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Pensando a Arquitetura para todos


Nesse instigante texto o colega e amigo Oscar Müller fala sobre a Arquitetura Inclusiva, ou seja a Arquitetura para todos.

Como arquiteto e urbanista venho sendo instado a escrever sobre o tema da acessibilidade universal, tão em foco ultimamente. Já li bastante a respeito, e há tanta informação disponível, tantos detalhes muitas vezes repisados, que prefiro tratar o tema sobre um ângulo menos visitado, fincando um pé no real, e tecendo algumas considerações mais conceituais relacionadas com as responsabilidades dos profissionais que buscam atender a esta urgente necessidade social.

Acho mais útil comentar os aspectos conceituais, pois o que se pode ver nos espaços e edifícios públicos, me parece um desperdício do esforço na direção da melhora do problema. Dou um exemplo: o equipamento mais simples e comum que vemos diariamente, são aquelas pequenas plaquinhas metálicas em Braile, coladas nos elevadores, para auxiliar os deficientes visuais no momento de pressionar o botão correto. O baixo custo deste equipamento, ou a exigência da fiscalização tornaram estas plaquinhas nossas habituais conhecidas, entretanto, sozinhas, elas pouco auxiliam o cego.

Considere que depois de entrar no elevador, o deficiente visual pode reconhecer o botão correto pelo tato, mas depois de acioná-lo ele passa a depender da boa vontade de algum outro usuário, pois ainda que possa sentir o elevador parando, ou ouvir a porta se abrindo, não tem como identificar em que andar se encontra, a não ser que possa perguntar para outra pessoa.

As tais plaquinhas são portanto, pouco menos que inúteis, se não existirem outros cuidados, como um aviso auditivo informando em que andar acontece a parada. Entretanto, embora encontremos as tais placas na quase totalidade dos elevadores, é raríssimo encontrar um equipado com o aviso sonoro, que complementa a plaquinha de maneira essencial. Ainda sem sair deste pequeno espaço urbano, com que freqüência você, caro leitor, encontra um elevador com espelhos até o chão? Pois saiba que um espelho assim colocado é o que permite ao usuário de uma cadeira de rodas deixar o elevador no andar correto, e vendo seu caminho, para não atropelar ninguém com a cadeira...

É preciso tratar o assunto de maneira mais prática, e mais que atender todas as normas legais, o projetista deve assumir uma postura inclusiva como regra geral, considerando não apenas as deficiências contempladas pelas leis, mas também outras por ela esquecidas, mas que são também comuns na nossa sociedade.
Fonte
 
Arquitetar é verbo bi-transitivo, pouco importa o que dizem os dicionários. Arquitetamos alguma coisa para alguém, e quem incluímos neste grupo é absolutamente fundamental, tanto quanto quem excluímos. Normalmente o arquiteto leva alguns anos de prática antes de tornar consciente as opções que tomou quanto a este aspecto, mas depois que se conscientiza, reconhece com facilidade alguns indícios, tanto na sua própria estória de vida e produção, quanto no comportamento ou obra dos colegas. 

Quem incluímos ou excluímos é uma postura importante, que norteia inúmeros aspectos da nossa vida e trabalho, dos mais rudes, aos mais complexos. Como e quanto cobro, no que me aprofundo ou me especializo, o que pretendo como futuro profissional, de que formas minha atuação pode interferir no real, tudo isso e muito mais, ao mesmo tempo depende e demonstra esta postura. Há colegas que buscam incluir, e os que optam por excluir. Ocorre que muitos fatores, incluso tempo e inércia, colaboram com a tendência de exclusão, enquanto que a opção de incluir precisa ser tomada conscientemente, e se manifesta de forma extremamente particularizada... 

Autoria - Ricardo Ferraz


Todos nós percebemos a realidade que nos cerca através dos nossos sentidos. Formamos nosso modelo de mundo através deste conjunto de entrada de dados, que é elaborado segundo inúmeros fatores, incluindo vivências anteriores, e a coletânea dos códigos que aprendemos a dominar. O que chamamos de realidade, é percebido de diferentes maneiras, com muitas deficiências e especificidades particulares a cada um. São estas variáveis que definem quais relações reconhecemos, e quais não. 

Cada indivíduo tem seu modelo de mundo, e o reconhece como sendo a realidade. Este modelo pode ser mais rico ou mais pobre, tende a ampliar-se conforme a compreensão e complexidade da sociedade em que o indivíduo está inserido, e na proporção em que um e outro forem mais longevos, mas também varia conforme o meio ambiente que ambos compartilham. No modelo de mundo de um esquimó, "torneira" ou "geladeira" podem ser conceitos inexistentes, mas também há variadas gradações para "branco", ou "neve" que lhe são familiares, e que simplesmente não reconhecemos. Logo também não somos capazes de perceber nenhuma relação que envolva estes conceitos.
Dentro de um mesmo grupo social esta percepção da realidade e a capacidade de perceber relações também varia individualmente. Assim, quem não aprendeu a ler, é deficiente desta habilidade e não reconhece uma conversa escrita, que por sua vez é real para os participantes que dominam este código. Da mesma maneira que as manchas formadas pelo desenho das letras acrescentam muito pouco para o analfabeto, sons também não são capazes de enriquecer o modelo de mundo do surdo, e aquele monte de peças debaixo do capô do automóvel não esclarece para minha tia, porque o carro não funciona. 

