A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Walking City - fascinante video

 

Fiquei absolutamente fascinada acompanhando essa "caminhada" digital pelas visões utópicas da Arquitetura dos anos 60. Referências são mostradas com maestria em uma linguagem quase poética.
O Archigram, em cujas ideias se baseia a animação, foi um grupo de arquitetos  formado na Architectural Association School of Architecture, em Londres, que criou uma série de propostas que brincavam com a tecnologia exatamente para ironizar o seu uso exagerado. É bom recordar que nos anos sessenta a corrida espacial e as propostas tecnológicas eram o auge do sucesso e se imaginava um futuro de carros voadores e viagens interplanetárias para breve. Um dos conceitos, criado pelo arquiteto Ron Herron era o Walking City: "Edifícios inteligentes, que ironizam a ideia da “casa como máquina de viver”.

Linguagens novas de comunicação nem sempre são bem aproveitadas, ou o são à exaustão, trazendo um desnecessário foco na ferramenta, ao invés do conteúdo. Não é o que acontece aqui. As imagens são instigantes e a lenta caminhada de oito minutos se transforma em um exercício de adaptação ao ambiente.  

Parabéns aos idealizadores. Souberam traduzir hoje a ironia de gente que já propunha de maneira divertida a critica à massiva e monótona mecanização da época e propunham o uso da tecnologia como uma porta à criatividade.

universaleverything.com/projects/walking-city/


Walking City from Universal Everything on Vimeo.

Comentários

  1. Muito bacana!

    Elenara, você dá cada descolada...

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  2. Obrigada! Esse realmente foi um achado. E tem mais vídeos bacanas no site do pessoal que fez este daqui. Vale a pena dar uma olhada. Abraços

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