A rebeldia do Chico foi culpa da casa do Oscar


Foto acervo pixabay grátis

Se vivemos em tempos de narrativas, onde menos que os fatos, sobram as conclusões e versões, atesto que a rebeldia do Chico, o tal Francisco de Hollanda, foi culpa do Oscar, o tal de Niemeyer. 

Não o culpo, naqueles anos 50 e 60 havia uma cultura crescente no país. Hoje mais pungente. A bossa nova corria o mundo e um jovem arquiteto deslumbrava as pessoas com as suas formas escultóricas. Não, não vou aqui tecer comentários a respeito se seriam arquitetura em toda a sua expressão, não importa. O Oscar deslumbrava. E era do Brasil. 

Não era sonho apenas dos Hollanda, que obviamente tinham poderio econômico para sonhar com uma casa assinada pelo arquiteto famoso. Em muitas cidades pelo interior se multiplicavam colunas estilo Brasília, feitas acredito com toda forma de tecnologia construtiva, mas mimetizando as formas da recém capital que apontava que sim, iriamos ter um futuro afinal. 

Jovens criativos corriam para aquela faculdade que ainda parecia coisa de gente distinta, a arquitetura. Nem se pensava em opções que não fossem o trio de ouro: medicina, engenharia e direito. As opções para quem estava no ginásio era ir para o clássico ou para o científico, preparatórios para o vestibular. A arquitetura assim aparecia como uma alternativa que unia artes e tecnologia. Talvez para alguns mais a primeira que a segunda. Caso do Chico.

Lembro da nossa primeira casa feita por um arquiteto formado. A primeira que lembro. A que nasci foi projetada por um amigo do pai, dono de uma loja de móveis. Provavelmente baseada nas plantas prontas e vindas da Alemanha, tão em voga na época. A que falo, foi no inicio dos ano sessenta. Tinha platibanda escondendo o telhado, tijolinho a vista, jardim interno e um quarto da minha mãe sem janelas. Uma porta estreita   
que dava para o corredor e que servia para soltar o gato que miava na madrugada. Minha mãe detestou o projeto. Mas segundo meu pai não dava para  contrapor. Tempos machistas.

Naquela casa, em um móvel grande que juntava TV, eletrola e rádio, lembro de ter ouvido a notícia da morte do Kennedy. Era pequena, mas sabia que minha mãe o admirava. Ela também admirava o Fidel. Muito aquariana minha mãe, embora fosse virginiana de nascimento. Ali naquele rádio ouvimos o hino da legalidade, no movimento que o jovem governador Leonel Brizola incendiou o estado. Meus pais torceram pela legalidade, embora nunca tivessem sido brizolistas. 

Mas ali não se respirava só política. Era lugar de brincar na rua, de ter coelho e gato no pequeno jardim. E de tomar banho de tanque. De fazer biscoitos de natal na imensa mesa da despensa, a parte melhor e mais bem projetada da casa. Tinha uma janela imensa que dava para o jardim de inverno. Batia sol e se podia ver as plantas enquanto a mãe preparava comidas deliciosas para a gente. Ainda hoje vejo aquela luz nos meus olhos da alma.

Definitivamente aquela casa não era a dos sonhos de minha mãe, mas foi a casa possível de ter. Não me tornei rebelde ali porque ainda não tinha sonhos cruciantes para me decepcionar. Talvez até por isso as músicas de Jobim sejam apenas músicas aos meus ouvidos e não desafios de crescimento. Ou quem sabe me falte o talento de um Chico.

Os tempos mudaram. Botas vingaram. Demoraram para passar. Cresci. Passei no vestibular. Não fui nem a melhor nem a pior aluna. A liberdade veio quando eu já era formada. O Oscar ganhou um Pritzker. O Chico virou unanimidade nacional. O Oscar foi criticado, até por mim. O país passou por hiper inflação, por impeachment, por vacas magras e vacas gordas. Um dia acordou cansado e resolveu voltar no tempo. O Oscar morreu. O Chico deixou de ser unanimidade. A gente continua rebelde acreditando no sonho de generosidade e de oportunidades iguais. E na arte como ferramenta de transformação, de Vida e alegria. 

Vai passar. 


A casa do Oscar
Chico Buraque de Holanda


A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.


Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.


Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.

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