Uma determinada florada, inseto, ou odor, podem, isoladamente ou em conjunto, trazer informações para o campesino que o urbanóide desconhece. Somos todos deficientes de muitas maneiras, inábeis para decodificar inteiramente o ambiente que nos cerca, ou reconhecer relações. Na verdade cada um de nós domina uma quantidade muito pequena delas, se comparamos com o universo disponível de alternativas, e isto não pode ser motivo de demérito ou preconceito. 

Embora não seja muito civilizado fazer uso de códigos particulares, é evidente que ninguém vai parar de se comunicar pela fala em respeito aos surdos, deixar de ler porque ainda temos analfabetos na nossa sociedade, ou não usar cores porque existem pessoas daltônicas! Pelo contrário, a evolução da humanidade segue outra tendência, busca de todas as maneiras ampliar nossa percepção e entendimento da realidade. Criamos instrumentos para amplificar os sentidos, para potencializar nossas ações, mais que isso criamos novos códigos, novas maneiras de comunicação e expressão. Evoluímos aprendendo, agregando, somando, é o caminho inverso da exclusão... 


A arquitetura, como qualquer outra realidade, também é vivenciada de maneira particularizada, e o que transmite depende da coincidência de códigos, inputs e relações compartilhadas por autor e usuário. Obviamente cada um de nós tenta agir onde é hábil, no campo das relações que reconhece (podendo ou não alcançar sucesso, o que depende também de outros fatores como talento, experiência, etc.), e deixa de agir onde é deficiente, fato quase inevitável, pois a única outra alternativa é a inação proposital ou aleatória. Também é evidente que a probabilidade de que existam mais diferenças do que coincidências entre o universo perceptivo dos personagens envolvidos é enorme. 



A compreensão deste fato assusta, pois sob esta perspectiva nossa probabilidade de acerto é ínfima! Mas não estamos fadados ao insucesso! Para começar, e é só um início, podemos nos valer de mínimos denominadores comuns, como os sentidos (pagando o preço de preconceituar excluindo os portadores de deficiências físicas), e considerando que todos os usuários podem ver, ouvir, sentir temperaturas, texturas, cheiros, etc., estabelecemos pontos de contato coincidentes, que podemos usar como referência para nortear a direção do nosso trabalho. 

Assim, posto que compartilhamos a habilidade de sentir frio e calor, podemos definir o que nos parece mais agradável, e é só a partir este parâmetro muitas vezes subjetivo, que intentamos obter conforto térmico, e assim por diante. 

Entendendo os sentidos enquanto canais de entrada de dados, já dispomos de um universo com o qual podemos trabalhar, é um começo, mas apenas isso. Há muito o que caminhar, outros mínimos denominadores comuns que podemos usar, muitas relações, códigos e experiências, prazeres, sensações e emoções que podemos ou não oportunar. O fundamental é perceber que não podemos ser exclusivistas a ponto de fazer arquitetura para quem não pode ver, ou ouvir, ou deixa de ter qualquer habilidade específica, como a de se emocionar com música ou poesia. Seria uma atitude no mínimo preconceituosa. Este pecado significa reduzir a arquitetura, diminuí-la, e a desculpa que desta forma a arte se torna mais facilmente decodificável, é apenas um erro. 
Fonte

Precisamos nos preocupar em tornar "usáveis" nossos espaços urbanos e edificações que projetamos, para todos os portadores de deficiência, de maneira que estes possam usufruir ao máximo do que estes oferecem, sem esquecer que em muitos espaços públicos, não ser proprietário de um par de sapatos já é deficiência suficiente para impedir o acesso. 

Enfim, de maneira geral, quando o arquiteto decide trabalhar para quem não tem determinada capacidade, não só exclui os que tem esta capacidade, como também elegendo uma incapacitação específica, exclui todas as demais. Isso não ocorre só neste âmbito, há quem exclua por questões sociais, econômicas, raciais, culturais, e mais um montão de coisas diferentes. Incidimos comumente em aspectos específicos deste erro, como quando excluímos quem tem a capacidade de se emocionar com a beleza da função, com o ritmo dos volumes, o desenho do caminhar das sombras e luzes, ou seja lá o que for, apenas por que nossa deficiência no domínio de alguns destes códigos não nos permite reconhecer estas relações. 


Evidente, todos temos uns poucos pontos fortes, e um zilhão de deficiências, a maioria das quais nem reconhecemos, portanto certamente vamos falhar muitas vezes, o que é perfeitamente compreensível se a intenção é acertar! Até a falta de capacidade para reconhecer o erro é desculpável, só a repetição teimosa e consciente do erro que é inaceitável.

