A urgência de reconstruir comunidades intergeracionais

Somos cada vez mais inundados por postagens de moradias para pessoas idosas. Mas ao invés de ser uma solução, se isso fosse na verdade um problema? 

Sim, sei que já postei sobre moradias compartilhadas e continuo achando uma ideia interessante. Mas não posso deixar de atentar que estamos, como sociedade, caminhando para uma crescente tendência de segregação por idade. Vemos a criação de bairros, complexos habitacionais e até cidades inteiras com o intuito de oferecer espaços seguros e adaptados para faixas etárias específicas, sejam elas jovens ou idosas. Embora a intenção possa ser positiva, essa separação gera consequências sociais profundas. Pode, por exemplo,  fragmentar o conhecimento e empatia entre gerações. Neste texto vamos explorar os perigos dessa divisão e mostrar que a reconstrução de laços entre as várias gerações não é apenas desejável, mas sim uma condição essencial para a sobrevivência de uma sociedade justa e funcional.


A "crise geracional": estamos mais divididos por idade do que nunca

Notebook LM

Um relatório recente intitulado "A Divided Kingdom", apoiado por pesquisas da Manchester Metropolitan University, revela dados alarmantes sobre o aprofundamento do fosso geracional.

As estatísticas-chave pintam um quadro claro do impacto:

• O Reino Unido encontra-se mais segregado por idade do que nunca.
• Apenas 5,5% das crianças no Reino Unido vivem perto de alguém com 65 anos ou mais.
• Menos de um em cada 10 residentes de lares de idosos (7%) relata ter interação regular com alguém com menos de 30 anos.

Este não é um fenómeno isolado. Conforme indicado por estudos sobre a população norte-americana, a segregação por idade é uma realidade generalizada e crescente. E isto traz custos significativos. O relatório "A Divided Kingdom" conecta diretamente essa divisão ao aumento da solidão, à precariedade da saúde mental e a uma crescente fragmentação social. Quando as gerações não convivem, perdem-se os laços que sustentam o tecido comunitário.

Embora moradias exclusivas para idosos possam parecer opções mais baratas e seguras, um estudo liderado por Elena Portacolone revela que os seus residentes também podem experienciar isolamento, criminalidade e angústia. A investigação argumenta ainda que a decisão de se mudar para ambientes segregados por idade muitas vezes não é uma preferência individual. Pelo contrário, é uma escolha informada por fatores culturais, políticos e económicos mais amplos, revelando uma falha sistémica que prioriza a eficiência percebida em detrimento da coesão social.

Apesar do cenário atual, existe um consenso crescente sobre o valor da integração intergeracional. A literatura acadêmica e política, conforme aponta a investigação de Butler-Warke et al., reconhece cada vez mais os benefícios potenciais da diversidade e da convivência entre diferentes faixas etárias numa comunidade.

A criação de "comunidades inclusivas" e a promoção da "integração social" são objetivos alinhados com agendas globais para o desenvolvimento urbano sustentável. O UN-Habitat, por exemplo, destaca em seu plano estratégico a área temática de "integração social reforçada e comunidades inclusivas" e promove o "Pacto para o Futuro", que sublinha a necessidade de assegurar o acesso universal à habitação adequada, segura e acessível. A pesquisa da Manchester Met reforça este ponto, destacando o "impacto transformador" de iniciativas intergeracionais, que se apresentam como soluções práticas e eficazes para melhorar o bem-estar da população. 

O futuro do Brasil: envelhecimento acelerado e vulnerabilidade climática

Se no Reino Unido a segregação por idade é uma "crise geracional", no Brasil, o envelhecimento acelerado da população está colidindo com outra crise existencial: a climática. O país está passando por uma transformação demográfica profunda, com o envelhecimento ocorrendo mais rápido do que se previa, exercendo uma pressão sem precedentes sobre os sistemas de previdência e saúde. Ao mesmo tempo, a população se redistribui, com municípios menores encolhendo e cidades médias crescendo.

A descoberta mais alarmante vem da interação entre essa demografia e a crise climática. Um estudo* estratégico projeta que, até 2050, impressionantes 97% dos municípios brasileiros verão um aumento na vulnerabilidade a desastres hidrológicos (IMVDh), como inundações e deslizamentos. Essa convergência cria uma "tempestade perfeita": uma população mais velha e vulnerável vivendo em cidades sob crescente estresse climático.

O que essa projeção nos força a encarar é um dos maiores desafios de política pública do século para o Brasil: como proteger uma população cada vez mais idosa e frágil de um ambiente que se tornará cada vez mais hostil. No entanto, não se trata apenas de um diagnóstico de problemas; existem soluções em andamento. A ONU-Habitat, por exemplo, já apoia iniciativas como o Plano de Urbanização Sustentável para Izidora, em Belo Horizonte, e a iniciativa Viva o Verde SP, em São Paulo, mostrando caminhos concretos para cidades mais resilientes e inclusivas.

O sonho da "cidade de 20 minutos" e o risco da desigualdade

A ideia do "bairro de 20 minutos" (ou "cidade de 15 minutos") tornou-se um dos conceitos mais populares no planejamento urbano global. A premissa é sedutora: um lugar onde todas as necessidades diárias, saúde, comida, escolas e espaços verdes, estão a uma curta caminhada ou pedalada.

No entanto, uma pesquisa recente no Reino Unido revela uma advertência importante. Ao analisar a fundo esses bairros, os pesquisadores descobriram uma variação notável no número de serviços realmente disponíveis, especialmente em acesso a transporte público, espaços naturais e estabelecimentos de alimentação.

O risco é criarmos ilhas de conveniência para os ricos, com cafés, parques e bons transportes, enquanto bairros de baixa renda ficam presos em desertos de serviços, onde o "sonho dos 20 minutos" se torna uma jornada de uma hora de ônibus para o básico. Políticas bem-intencionadas para criar bairros "caminháveis" correm o risco de aprofundar as desigualdades se não garantirem que o acesso a serviços essenciais seja equitativo para todos.

Repensando nossas comunidades
Notebook LM
As forças da demografia, da economia e da geografia estão remodelando nossas comunidades de maneiras profundas e inesperadas. Como vimos, essas tendências estão interconectadas: divisões geracionais e socioeconômicas criam bolhas de isolamento, fronteiras invisíveis afetam nossa saúde mental e a interação entre envelhecimento e mudanças climáticas cria uma vulnerabilidade sem precedentes.

Compreender essas dinâmicas é o primeiro passo para a construção de cidades mais justas e resilientes. Não se trata de um desafio isolado de um país ou outro, mas de uma luta global que exige respostas coordenadas. É por isso que estruturas como a Nova Agenda Urbana, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o Pacto para o Futuro da ONU são tão vitais. Elas nos fornecem um roteiro para transformar nossos espaços urbanos.

A nossa sociedade enfrenta uma escolha decisiva: ou nos comprometemos conscientemente com a criação de espaços socialmente justos para todas as gerações, ou aceitamos passivamente a deterioração social que a segregação garante. A tarefa de "fazer comunidade" transcende gerações; é o pilar que sustentará a justiça e a resiliência urbana ou o ponto de fratura que acelerará a nossa desintegração social.


LUZ, Luciana (Coord.). Estudo estratégico sobre as perspectivas demográficas para o Brasil no horizonte 2050. Brasília: Ministério do Planejamento e Orçamento, 2025. 228 p.

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