Comunicação pública, acessibilidade e cidadania: quando as escolhas falam mais alto

Imagem
Vivemos tempos curiosos. Nunca produzimos tanta informação e, ainda assim, milhões de pessoas seguem excluídas de decisões que afetam diretamente suas vidas. Muitas vezes a barreira não está na falta de acesso à internet ou aos meios de comunicação. Ela se encontra muitas vezes na linguagem, na complexidade desnecessária, na distância criada entre quem comunica e quem precisa compreender. Foi com essa reflexão que participei, como assessora de acessibilidade, do 1º Congresso Gaúcho de Comunicação Pública, realizado em Porto Alegre. Promovido pela Dominus Consultoria e Capacitação em parceria com a Estratégia de Comunicação & Copy Sawitzki Inovação e Experiência Humana, o evento reuniu profissionais, gestores públicos, pesquisadores e especialistas para discutir temas que hoje ocupam lugar central na vida democrática. Ao longo do dia, palestrantes como Sandra Bitencourt, Maria José Finatto, Rodrigo Abella, Soraia Hanna, Daniela Machado, Leandro Rolim e Gustavo Ferenci compartilhar...

Caixa de ferramentas - equipamentos e matérias devem ser utilizados com inteligência

Achei esse texto que separei no inicio da década sobre o uso das ferramentas no exercício da criatividade. E para mim ele continua muito atual    
         

Conta-se que, solicitado a fornecer um exemplo de seu trabalho ao emissário do Papa, que selecionava artistas para trabalhar a serviço da Igreja, o pintor italiano Giotto (C. 1267-1337), com um rápido movimento de pincel, traçou sobre uma folha de papel um círculo perfeito. Foi contratado. 
A maioria das pessoas e até artistas talentosos, diante da necessidade de desenhar uma circunferência com precisão, sequer ousaria fazê-la sem a ajuda de um compasso. O que não é nenhum pecado.
Ferramentas, materiais, instrumentos e acessórios existem para facilitar tarefas, poupar tempo, ampliar a capacidade de executá-las e, principalmente, proporcionar novas possibilidades. Auxiliares na materialização de idéias, é preciso conhecê-los para dirigi-los, de forma a obter exatamente aquilo que se deseja. Um processo no qual tempo e dedicação são essenciais. 
Seja a opacidade de uma tinta, a pressão do lápis no papel, a resolução de um scanner ou sensibilidade de um filme fotográfico, são a previsibilidade de resultados e a capacidade de reproduzi-los que tornam possível o seu uso. Caso contrário, seria como tentar pegar um ônibus que, a cada dia, fizesse um novo trajeto, num horário diferente. 
Mesmo que seja aparentemente difícil de conciliar com o ritmo frenético das mudanças, não existe alternativa à experiência. Através dela, aprende-se a antecipar e escolher resultados, tornando cada vez mais fácil a aprendizagem dos novos meios, além de propiciar uma visão crítica que permite identificar seu real valor. 
Fácil até demais Diante do fato de, diariamente, surgirem ferramentas que eliminam a necessidade de se produzir recursos por meio do próprio esforço, é de se esperar quem questione até a necessidade do aprendizado. 
Como a mais versátil, espetacular e inovadora ferramenta já colocada a serviço dos designers, o computador é o mais completo exemplo. Apesar de sua complexidade, a intuitividade e facilidade de uso dos softwares gráficos são o motivo de seu sucesso. Permitindo mesmo com um mínimo de  perícia técnica; obter resultados visualmente encantadores, tornam-se também sua maior ambigüidade. 
Não se deve esquecer que o domínio de qualquer ferramenta ou material é apenas uma parte no complexo conjunto de fatores envolvidos no desenvolvimento de qualquer projeto consistente de design gráfico. Nesse caso, a fotografia serve como uma ótima referência. O ato de fotografar,      aparentemente, nunca exigiu mais do que um "click", mas é muito fácil perceber a grande diferença entre as milhões de fotografias, mensalmente processadas nos laboratórios, e os trabalhos de mestres como Sebastião Salgado ou Henri Cartier-Bresson
Com o aumento vertiginoso dos meios de comunicação visual, é cada vez maior a necessidade por imagens. Infelizmente, parece que sempre haverá espaço tanto para trabalhos bons quanto para aqueles inexpressivos.
A capa de uma revista, a prateleira do supermercado, ou um site na Internet não são atestado de inovação e talento. E, às vezes, nem mesmo de qualidade. 
Pode-se preencher uma necessidade visual cumprindo uma função meramente utilitária, assim como a comida não precisa ser saborosa para matar a fome. 
Os ingredientes estão ao alcance de todos, mas a originalidade está na escolha, combinação e uso das possibilidades mais adequadas a cada trabalho. Isso que o faz e ao seu autor; únicos. Através  essa utilização criativa, coerente e personalizada, o designer sério se destaca daqueles que, comodamente, se contentam em fazer tudo sempre igual ou utilizar fórmulas e efeitos prontos. 
 Atalhos devem ser uma opção a caminhos já conhecidos. Diante de tantas possibilidades e prazos cada vez menores para avaliá-las, não é difícil se perder nesse trajeto. Só existe uma solução para evitar que o resultado de um projeto seja um amontoado esperto de efeitos bonitos: ser mais esperto do que eles. 
Tanto o computador como o martelo não são dotados de nenhuma propensão ao bom ou mau uso, e tomar uma pancada no dedo normalmente deve-se à imperícia de quem, na verdade, tinha o prego como alvo. Mesmo que seja difícil imaginar que um designer venha a se ferir pelo uso pouco criativo dos meios ao seu alcance, os efeitos que a qualidade de seus trabalhos pode causar na sua carreira são reais. Geralmente deixando marcas permanentes. 
Enxergando, em cada novo recurso, maneiras de melhorar sua produtividade e ampliar suas formas de expressão, o designer prioriza o senso de planejamento para atuar como um administrador de meios, colocando-os totalmente a serviço de suas idéias. 
Deve-se perceber que o episódio do círculo de Giotto entrou para a História não só pela precisão de sua forma nem do instrumento utilizado. Reconhecendo nesse gesto a expressão do absoluto domínio sobre o trabalho e seus instrumentos, compreende-se o real significado da palavra mestre.
     
Alex Lutkus é ilustrador.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortina verde na fachada

10 motivos para NÃO fazer arquitetura

Comunicação pública, acessibilidade e cidadania: quando as escolhas falam mais alto

Calungas, a representação da escala nos desenhos