Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

Acessibilidade e sensibilidade

Em tempos de politicamente correto, é preciso, urgentemente, discutir e ampliar o conceito de Acessibilidade.

A Norma é fracionada: determina como deve ser a rampa, o piso tátil, o sanitário. Mas, para o usuário, itens em separado nada significam. Não adianta ter um banheiro acessível, se não há uma vaga de estacionamento corretamente reservada; pois para que o sanitário seja usado, é preciso que o público-alvo chegue até ele. Acessibilidade, para funcionar, tem que ser um conjunto de facilidades. A falta de um único item, compromete qualquer esforço em separado.

A Acessibilidade é um conceito muito mais abrangente do que se propaga. Vai além do estrutural. Acessibilidade começa no domínio da boa educação, da moral e do caráter. Faz parte das relações humanas. É preciso desenvolver empatia, simpatia e bom senso no sentido de voltar o olhar para o coletivo, para o outro.

Acessibilidade é atitude. É não jogar lixo na rua. É não parar na vaga do deficiente ou do idoso, nem que seja “rapidinho”. É nunca utilizar o caixa preferencial, a menos que faça parte do grupo a que se destina. É não furar fila.

Acessibilidade não é só para aqueles a quem costumamos associar o termo – deficientes, idosos, acidentados, grávidas, etc. Acessibilidade é para nós também. Placas de sinalização e localização também são acessibilidade. Ponto de ônibus com informação das linhas é acessibilidade.  Placa com nome de rua também. Quem de nós nunca precisou de informações como essas? São serviços, aliás, pelos quais todos nós pagamos com nossos altos impostos.

Precisamos urgentemente desenvolver uma consciência coletiva em acessibilidade; não para grupos específicos, mas para todos.

Os bons exemplos existem – e devem ser louvados, pois certamente não são produto apenas das leis, mas do entendimento de alguém que se dispôs a fazer o certo. E o certo sai sempre mais barato: evita desperdício de dinheiro com reformas futuras,  diminui demandas judiciais – pagas com dinheiro público, agrada a todo mundo e, de quebra, ainda cumpre a lei.

Fazer Acessibilidade também requer informação pois, segundo o velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. É preciso sensibilidade, mas também profissionalismo.

Fazer Acessibilidade é promover independência e dignidade. Às vezes, é recomendável um exercício de imaginação. Ao fazer escolhas, devemos antes responder a perguntas básicas, como “este é um local ou serviço que pode ser facilmente utilizado por todos, sem a interferência de qualquer suporte ou de terceiros ?”

Fazer Acessibilidade é internalizar bons hábitos, como não obstruir entradas, nem deixar obstáculos pelos caminhos.

Fazer Acessibilidade é garantir o direito de ir e vir, contemplado no artigo 5° da Constituição.

Fazer Acessibilidade é se comprometer individualmente com um “bem” que é de todos, independente das leis ou da responsabilidade do poder público.


Rosana Puga de Moraes Martinez, é presidente da Associação de Doenças Neuromusculares,membro do Conselho Gestor do Centro de Referências em Distúrbios do Movimento da Unepe, membro do Fórum Permanente de Acessibilidade e Mobilidade Urbana de Campo Grande-MS.

Fonte  Publicado aqui com o consentimento da autora

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