Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Brasilia - 51 anos. E o futuro ?

Para muitos brasileiros Brasília, como cidade, ainda é associada apenas ao Plano Piloto e suas formas planejadas e consideradas futurísticas na época. Simbolo do Movimento Moderno, era a cristalização de uma geração de arquitetos e urbanistas que concebiam o espaço de uma forma muito fechada. Eu diria até estanque, nas suas áreas de trabalho, áreas de lazer, áreas de moradia.

Passados 51 anos, e já com milhares de brasilenses natos, a cidade cresceu, se transformou, tomou rumos que não puderam ser contidos.
Foto CTJOnline
Foto Claudio Marcon
Um desses rumos foi o crescimento das chamadas cidades satélites. Surgidas como cidades dormitório para os operários que construíram Brasília, ganharam vida própria e hoje são alternativa de moradia para quem foge do alto preço dos imóveis do Plano. Que, justo por ser fechado, não permite um crescimento demográfico que é impossível de impedir. Elas são o contraponto de cidades como todos conhecemos dando apoio a um núcleo que se diz diferente.
Vista parcial do centro de Taguatinga, com Águas Claras ao fundo.
Brasília teria então sido uma miragem ? Um sonho de um espaço que se mantivesse organizado e limpo, de certa forma, limitado pelo seu próprio projeto ?  É viável ao urbanismo tentar encaixar as atividades humanas em uma concepção de cidade também humana e portanto passível de enganos ? Que rumos terá a Brasília urbana ? Terá ela conseguido chegar ao que propunha seu criador, Lúcio Costa em seu projeto:


"Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbs, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. E, para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista imbuído de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto dessa atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país"

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