Pular para o conteúdo principal

A força da pátria - Milton Santos

Resgatando belíssima entrevista que faz uma apreciação sobre a importância da "força do lugar"


Cadernos do Terceiro Mundo N° 233 Ano 2001


Milton Santos - A força da pátria

O geógrafo e humanista deixa lições para se pensar o Brasil com esperanças. Crítico da globalização, confiava na capacidade do povo brasileiro em forjar nova realidade

Procópio Mineiro

"O mercado não resolve tudo", foi a mensagem do professor Milton Santos na entrevista que concedeu a cadernos do terceiro mundo, quando a revista comemorava sua ducentésima edição, exatamente quatro anos atrás, em junho de 1997. No último dia 24 de junho, em São Paulo, Milton Santos morreu, vítima de câncer, aos 75 anos. O baiano do interior, de Brotas de Macaúbas, há muito se tornara um cidadão do mundo, vislumbrando, por entre as regras e leis da Geografia, uma humanidade que caminha e anseia por espaços de justiça e solidariedade.

"Um discurso de baixo contraria o discurso de cima e produz a semente da força com que o Brasil já começa a enfrentar e recusar a atual globalização perversa", disse Milton Santos naquela entrevista a cadernos. Os conceitos aí expressos – o divórcio entre a maioria da cidadania e os dirigentes, o caráter desumano das práticas globalizantes – demonstram bem a percepção de quem afirmava, categoricamente, que "Estado mínimo" e "mercado" jamais atenderão às necessidades brasileiras por desenvolvimento.

O professor da Universidade de São Paulo distinguia a onda globalizante de outras épocas de expansão planetária dos centros mais desenvolvidos, como o colonialismo e o imperialismo. A diferença residiria na "nova qualidade da técnica, providenciada através do que se está chamando de técnica informacional. Essa técnica, isto é, essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. É assim que a periferia do sistema capitalista acaba sendo ainda mais periférica, seja porque não dispõe totalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle. O caso do Brasil é ao mesmo tempo singular, em virtude de seu desenvolvimento relativo, e é típico, já que as atuais formas de sua inserção na globalização supõem o abandono da ideia de projeto nacional e produzem um claro retrocesso econômico e social", definia.

A força do lugar

Dos conceitos da Geografia, Milton Santos filtrou princípios que lhe demonstravam que "o lugar recria cultura, ele o faz a partir de um cotidiano vivido de modo distinto, mas coletivamente, por todos. Este cotidiano é um reflexo das condições de cada lugar e tem suas raízes fincadas no trabalho em todas as suas modalidades", refletia o professor. Como é fácil entender, o lugar aí não é só o "topos", o terreno, um local qualquer, mas o lugar da comunidade que vive e interage, que cria uma identidade – um lugar que costumamos chamar pátria.

"É nesse aspecto, no entanto, que o cotidiano territorializado ganha um papel novo, ou seja, atribui às comunidades a possibilidade de se reverem e se redefinirem face à globalização, além de ampliar os horizontes de sua consciência, impondo novas visões de mundo, de cada nação, de cada lugar ou região, e se transformando, dessa forma, numa força política incontornável."

O mestre ensinava ainda, na entrevista a cadernos, que, "no caso brasileiro mais especificamente, é o território, com todos os seus lugares, mas sobretudo por suas grandes cidades, que revela a profunda crise da nação e o mal-estar que o processo de globalização está criando em toda parte. Esta descoberta já vem sendo feita por numerosos atores da sociedade. Além disso, esta mensagem está se difundindo com grande rapidez". Nessa crescente conscientização, ele antevia o germe da recusa aos novos padrões desumanizantes.

Globalização, blocos, as gentes

Ao participar do lançamento da Enciclopédia do mundo contemporâneo (co-edição da Editora Terceiro Milênio com a Publifolha), no ano passado, em São Paulo, Milton Santos reafirmou: "Creio firmemente que a globalização que aí está não é para durar. Caberá ao Terceiro Mundo um papel decisivo, não ao Primeiro Mundo. O maior desafio da América Latina é espanar a dependência intelectual."

