Arquitetura, longevidade e o afeto como tecnologia

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Minha jornada é feita de arquitetura, escritas, buscas de pesquisadora e o ato de comunicar. Tudo junto. Amalgamado. São essas as moradas onde habito e onde meus sentimentos criam raízes.   Entre plantas baixas, livros, encontros intergeracionais e projetos coletivos, fui encontrando um eixo comum: o afeto como tecnologia humana. Esta percepção sustenta meu trabalho e define minha atuação entre a técnica e a escuta, entre os espaços e a cidade que temos e os que precisamos construir. Fundamentos Técnicos e o Olhar para o Futuro Sou arquiteta formada pela UFRGS (1982), com especialização em Engenharia de Produção focada na construção civil pela mesma instituição (1998). Esta base técnica me permite atuar com precisão na criação de ambientes seguros, onde o desenho arquitetônico serve como suporte para a autonomia ao longo da vida.  Minha prática profissional hoje é dedicada à pesquisa em gerontoarquitetura e ao conceito de aging in place, a capacidade de viver em sua própr...

Urbanismo ecológico na América Latina - livro indicado



Urbanismo ecológico é uma iniciativa da Graduate School of Design da Harvard University que entende o projeto como uma síntese capaz de conectar a ecologia ao urbanismo. A iniciativa tenta evidenciar métodos imaginativos e práticos para abordar as mudanças climáticas e a sustentabilidade no entorno urbano, entendendo a ecologia como um projeto ético e político que abarca o meio ambiente, não apenas como realidade física, mas também sob o aspecto das relações sociais e da subjetividade humana.
Após a publicação do volume sobre o tema, em 2014, e na esteira de uma série de debates focando a América Latina, surgiu este segundo volume editado por Mohsen Mostafavi, Gareth Doherty, Marina Correia, Ana María Durán Calisto e Luis Valenzuela. Um trabalho de peso, edição bilíngue espanhol/português, fartamente ilustrada e com exemplos de intervenções projetadas e/ou realizadas. 



A América Latina é uma região de extremos contrastes onde o pensar o urbano tem que conviver em harmonia com um passado cultural rico, diverso, muito desigual e as possibilidades de projetar novos amanhãs.

Um livro para refletir como atuar, sejamos profissionais, sejamos leigos, cidadãos, partícipes de uma realidade cheia de nuances e imponderabilidades. Imaginei a realidade fantástica de Cem Anos de Solidão na prancheta -(ops! Cacoetes de velha arquiteta), nas telas de nossos cads, nas pontas de nossas pranchetas, centenas de Macondos exigindo intervenções as mais diversas. 
Macondo é "uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". Gabriel Garcia Márquez
Como fazer com que nossas aldeias, seja lá o tamanho que tiverem, possam crescer e não desaparecer? Mesmo que metaforicamente? Como lidar com a complexidade da realidade latino americana? 

Perguntas que o livro nos faz refletir em sete eixos temáticos que são ao meu ver o ponto alto da obra

  • antecipar 
Não esperar apenas os acontecimentos. Olhar adiante, como serão as cidades possíveis de amanhã. Um olhar que faz nascer possibilidades de crescimento e harmonia com as águas, as árvores, as energias e seus impactos no ambiente. A complexidade de conceber novos mundos e valores com um respeito às singularidades locais e culturais.
  • colaborar
Conectar as populações e os agentes transformadores. Fazer dos diamantes brutos, lindas joias que encantem os que dela precisem usufruir. Instalações que mobilizem encontros, trabalhos colaborativos que propiciem harmonia entre necessidades culturais e preservação ambiental. Debates sobre questões pertinentes aos projetos e soluções são abordadas com opiniões de vários especialistas que permitem uma visão ampla sobre vários assuntos e pontos de vista.   
  • sentir
Como se cruzam os discursos e as práticas, como se cristalizam as realidades, como se dão as relações, o que queremos e percebemos de nosso viver conjunto e qual espaço queremos construir. Qual ética e estética queremos construir na América Latina?
  • incluir
Um dos verbos mais prementes na realidade latino americana, muito teorizado, é mostrado em práticas dos mais variados agentes públicos e privados. 
  • mobilizar
"Sim, é certo. As perguntas não mudam a verdade. Mas lhe dão movimento.Fazem com que a minha verdade seja focada de outro ângulo. " Giannina Braschi
Mobilizar, pôr em ação, mover-se, ver de outro ângulo. Conversar, agregar, debater e fazer a roda girar. Tudo o que sempre construiu sociedades e laços e parece tão mais difícil em nossos dias tão polarizados. Mobilizar em projetos concretos populações tão distintas.
  • curar
Intervenções que ajam como elementos de união de propostas e atuem nas causas das "doenças" sociais e espaciais para transformar realidades.   
  • adaptar 
Ser maleável às possibilidades, às realidades culturais e econômicas para fazer o possível de maneira que também seja transformador.

Um livro para ler com a calma e reflexão que os grandes debates sérios merecem. Não traz fórmulas prontas, mas aponta caminhos que foram usados. Cada realidade e seu momento mereceram respostas que procuraram atender necessidades humanas e ambientais de maneira muito sensível e particularizada. 

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