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Mulheres que me arquitetaram



Inspirada ( e desafiada) pela Samantha Shiraishi vou tentar traçar um breve relato das mulheres que me antecederam nessa família e a quem devo exemplos de vida, de postura e de amor. Duas delas não conheci pessoalmente, minha avó materna, Doralice, a Dora que está ali tão menina e que se foi tão cedo, aos quarenta e poucos anos. E sua irmã, Julieta, a "mãezinha" que tanto minha mãe fala.


Essa história mescla séculos, entra no final do século XIX, onde nasceram as quatro lá de cima. E adentra pelo século XX, passando por revoluções e guerras, até chegar aos nossos dias, acompanhando as mudanças pelas quais passaram essas mulheres.


As tias que fizeram função de bisas: Tia Julieta, irmã de minha avó. Mulher a frente de seu tempo. Carinhosa, cuidava de todos com desvelo. Bancou o sonho de seu filho mais velho de ser paleontólogo, no começo do século XX. Deixou que ele saísse do Colégio Militar e o sustentou até que ele se tornasse um cientista renomado, premiado na Noruega e precursor no Brasil de sua área. Ela era casamenteira e tinha a preocupação de encaminhar para o que era o grande futuro feminino: um bom casamento com um bom provedor. Talvez hoje isso fosse motivo de caras torcidas, mas naquela época era a realidade para que mulheres pudesse sobreviver. Lembrem que as mulheres nem votavam nessa época. Vó Virginia, tia de minha avó paterna, a criou desde menina. Forte, de ideias firmes, contrastava com o seu jeitinho delicado de mulher miúda. Separada, arcou com os ônus dessa decisão naqueles tempos. Dizem que foi ela que, enfrentando autoridades locais, buscou o corpo de meu avó, morto em batalha.  


Mulheres viúvas ou separadas pouca chance tinham de reconstruir suas vidas amorosas. A elas ficava relegado o dever de cuidar dos filhos ou sobrinhos. Poucas mulheres trabalhavam fora, estou falando do comecinho do século XX. No Rio Grande do Sul a política era convulsionada por revoluções sangrentas e embates políticos. 
   
Minhas avós: Dora, que foi casada pela irmã Julieta com meu avô materno, Bartholomeu, médico, viúvo com dois filhos. Ela com 18 e ele com uns 30 anos a mais. Teve que deixar o namoradinho ( e essa história soubemos por ele, que foi já velhinho, conhecer as filhas da Dora...essa história ninguém me contou, eu estava lá...). E pude entender a melancolia que a minha mãe dizia que ela tinha. Mas com tudo isso, educou os filhos do marido, teve 8 filhos, seis sobreviveram. Viúva, ainda sobreviveu ao meu avó por três anos. Morreu nova, de septicemia. Os antibióticos só viriam uns 30 anos depois. Estelita, mãe de meu pai, minha companheira, com quem dizem que eu pareço fisicamente. Casou com Fábio, jornalista político, revolucionário, homem charmoso e de ideais firmes. Em cujo nome, lutou e morreu aos 36 anos de idade. Deixando sua mulher com 26 anos, 4 filhos, o menor com 4 meses. Ela e a vó Virginia tiveram a ajuda dos irmãos maçons que compraram a casa onde moraram a vida toda. E costuraram para alfaiates para criar duas meninas e dois meninos, um deles meu pai. Diz minha mãe que ela teve um pretendente, era nova, mas como ele não queria, ou não podia ficar com os filhos, preferiu deixa-lo. Viveu só toda a vida. Saudades. Essa vó eu aproveitei muito. Gostava de ir em sua casa, curtir suas comidas gostosas, seu colo...


Minhas tias: E pego um exemplo de cada lado da família de mulheres que mudaram o status quo da época que pedia casamento, mulheres do lar e filhos. Tia Flávia, irmã de minha mãe. Se formou professora na década de 30 e mocinha lutou para que os irmãos menores, órfãos, pudessem estudar e ter um lar. Foi a única a ter uma profissão. E ao invés da velha receita de seguir o marido, era esse que a seguia pelas cidades onde ia ensinar. E numa dessas andanças ela foi parar em Cachoeira do Sul, levando sua irmã caçula, minha mãe. Que então conheceu meu pai... Tia Vigica (Virginia) é irmã de meu pai. Sempre foi conhecida pelo apelido. Trabalhou cedo para ajudar no sustento da casa. Independente, nunca se casou. Temperamento forte como de seu pai, se nascesse hoje ninguém a segurava. Mesmo nascendo em uma época em que as mulheres eram mais tolhidas, conheceu o mundo. 


E a minha semente: minha mãe: Helena. Filhinha mais nova do Doutor, polaquinha como era chamada. Quando ganhou o irmão mais novo, foi em busca da cigana que lhe diziam, tinha trazido o garoto. Aos nove anos perdeu pai e mãe. Foi parar em casa de uns e outros parentes, de favor. De um, por causa dos maus tratos, fugiu a cavalo em busca de refúgio em outra tia. Nunca perdeu o bom humor. Aos 14 anos conheceu meu pai, Paulo. Aos 19 se casou. Ele nunca deixou que ela trabalhasse fora, não era bem visto naquela época. Mas ela participou ativamente da vida profissional dele, ia junto nas visitas, impulsionava novos rumos, era e é companheira. Tanto que ele, aos 91 anos, se declara para ela todos os dias. Eu tenho a plena convicção que, para ele, ela é o foco. Nós, seus filhos, somos consequência. Basta ver o brilho nos seus olhos quando a vê.


E elas todas plantaram em mim um pouco do que sou. Foram alicerce, foram pedra e impulsionaram a mulher que hoje arquiteta sonhos e realidades. E fica aqui um pouco do relato de suas histórias. Pouco para o muito que viveram.

Comentários

  1. Quanta história emocionante, linda e forte! Dá vontade de saber mais, de continuar a conhecer cada uma e os detalhes de suas vidas que mostram um pouco da nossa própria história também!
    Fico muito feliz por ter sido instrumento para você dedicar um tempo a rever as memórias de cada uma!
    :-)

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  2. Elenara
    Que história linda!!! Obrigada por compartilhar estes momentos.
    Lindo demais.
    beijos

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  3. Muito linda a estória destas mulheres que lutaram contra os preconceitos da época,perderam seus amores em prol de um casamnto sólido donde sairiam os rebentos maravilhosos que hoje temos a ventura de conhecer.Adorei esta iniciativa de relembrar tuas antepassadas,devemos este culto a elas sem as quais não estariamos aqui...E tu Elenara com tua sensibilidade soube dar a elas o valor merecido,lindo relato !!!
    o estariamos aqui

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  4. Que belo relato!

    E que ótias arquitetas estas, que nos brindaram tão precioso projeto...

    Oscar

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  5. Elenara,

    Todas orgulhosas de ti.

    Uma Excelente Semana!

    Beijos

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