A cidade que não te vê: quando o espaço urbano envelhece mais rápido do que aprende

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  Há uma cena que se repete em muitas de nossas cidades com uma regularidade que incomoda. Uma pessoa idosa para na esquina, olha para os dois lados, e espera. E muitas vezes o sinal já abriu. Ela espera porque sabe, por experiência acumulada no corpo, que o tempo de travessia não foi feito para o seu passo. Ela aprendeu a calcular antes de sair de casa. Calcular nas calçadas. E calcular mais uma vez, nas esquinas, enquanto os carros aguardam com uma impaciência que não se disfarça. As engrenagens e buzinas que o digam.  Essa cena dura talvez trinta segundos. Ela não costuma aparecer em nenhum relatório de mobilidade urbana. E é justamente por isso que precisamos falar.  A hostilidade que afasta Existe um tipo de arquitetura hostil que já se fala bastante: o banco com divisória no meio para impedir que alguém deite, o piso pontiagudo embaixo do viaduto, a cerca elétrica que delimita o que é de quem. São dispositivos que dizem, sem ambiguidade, você não pode ficar aqui...

Pássaros em luz


Das coisas que vi da Casa Cor SP 2012 uma me chamou a atenção. Foram esses pássaros que estão na entrada do Studio da Pianista da Arq. Denise Barreto. A proposta era de um ambiente masculino, intimista como são os artistas (alguns, talvez a maioria...). Gosto desse encaminhamento meio mágico que te leva ao ambiente maior. Me lembro dois exemplos que me marcaram sobre isso: a entrada da Catedral em Brasilia onde um corredor escuro te leva ao interior cheio de luminosidade, e o antigo lugar onde era exposta Guernica de Picasso, que me proporcionou uma das maiores experiências sensoriais em arte. Adentrar por aquele local escuro, negro, com rascunhos da obra e chegar ao salão todo negro onde ao fundo repousava o quadro iluminado. Sem turistas(!), apenas uma mulher, sentada qual uma india, aquele ambiente era quase sagrado. E saber que eu estava vendo a Guernica em Madrid, significava que a Espanha era enfim uma democracia. Tudo isso me emocionou muito e guardo essa imagem aqui dentro de mim como um dos momentos mais bonitos de minha vida.



E por isso gosto dessas entradas, qual fossem uma antevisão da descoberta. Esse jardim com seixos e os pássaros feitos em madeira sustentável, iluminados me dão uma sensação meia mágica, me tiram do tempo presente, me fazem sonhar. 


Confesso que não gosto muito daquela iluminação no forro, achei meio over para o ambiente. De resto ele tem preocupações estéticas e acústicas bem interessantes, uso de materiais sustentáveis e que focam a economia energética.



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