e acertos. Os erros podem ser transformados em acertos quando com eles se aprende. Não existe a segurança do acerto eterno. A vida é generosa, a cada sala que se vive, descobre-se tantas outras portas. E a vida enriquece quem se arrisca a abrir novas portas. Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece afortunadas portas. Mas a vida também pode ser dura e severa. Se você não ultrapassar a porta, terá sempre a mesma porta pela frente. É a repetição perante a criação, é a monotonia monocromática perante a multiplicidade das cores, é a estagnação da vida... Para a vida, as portas não são obstáculos, mas diferentes passagens! 

Fonte

Comentários

  1. Belo texto, parabéns!

    Que bonita reflexão. São as portas que se abrem para nossa compreensão, assim como os muros que dividem, as pontes que unem, as janelas que também são das almas, as cortinas que também se descortinam.

    Arquitetura é abrigo, "conteiner", mas também "interface" com o mundo e a vida, para o corpo e o espírito.

    Valeu!

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  2. Obrigada Oscar. Vindo de ti, elogio duplo.
    "Arquitetura é abrigo, "conteiner", mas também "interface" com o mundo e a vida, para o corpo e o espírito." Lindo isso, gostei. Também vejo assim.
    Abraços

    Elenara

    ResponderExcluir

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