Pular para o conteúdo principal

Morte não é bonita

Quem disse que a saudade é bela, mas triste? Talvez isso morasse dentro de mim como certeza ou vislumbre dela. Saudade é querer retornar no tempo, é ver o tempo que vai prá frente e ter vontade que voltasse para trás. Todos os que já passaram por isso sabem a que me refiro. O luto, o nunca mais, o adeus. 

A vida não me foi madrasta. Coisa mais antiga isso, vem do tempo em que minha mãe, com medo da troca, sei lá, falava mal das madrastas. Logo ela que tinha e sempre teve o eterno amor de meu pai. Mas sabe-se lá o que passa na cabeça das mulheres. Ou dos casais. Enfim, a vida me poupou do luto das pessoas mais chegadas por longos anos. Tudo bem que era adolescente quando minha vó se foi, mas na minha cabeça de criança ainda a morte era algo distante. Uma coisa que acontecia com pessoas bem velhinhas e meu choro de então escondeu a verdade. E passou.    
Mas quando se é adulto, quando as decisões sobre a saúde dos que amamos passam por nós, quando o cansaço se faz tão forte quanto a inexorabilidade do que vai acontecer, quando a esperança passa a ser temida porque se sabe que ela não vai nos brindar com a sua presença, quando tudo isso se soma, algo acontece dentro da gente. Um misto de desânimo e cansaço. Um medo do que se sabe que vai acontecer. Um sentimento meio ruim de que aconteça porque o cansaço é tão grande que tolhe tudo o mais. E ao mesmo tempo, e em seguida, uma culpa de se querer um fim que se teme.  
Esse turbilhão de sentimentos nos abraça em uma longa eternidade quando as enfermidades se tornam repetitivas, quando os médicos nos falam que "sabe como é, já teve uma vida longa", quando os olhares dos técnicos nos dizem que, atrás da aparente frieza, eles sentem sim. Sentem por nós, sentem por eles, sentem pela vida. Que nessa batalha todos seremos perdedores.

E se a gente tem uma capacidade tão grande de resiliência e vai levando, mesmo destroçada por dentro, as pessoas acham que somos fortes. Mentira. Tudo o que queríamos era fugir, era não sentir, era voltar no tempo. Era ter a presença da esperança. 

Fazer de tudo. Desistir no meio do caminho. Qual decisão? Deixar aquela pessoa que se ama tanto partir sozinha, ela que estava conosco desde sempre, desde que saímos do útero materno e respiramos pela vez primeira....como lidar com isso?

Razão sabe que tudo o que se fez foi por amor. Mas será que a principal pessoa sabia disso? Coração diz que sim, mas havia mesmo necessidade de deixá-lo sofrer tanto? Foi por mim ou por ele?

Luto. É quando o coração da gente soluça. Essas questões talvez se resolvam, vou me apegar ao que ele dizia: quando não se faz algo por intenção, não é pecado. Eu acho que consigo elaborar isso. Algum dia. O sol que me iluminava na sua presença vou ter que deixar nascer em mim todo dia. Minha fraqueza de menina que sente pela primeira vez só e muito só talvez custe mais a passar. Mas passa.

Perdoem a catarse. A morte não é bonita. Mas por alguma estranha razão, mesmo sentindo tudo isso, não tenho o  sentimento do nunca mais. Mas do  até daqui a pouco...
  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Slim Fit, uma micro casa que tem muito espaço

  Uma micro casa vertical de 50m², vencedora do Design Awards 2018 na cateHabitat, chamada de SLIM FIT House pela arquiteta portuguesa radicada na Holanda, Ana Rocha , é uma proposta de moradia permanente para pessoas que moram sós nas grandes cidades. Segundo o site da arquiteta, a micro-residência, que ocupa menos que duas vagas de estacionamento, tem como conceito ser projetada " para o grupo crescente de solteiros que preferem a localização ao invés do tamanho, e que desejam viver de forma compacta, mas confortável, durável, cheia de identidade e, acima de tudo, centralmente em contextos urbanos." A casa vertical joga bem com a equação sensação de espaço e economia de metragem. Setoriza área de alimentação, refeições e despensa no térreo. Uma escada, sutilmente mesclada a um armário estante faz a ligação aos outros andares. No segundo, um estar e dormitório e banheiro no terceiro.     Fotos: Christiane Wirth Nos siga também nas redes sociais Twitter   Flipboard   Faceboo

Redes sociais, o aprendizado e as interações perdidas e achadas

Sim que a vida digital trouxe uma série de vantagens em nossas vidas. Posso ser jurássica e em muitos casos, ainda analógica, mas amo uma interação social e profissional virtual. Um dos grandes locais onde conheci vários amigos super queridos, profissionais, que tanto me acrescentaram, foi o grupo de Arquitetura do Yahoo. Lembro até hoje quando li em uma revista de arquitetura sobre ele, me inscrevi e lá estava eu no meio de debates de todas as matizes e locais. Por isso senti profundamente quando os grupos daquela plataforma foram extintos.  Leia também  Nuvem passageira Por sorte, também sou acumuladora em redes virtuais . Meu espaço de email guarda uma série de debates desde 2005. Às vezes volto a eles e constato o quanto tem de assuntos relevantes, inclusive para os dias atuais. Fazendo uma breve reflexão tendo a pensar que, nesses 15 anos de interação virtual e convivência em redes, perdemos muito em profundidade de debates, embora tenhamos crescido em possibilidades. Lógico que f

Transformando um problema em solução - impressão 3D

Uma cabana feita com impressão 3D usando concreto e uma madeira que era imprestável, porque destruída por um inseto invasor, é o projeto realizado pelos professores de arquitetura, Leslie Lok e Sasa Zivkovic, da Cornell University. O Emerald Ash Borer é um besouro que ataca bilhões de freixos em todos os Estados Unidos e as inutiliza para o uso comercial. fazendo com que as árvores infestadas sejam queimadas ou simplesmente largadas como refugo. Foi pensando neste problema que os pesquisadores da HANNAH chegaram a essa solução de aproveitamento da madeira para construção. Para tanto construíram uma plataforma robótica para processar essa madeira que seria descartada. Como isso foi feito? Usando um braço robótico que antes construía carros e foi adaptado para dar forma à madeira, aliado a um sistema de impressão 3D que usa uma quantidade mínima necessária de concreto. O resultado? Fotos: HANNAH / Andy Chen / Reuben Chen Nos siga também nas redes sociais Twitter   Flipboard   Facebook  

Dicas para economizar na conta da luz

  Não bastasse os sustos do ano, os gastos do fim dele (ufa!) que não são apenas presentes, mas impostos, 13°, etc, etc, vamos ter também bandeira vermelha nas contas de luz. A Agência Nacional de Energia Elétrica já tomou essa decisão, que começa a vigorar no começo de dezembro.  O verão se aproxima com promessas de muito calor, estamos usando muitos aparelhos em casa para manter nossa rotina e trabalho seguindo. Então o que podemos fazer para economizar e não levar (tanto) susto na hora de pagar a conta?    Consciência Em primeiro lugar: consciência. Parece básico, mas não é. Sabe aquele ato automático de abrir a geladeira e ficar pensando no que vai comer? Ou beber? Não faça. Deixar acesas luzes em ambientes onde ninguém está. Apague. Lembro sempre do meu pai que nos incutiu essa cultura do não desperdício desde pequenos. Assimile e passe adiante. Splits e ar condicionado Este será um verão atípico porque muitas vezes teremos que abrir mão de ventilação mecânica em função da pandemi