Quando o clima muda, quem cuida de quem envelhece?

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Gosto de caminhar pelas ruas de minha cidade. Moro há 50 anos nesta Porto que já foi mais alegre. Envelheci caminhando pelas lombas e ruas que eram corredores verdes, luta de quem subia em árvores e das pessoas que se reuniam aos vizinhos para lutar pelo seu entorno. A cidade também envelheceu. As concepções urbanas de conquistas ambientais meio que se perdem na memória dos transeuntes apressados. Dizer um bom dia já causa mais espanto que sorrisos. Todos correm na cidade que acumula poças de água em dias de chuva cada vez mais frequentes. E podas cada vez mais catastróficas. Temo imaginar como será no verão.  Pelo que leio dos verões em outros hemisférios, há cada vez mais ondas extremas. Fico imaginando onde encontrar sombras, cada vez mais escassas. Assim como bancos públicos, sem falar das calçadas com seus  desníveis conhecidos, aqueles que a gente aprende a evitar depois de alguns tropeços. Imagine os novos. Aqueles consertos de empresas, meio mal feitos, que logo são de...

Mas afinal, o que é esse tal de bom gosto?

Quando queremos definir um ambiente bonito, em geral dizemos que ele é de bom gosto. Mas...O que seria exatamente bom gosto ? O não exagerar? O saber dosar cores, móveis, tendências? 

"O bom gosto é a capacidade de reagir continuamente contra o exagero." (Hugo von Hofmannsthal)

Será ? Ou depende da época e cultura onde estejamos vivendo ? 

Eu sou meio avessa às fórmulas prontas ou definições estáticas. Sempre me cheira a Pré-conceito. Ou seja, é um pré julgamento. E isso significa não estar aberto para as coisas novas, novos olhares, novas formas de ver seu espaço, sua vida. Meu conceito de Arquitetura passa por aí. Arquitetura, para mim, é uma linguagem universal, é ousada por ser propositiva. E não importa se esteja falando de exterior ou interior. É espaço. E espaço é para ser vivenciado, é para ser experimentado, é para ser sentido.


E quando é o espaço de alguém, quando fala de sua vida, sua história, seus sonhos, é ainda mais fundamental ter bom gosto. Mas não aquele que tolhe, que impõem. E qual seria então?


"É o bom gosto, e somente o bom gosto, que possui o poder de esterilizar e é sempre o primeiro obstáculo para qualquer funcionamento criativo." (Salvador Dali)
Foto de Ian Parkes – Porta Art Nouveau
Vou dar um exemplo falando de um estilo que me agrada muito e que está voltando a virar moda fashion (eu detesto isso de voltar a virar moda, um estilo nunca morre, pode apenas estar fora da prateleira, da vitrine). A primeira vista peca pelo exagero, é over, mas é na sua aparente desarmonia, na sinuosidade de suas formas que encontramos toda a força de sua linguagem. Estou falando da Art Noveau. 

Quando foi lançado no final do século XIX e inicio do XX, significou um arrojo, um estilo que ia da arte aplicada à arquitetura. Era uma concepção com estilo, com atitude, com coerência. Adoro suas formas orgânicas, a sua linguagem é uniforme e expressa verdade. Não é um ornamento jogado porque poderia ficar bonito. Tem conteúdo.
Casa Victor Horta – Foto CH Bastian e Chevrard

E aí chego ao ponto inicial. Para mim o que distingue o “mau” gosto do bom gosto é a falta de conteúdo. É a falta de verdade. A Arquitetura não é diferente da vida da gente, brilho falso pode até agradar, mas não dura. Vira coisa datada como se vê tanto por aí. Um móvel, um revestimento, um ornamento que é moda uma temporada ou duas, mas não fica. É datado. Os clássicos, os estilos de verdade, permanecem. 

Por isso na hora de definir o seu espaço, lembre que ele deve ter a sua cara, a sua personalidade. Não a do profissional X ou Y, por mais famoso ou talentoso que seja. Se o seu coração clama por muita cor, e a tendência é monocromática, não se renda ao “bom gosto” reinante. Puxe o seu lá do fundo e seja feliz.


Elegância é tudo aquilo que é belo, seja no direito seja no avesso. Coco Chanel


Autor : Elenara Leitão

PS: esse artigo foi escrito para o lançamento de uma revista, a GO ON Magazine

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