Naquela entrevista a cadernos, o pensador voltava as vistas também para os blocos econômicos: "Afora a União Européia, os blocos regionais têm como meta essencial facilitar o comércio entre um grupo de empresas privilegiadas. E no caso do Mercosul e da América Latina, a idéia de cidadania é praticamente desconhecida. Desse modo, a forma como se desenvolvem atualmente os blocos econômicos regionais favorece a expansão e o fortalecimento do chamado mercado global e não a criação e fortalecimento de uma comunidade humana universal". 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

13 ideias para quem ama gatos

Há pouco passou uma sexta feira. Era 13. Gosto das sextas feiras. Gosto do 13. Gosto dos gatos. Gosto dos gatos pretos, esses que tanto foram perseguidos como companheiros de bruxas.

Gatos são da casa -repetem como mantra os que não conhecem os gatos. Os gatos são deles mesmos. E de quem os conquistar. Ou de quem eles resolverem amar. 

Amor de gato é diferente do amor de cão. E não menos dramático. Gatos não toleram atrasos. Não aceitam menos que a nossa entrega. De preferência sem muito chamego, a não ser na hora que desejam. 

Gatos são hedonistas por natureza. Existem para viver com languidez e serem acariciados. Mimados. Paparicados. Gatos são aristocratas. Mesmo que revirem latas de lixo. 

Desconfiem da humildade felina. Ao primeiro toque de boa vida, se tornam preguiçosamente orgulhosos.   
“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultu…

Ideias simples que ajudam muito

Muitas vezes a gente fica pensando em soluções mirabolantes para a casa da gente e esquece de ideias simples que ajudam bastante. Reuni algumas delas aqui

Uma gaveta bem colocada na lavanderia auxilia muito a tarefa de colocar as roupas na máquina.  Procure soluções que forneçam apoio para bacias, para cestos e simplifiquem sua vida nas tarefas de limpeza da casa. Aproveite espaços que ficariam sem uso. Essas práticas gavetas para guardar esponja e sabão são um exemplo.
Outra ideia de aproveitamento de espaço inútil. A área ao lado e na frente das cubas. Vejam que foi usado material impermeável e assim podem ser guardados os utensílios de lavar louça que são molhados. 
Usar porta toalhas em portas ajuda na organização.

Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. Na hora de cozinhar é preciso achar com praticidade tudo o que se precisa. Uma boa solução é fazer um gavetão para esses utensílios e dispô-los em locais práticos e de fácil acesso.  Pratos podem ser colocados para sec…

Coifa, exaustor ou depurador? Saiba qual é a melhor opção para a sua cozinha.

Quem já não passou por isso: Você está cozinhando e quando nota tem fumaça por todo lado, muito calor, além do cheiro da comida se espalhando por outros cômodos da casa. Isso acontece principalmente quando fritamos algum alimento. Para evitar situações como essa, existem depuradores, exaustores e coifas. Mas você sabe o que cada um faz e qual o melhor para o seu tipo de cozinha?

Confira a diferença entre eles e veja o que melhor se adéqua a sua necessidade:

CoifaA coifa tem como função sugar o ar, filtrá-lo e expeli-lo para fora da cozinha por meio de tubos de saída que podem ser instalados no teto, em paredes ou em forros. Ela elimina não somente a gordura e outros odores do ambiente, mas também “renova o ar” da sua cozinha.
Dependendo de onde está localizado o fogão, você pode optar por coifas de parede ou em formato de ilha, que ficam no centro da cozinha. Atualmente, existem coifas para todos os gostos e com designs bem modernos que se adaptam a qualquer tipo de decoração.

Recomenda-…

Círculo da Vida - arquitetura viva

Imagine uma série de construções que sigam o ciclo da natureza de vida, que possam crescer, florescer e fenecer como qualquer organismo vivo. É a ideia por trás da Arquitetura Viva ou botânica construtiva como alguns chamam. Falei sobre este conceito em Arquitetura Orgânica.
E enquanto pesquisa o site dos arquitetos do Obvious Avoid (falei sobre eles na postagem sobre ensinar crianças a pensar como arquitetos) encontrei essa proposta do Círculo da Vida que eles mesmos descrevem como "uma coleção de construções sustentáveis ​​feitas para celebrar a arte, a natureza e a ciência. "
Através de um centro de aprendizado a ser feito em uma floresta mexicana, as pessoas poderiam participar e compreender a natureza em todos os seus processos, tanto de vida como de morte. E onde o local não será apresentando como uma proposta fechada, mas como um processo em crescimento natural.
Os sete passos do ciclo proposto são:
Encontrar e recolher árvores caídasConfeccionar produtos de madeiraUsar p…