Oscar Müller
arquiteto e urbanista
arquiteto@synapsis.org.br


Comentários

  1. Nossa, ótimo texto. Confesso que foi o primeiro blog que eu encontrei dedicando atençao ao tema da "arquitetura inclusiva"...

    A pergunta que eu me faço é: ainda que o arquiteto considere estas questoes, aquele que investe se interessa? Sinceramente, vai cumprir apenas o que é exigido por lei.

    Mas é uma ótima discussao...

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  2. Pena que os lugares que tem a acesso cadeirantes, cegos, etc as pessoas mal educadas não respeitam!

    ResponderExcluir
  3. Otávio,

    a legislação pouco faz pelo nossos clientes!

    Exemplifico: a lei obriga uma janela de determinada dimensão, conforme a área de cada ambiente, entretanto não determina a orientação...

    É o projetista que precisa orientar a abertura de um dormitório para leste, a fim de obter a insolação matutina que tornará este ambiente salubre, para a permanencia prolongada dos usuários a que se destina.

    Existem inúmeras questões que o leigo desconhece, um sem número de detalhes que cabe somente ao arquiteto considerar, e é a somatória destes aspectos que definirá a boa (ou má) qualidade do projetado, dependendo não da lei, mas da cacidade do projetista.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  4. Apenas cumprir a lei, já é um avanço em um país de pobre fiscalização e que funciona por denúncias. Vejo o texto como de muita responsabilidade, pois quando separamos uma vaga para idoso e ela fica desocupada vários dias, com todas as outras vagas ocupadas, ela gerará o desrespeito pela oportunidade. Mais uma vez vou ser comum e bradar "educação". A vaga para idoso nasce da falta de se sentir no lugar do idoso e notar sua necessidade prioritária. Já presenciei pessoas em bancos, dando as contas para um idoso para poder usufruir da vantagem de ganhar tempo em uma fila menor. Fiz parte do CREASP da Comissão Especial de Acessibilidade
    De 18 de fevereiro de 2008 a 30 de Junho de 2008 e novamente
    em 18/02/08 até 30/06/08 sendo prorrogada para o 2º semestre, e posso falar de como é difícil implantar uma legislação coerente com todas as exigências de tombamento e de prédios antigos.Ainda hoje deparo-me com locais públicos e privados sem o mínimo de acessibilidade, e vejam que o último acidente na boate no RS, é um exemplo claro de que a acessibilidade não é apenas para o cadeirante, ou deficiente, mas que quando necessária, por vários motivos e necessidades, deveria ter sido prevista pelo arquiteto ou pelo engenheiro. Eu sempre defendi o ante-projeto exaustivo, mas em um país onde obras federais na maioria das vezes não tem ante-projeto e em muitas prefeituras que desconhecem o cargo de engenheiro, fica fácil deduzir o que vai dar lá na frente usando apenas o empirismo. Agradeço a reflexão do texto do Arquiteto Oscar e estou a disposição para continuar com minhas contribuições. Eng. Mec. e de Seg. do Trabalho Sérgio Rogério Cesário Costa - CREA-SP 060.189.67.00.

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  5. Apenas cumprir a lei, já é um avanço em um país de pobre fiscalização e que funciona por denúncias. Vejo o texto como de muita responsabilidade, pois quando separamos uma vaga para idoso e ela fica desocupada vários dias, com todas as outras vagas ocupadas, ela gerará o desrespeito pela oportunidade. Mais uma vez vou ser comum e bradar "educação". A vaga para idoso nasce da falta de se sentir no lugar do idoso e notar sua necessidade prioritária. Já presenciei pessoas em bancos, dando as contas para um idoso para poder usufruir da vantagem de ganhar tempo em uma fila menor. Fiz parte do CREASP da Comissão Especial de Acessibilidade
    De 18 de fevereiro de 2008 a 30 de Junho de 2008 e novamente
    em 18/02/08 até 30/06/08 sendo prorrogada para o 2º semestre, e posso falar de como é difícil implantar uma legislação coerente com todas as exigências de tombamento e de prédios antigos.Ainda hoje deparo-me com locais públicos e privados sem o mínimo de acessibilidade, e vejam que o último acidente na boate no RS, é um exemplo claro de que a acessibilidade não é apenas para o cadeirante, ou deficiente, mas que quando necessária, por vários motivos e necessidades, deveria ter sido prevista pelo arquiteto ou pelo engenheiro. Eu sempre defendi o ante-projeto exaustivo, mas em um país onde obras federais na maioria das vezes não tem ante-projeto e em muitas prefeituras que desconhecem o cargo de engenheiro, fica fácil deduzir o que vai dar lá na frente usando apenas o empirismo. Agradeço a reflexão do texto do Arquiteto Oscar e estou a disposição para continuar com minhas contribuições. Eng. Mec. e de Seg. do Trabalho Sérgio Rogério Cesário Costa - CREA-SP 060.189.67.00.

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