Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Brasil ganha inédito Leão de Ouro na Bienal de Veneza. Saiba mais

 
Pavilhão Brasil Bienal de Veneza 2023 foto divulgação

O Pavilhão Brasileiro "Terra" conquistou um inédito Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional na 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza de 2023. A curadoria foi dos arquitetos Gabriela de Matos e Paulo Tavares que são também pesquisadores com uma abordagem transversal que abrange raça, gênero, pedagogia e culturas visuais

Partindo de uma reflexão entre o Brasil de ontem, o de hoje e aquele porvir, a mostra coloca a terra no centro do debate tanto como poética quanto elemento concreto no espaço de exposição. A exposição demonstra que terras indígenas e quilombolas são os territórios mais preservados do Brasil, e assim aponta para um futuro pós-mudanças climáticas. 

Gabriela de Matos e Paulo Tavares

A intervenção vencedora na 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza "propõe repensar o passado para projetar futuros possíveis, destacando atores esquecidos pelos cânones arquitetônicos, em diálogo com a curadoria da edição, O Laboratório do Futuro". 

O pavilhão inteiro foi aterrado para colocar o público em contato direto com a tradição dos territórios indígenas e quilombolas, além dos terreiros de candomblé. Elementos de habitações populares brasileiras estão presentes na mostra já na entrada no pavilhão brasileiro, em contraste com os traços modernistas do prédio.

A exposição, intitulada “Terra”, tem como objetivo questionar a história normativa da arquitetura e lançar luz sobre práticas espaciais que há muito tempo são invisíveis. Os curadores se concentram em maneiras ancestrais de lidar com a terra, buscando possibilidades mais justas e completas para o presente e o futuro. A exposição aborda questões relacionadas ao solo e ao território, propondo uma abordagem entre temas de reparação e decolonialidade com tópicos mais amplos, como descarbonização e meio ambiente. O edifício do pavilhão é transformado em uma instalação com uma cerca Sankofa na fachada e tecidos feitos pelos tecelões Alaká no interior. O piso do edifício foi coberto com terra, transformando-o em uma espécie de quintal: um convite para os visitantes pisarem em solo comum.

Sankofa é uma palavra na língua Twi de Gana que se traduz em “olhar para o passado para informar o futuro”. É frequentemente associada ao provérbio: “Não é errado voltar atrás para buscar o que foi esquecido”. O símbolo em si é representado por um coração estilizado ou por um pássaro com a cabeça virada para trás enquanto seus pés estão voltados para frente carregando um ovo precioso em sua boca. Sankofa foi adotado como um símbolo importante no contexto afro-americano e da diáspora africana para representar a necessidade de refletir sobre o passado para construir um futuro bem-sucedido .

No contexto do pavilhão brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza 2023, a cerca Sankofa é um dos elementos que redefinem o edifício como parte de uma instalação site specific projetada pelos curadores. 

site specific : interferência no uso do espaço de maneira tal que as pessoas que o usam sejam mais que espectadoras do trabalho, elas devem participar ativamente da proposta do artista.

A Bienal de Arquitetura de Veneza é um dos maiores eventos de design e arquitetura do mundo. O tema de 2023 é "O Laboratório do Futuro" e tem como objetivo olhar para o passado, para a nossa ancestralidade, para construir um futuro mais justo e igualitário. A escolha foi pelo fato de a África ser o berço da humanidade.

A exposição internacional tem curadoria da arquiteta Lesley Lokko e terá foco na África e sua diáspora, abordando questões históricas, econômicas, climáticas e políticas. A exposição adota o conceito de “mudança” como seu pilar essencial e traz 89 participantes, sendo mais da metade da África ou da diáspora africana.

A Bienal convida profissionais de diferentes áreas criativas a extrair ideias e experimentar novos futuros. Além disso, o programa será apoiado pelo chamado Carnival, uma série de seis meses de eventos, palestras, painéis de discussão, filmes e apresentações que aprofundarão os temas tratados na Bienal de Arquitetura de Veneza.

Passeie pelo pavilhão brasileiro neste vídeo curto.

Veja a cerimônia de premiação da Bienal de Veneza. A participação do Brasil está em 1:05:00 do vídeo.


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