Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Nenhuma mulher deve morrer enquanto gera a vida

A maternidade é um período muito especial na vida de uma mulher. Vivemos em uma sociedade que, bem ou mal, consegue garantir condições mínimas de cuidados para uma gestante. Mas se tentarmos imaginar uma realidade bem diferente, qual a resposta que a Arquitetura pode dar?

É o que trata esse projeto. A primeira vista nada de especial em termos formais. Ah, mas são contêineres que levaram ajuda japonesa para uma região muito pobre de Zâmbia na Africa e onde o índice de mortalidade infantil e de gestantes é muito alto. Esses dados mobilizaram investidores japoneses. Inclusive pelo aspecto de reciclagem.    
Mas como vemos na entrevista (AQUI) da Arquiteta Mikiko Endo, os desafios foram maiores.
"Meu desafio era projetar uma estrutura que fosse atraente o suficiente para atrair a atenção dos moradores locais que não possuem televisores ou ler jornais, e levá-los a pensar: "Ei, eu gostaria de ficar neste lugar e dar à luz com segurança ! "- mas também construir algo que faria doadores individuais e corporativos do Japão pensarem:"! Este é um grande edifício tal, eu definitivamente gostaria de apoiar projetos semelhantes no futuro."
Se para os doadores os contêineres eram uma solução não apenas viável, mas desejável, para os moradores locais não. Eram vistos com muitas restrições quanto à forma, durabilidade, segurança. Conciliar culturas e necessidades diferentes exige do profissional que projeta uma sensibilidade e humildade de desenvolver uma empatia com o modo de pensar. Minhas ideias para o teu problema nem sempre são a solução mais viável. e é muito prepotente tentar impor soluções que para alguns parecem lógicas e modernas. Mas que para outros soam como estranhas e pouco desejáveis.

Todo esse processo de envolvimento de todos os participantes também incluiu um workshop com moradores locais que resultou na decoração da casa de espera da maternidade com selos em forma de folha e os nomes dos 100 doadores japoneses

A música e a dança foram usadas no processo o que facilitou a apropriação do espaço pelos moradores. E permitiu que mulheres pudessem ter um local onde prosseguir com segurança a sua gestação. 

E eu concordo inteiramente com a arquiteta quando ela concluí sobre o seu aprendizado com este projeto: 
"Quero manter a criação de arquitetura que trata de frente com questões da vida e da felicidade humana. Eu não quero esquecer o que aprendi com este projeto, que é que além do prestígio do arquiteto indivíduo, existe um mundo muito maior, mais amplo de alegria"
Uma arquitetura que mobiliza culturas diferentes em prol de uma causa humanitária, uma arquitetura que ajuda a salvar vidas e a garantir que mulheres possam exercer o seu papel na perpetuação da espécie com mais segurança e dignidade, esta sim, é uma Arquitetura que vale a pena ser feita. 

Mother Architecture

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