Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

O lixo que tu produz é problema teu


Li hoje que já faz vinte anos que foi implantada a coleta seletiva em Porto Alegre. No começo era uma experiência em alguns bairros, uma vez por semana. Foi-se estendendo para todos e agora em muitos é feita duas vezes por semana, regularmente. Sabem quantos por cento das pessoas colaboram com isso? 30 %. Isso mesmo, setenta por cento dos moradores de uma das cidades ditas como mais politizadas e educadas do país não reciclam o seu lixo, mesmo dispondo de coleta organizada pelo poder público. E reclamam da existência da coleta alternativa, com carroças e carrinhos, muitas vezes puxado por seres humanos. Atrapalhar o trânsito é o menor dos males (alguns acham que é o maior). Mas na verdade ver pessoas, homens e mulheres, subindo e descendo ladeiras, carregados de nosso lixo nos faz pensar em nossos hábitos. Há pouco li um relato de parentes que moram na Austrália sobre como se trata esse problema por lá. Vale a pena ler. E pensar.  

figura: foto de Elenara Stein Leitão

“O lixo aqui na Austrália custa dinheiro. Temos o direito a um latão por semana de lixo orgânico e a cada 15 dias de reciclado. Não é permitido largar lixo na calçada ao lado da lixeira, nem colocar a lata na rua fora do dia da coleta. Não virá ninguém para mexer no teu lixo a procura de comida, reciclados. Cachorros , gatos e pássaros não atacam a lixeira pois o latão tem tampa. Se você tem mais lixo que cabe na lata, estoque ele em casa até a próxima semana ou leva pessoalmente no lixão. Depois de acordo com peso será cobrado um taxa.
Todo tipo de reforma, obra, jardim,... sempre vem na conta o extra para remoção e taxa do lixo.
Nossa cerca velha nos custou quase 400 dólares de lixo. Uma vez por ano a prefeitura recolhe gratuitamente o lixo “grosseiro” que está estocado em casa como moveis, aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos e todo lixo de jardim. E a única vez que é permitido colocar lixo na calcada.
A prefeitura também dá dois vouchers por ano para lixo de jardim, que se leva pessoalmente até o lixão (com o voucher não se paga taxa.)
Nós demoramos a se acostumar com o lixo limitado, principalmente quando nos mudamos. Demoramos mais de mês para nos livrarmos das caixas e de uns tapetes velhos deixados na casa. Tinha um que chamávamos de “o corpo”. Dizíamos: “ tem que dar um jeito de se livrar daquele corpo”... tínhamos a opção de colocá-lo no porta mala e levá-lo no lixão, socar ele na lixeira e colocar menos lixo ou ligar para os ex donos virem buscar o corpo, que afinal de conta era deles. Um dia não aquentamos mais e dobramos o corpo num esforço e socamos no latão. Preferimos estocar lixo e nos livramos do corpo.
Nosso vizinho veio dar boas vindas e ofereceu a lata dele que não estava tão cheia para completarmos com o nosso lixo. ( achei sacanagem colocar o corpo na lata do vizinho).
Na Franca o lixo era rigoroso também, foi um pesadelo até entender como funcionava o sistema. Me lembro de me perguntar o que vou fazer com o lixo em casa?
Resumindo:  o lixo que tu produz é problema teu.
Por isso aqui se recusa produtos com excesso de embalagem, se usa greem bags no supermercado, se faz composteira....” (Ana Paula - Perth- Austrália)

figura: foto de Elenara Stein Leitão

Deu para perceber? A prefeitura faz a sua parte limitando e tolhendo as alternativas e as pessoas fazem a sua parte. Nossa diferença? Aqui as pessoas reclamam do espaço que tem para estocar o lixo seco, ao invés de limitar seu consumo. Reclamam da voracidade das multas da prefeitura quando essa exigem lixeiras com tampa ou horário para colocar o lixo. Será que junto com o reclamar dos governos, não é hora de pensar no que podemos ajudar ? 

figura: www.recicloteca.org.br

Comentários

  1. Bacana, Elenara, acho que esta questão tem que ser toda re-pensada mesmo. Limitar também é uma ideia.
    Bjs!

    ResponderExcluir

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