O espaço que envelhece com você: o que a arquitetura tem a ver com os seus próximos 30 anos

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Imaginemos uma manhã comum em qualquer cidade por aí: alguém acorda, vai ao banheiro no escuro, tropeça no batente que nunca incomodou tanto antes, segura a parede porque não há barra de apoio, e pensa que está ficando velho. Não está. Está vivendo num espaço que nunca foi pensado para o corpo que ele tem hoje. Esse é o ponto que me interessa. Envelhecer todos (os que tiverem sorte) vão. Mas até que ponto a arquitetura ignora estes processos? As projeções nos dizem que o Brasil vai ter 58 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2060. E o que estamos construindo para receber esse contingente? Apartamentos com corredores de 80 centímetros. Banheiros onde dois adultos mal conseguem se virar. Entradas sem rampas. Calçadas que parecem ter sido projetadas para testar equilíbrio. A cidade, como eu costumo repetir por aqui, nunca te viu. E a maioria dos lares também não. "Aging in place" não é um conceito de design escandinavo importado para Instagram. É o direito de permanecer no ...

Revisitando uma cidade especial - Brasília

"De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas." Italo Calvino
Vista dos poderes a partir do Anexo IV da Câmara 
 Lá pelos anos 70 fui parar no Planalto Central. Para a pré adolescente de 13 anos entrar dentro de um carro e migrar para a capital federal era uma aventura fantástica! Tudo era novidade e eu nem fazia noção de que a liberdade estava longe de nosso país.

Brasília era uma cidade nova, de apenas 10 anos. Seus moradores também tinham vindo de outros estados assim como eu. O barro vermelho, que o redemoinho de areia ressaltava nas quadras ainda carentes de vegetação, parecia cena de cinema. Foi assim que iniciei uma nova etapa de vida que duraria sete anos e me proporcionaria lindas amizades. E um vestibular em 74 me abriu as portas da profissão fascinante que é a Arquitetura. 

Em 76 voltei ao RS. Deixei amigos, deixei parentes. Deixei uma cidade que me conquistou. 

Nos anos de ausência voltei apenas três vezes. A última em 1986. Exatos trinta anos atrás.

E quando precisei me recuperar física e emocionalmente, voltei à Brasília em busca de sua energia boa. E reencontrei. Me reencontrei. 
Exposição Quadrantes onde meu sobrinho Paulo Stein está expondo
Uma das primeiras perguntas que me fizeram foi qual a diferença que tinha visto na cidade. E respondendo sinceramente, apesar do inchaço populacional, em um primeiro momento o que vi foi a minha Brasília. A cidade que me viu adolescer com suas ruas largas e muito organizadas. O espaço amplo me fascina. Eu tive uma sensação de claustrofobia quando voltei à Porto Alegre com seus edifícios altos e ruas estreitas. E, se por um lado, a falta de oportunidades de caminhar a pé me faz falta em Brasília (uma cidade onde as pessoas tem cabeça, tronco e rodas), por outro a sensação de amplidão me faz muito bem! Magias do espaço.      
Vista da Catedral pelos fundos
A arquiteta que vive em mim também percebeu alguns senões: as quadras mais antigas já começam a mostrar os sinais inexoráveis do tempo. Com seus edifícios com 50, 40 anos já revelando a necessidade de muita manutenção. Os hábitos e necessidades se modificaram muito. Já não há espaço para estacionar tantos carros. O transporte público ainda é precário e não há ciclovias na maioria das grandes avenidas onde os carros voam.

Mas se um pedestre puser o pé nas faixas de segurança, todos os carros param. Sim! Em Brasília, nesse aspecto, se vive no primeiro mundo.  
Banco Central do Brasil
 Novos bairros habitacionais começam a surgir. As asas, tanto a Sul que já era mais habitada quando eu morava por lá, como a Norte que cresceu nos anos seguintes, são estanques. E com um preço bem alto em função do gabarito de altura e áreas verdes. O setor Sudoeste e Noroeste vem suprir a demanda de habitações mais modernas e mais acessíveis. Sem falar das cidades satélites que, no meu tempo, eram meros dormitórios, e hoje são pujantes e densamente povoadas.    
Pontão do Lago Sul
O Lago Paranoá funciona como um balsamo em uma cidade sem rios e com um período de muita seca. Ele já era muito bacana na minha época e passei muitos momentos agradáveis nos clubes às suas margens.

Hoje essa proposta aumentou. Há espaços privados que oferecem várias alternativas de lazer. E parece que há uma iniciativa do governo local de utilizar de forma pública os espaços ao redor do lago. 

De qualquer maneira, ele é muito usado em vários tipos de esportes náuticos e vários condomínios de padrão elevado estão surgindo às suas margens.  
Lago Paranoá
O cerrado. Vegetação típica que cresce para baixo. Informação que nunca esqueci em um trabalho de feira de ciências no ginásio que cursei em Brasília. 
Jardim Botânico
Fui admirar essa espécie e outras no Jardim Botânico. Para mim, novidade. E para minha surpresa, encontrei um local cheio de gente, com uma proposta de fazer cafés da manhã como se fossem piqueniques. 

Jardim Botânico
O poder. Muitas pessoas confundem a cidade com os governantes e representantes que a ocupam no momento. Eu nunca fiz isso. Nem mesmo na época da Ditadura. A cidade é composta de seus espaços, sua proposta de organização, de sua natureza e de sua energia.

Mas é obvio que também não se pode esquecer que ali moram e decidem sobre nossos rumos os representantes que elegemos. E onde os poderes judiciários decidem sobre o que pode ou não ser feito. E onde os países tem as suas representações diplomáticas. Assim, Brasília respira poder. 

Mas nessa visita, mesmo em meio à um momento turbulento da vida nacional, este poder não se fez sentir para mim de forma como sentia na época em que morava lá. Me perguntaram se vi políticos. Não. A cidade cresceu. Eu já não vivo a rotina de estudar nos mesmos colégios de filhos de ministros e/ou diplomatas. Eu fui para Brasília descansar. E a proximidade física do poder não me impediu.    
Arriamento da Bandeira Nacional no Palácio da Alvorada
 A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata - Italo Calvino
pôr do sol fabuloso de Brasília
 Duas coisas são fascinantes em Brasília. Sua natureza que é representada pelo segundo por do sol mais lindo do Brasil (depois do de Porto Alegre - embora existam divergências bairrísticas). E a Arquitetura.

Impossível conhecer a cidade sem se debruçar pela sua proposta planificadora e modernista. E os edifícios símbolos. 

Deles para mim, o melhor é o Itamaraty. Não sei sobre a sua funcionalidade. Mas a sua forma é realmente algo de calar fundo na alma como pura poesia. Os prédios administrativos estão há muito defasados, e anexos se juntam ao perfil da esplanada. Uma lição: assim como a vida, a arquitetura se expande. A vida não se conforma à planejamentos estanques. 

Os prédios mais recentes, do Niemeyer e de outros, não me encantaram. Nenhum me fez dar um OH de admiração. Me parece que nossa arquitetura precisa de um novo sopro de renovação. Seja no setor estatal, seja no privado. E nossa capital reflete isso. 

Ponte Juscelino Kubitschek 

A proposta era de descanso. Isso consegui com muito carinho dos amigos e parentes. E mais uma vez me reafirmou que Brasília e eu temos uma relação de cumplicidade e energia boa muito forte.

E você? Já sentiu isso em relação à algum local ou cidade? Algum lugar que lhe realimente a alma? Se sim, conta pra gente! Vou adorar saber!

Fotos: Elenara Stein Leitão

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