Pular para o conteúdo principal

Telhado branco obrigatório - pontos a ponderar

Recentemente houve um debate na câmara de São Paulo a cerca do PL615, a chamada Lei do Telhado Branco, proposta pelo vereador Goulart e que tornaria obrigatório o uso da cor branca nos telhados da cidade de São Paulo. Essa proposta que tem boas intenções foi baseada em um estudo da Universidade de Berkeley (CA, EUA) que "constatou que cerca de 25% (vinte e cinco por cento) da superfície de uma cidade é composta de telhados, e que estes são predominantemente escuros, refletindo somente 20% (vinte por cento) da luz solar. Por outro lado, se fossem pintados de branco refletiriam mais a luz solar e absorveriam menos calor, emitindo 10t (dez toneladas de CO2 (gás carbônico) a menos para cada 100m2 (cem metros quadrados) de telhado pintado."  A partir daí foi criado um movimento mundial que defende que esse estudo seja ampliado para todo o mundo. Eu mesma aqui no blog, já defendi essa ideia. Mas....e para isso existem os especialistas, e entre eles, os arquitetos urbanistas, como o caso de nosso colega Oscar Muller, que já gritavam que nem tudo o que serve acolá, serve aqui. Que cada caso é um caso e que as generalizações, além de burras, podem ser danosas ao meio ambiente, justo o que o Projeto de Lei procurava evitar. Numa demonstração de espirito democrático o autor da proposta se dispôs a ouvir os especialistas e seus argumentos que estão postados abaixo.     

1- A matriz energética (nos USA) é predominantemente baseada na queima de diesel e carvão, enquanto a nossa base é hidroelétrica, portanto aqui a redução do consumo energético não reflete na emissão de CO2 como pretende o estudo.

 2- O clima é muito seco, enquanto o nosso é muito úmido. Aqui a proliferação de fungos transformaria rapidamente o branco em gradações enegrecidas, o que ao invés de diminuir a temperatura dos ambientes abaixo da cobertura, teria efeito contrário, colaborando para o aquecimento destes ambientes.

3- As edificações usam técnicas construtivas diferentes das nossas, com uso muito mais disseminado de climatização mecânica e sistemas de ar condicionado, sendo as coberturas mais naturais, como as executadas por telhas de barro, quase inexistentes, ao inverso do que acontece em São Paulo, onde são típicas estas coberturas, que pintadas, deixariam de respirar, comprometendo sua eficiência.

Mais que isso, também é preciso considerar que:

 4- Não se levou em conta, nem foi elaborada nenhuma estimativa da emissão de CO2 provocada pela cadeia envolvida desde a produção da tinta, até sua aplicação e manutenção na escala pretendida, que no nosso contexto, fatalmente seria responsável por muito mais emissão de CO2, do que a medida pode ser capaz de evitar.  

São Paulo  
5- O sol não permanece a pino o tempo todo, como considera o estudo, sendo sua incidência (mais ainda no caso de uma cidade verticalizada como a nossa), muito maior sobre as superfícies verticais das edificações, do que nas coberturas.

6- Esfriar ambientes climatizados artificialmente contribui para diminuir o consumo energético no verão, porém tem efeito contrário no inverno.

7- Toda a energia solar que a medida lograsse refletir voltaria para o ambiente, o que até pode vir a contribuir para potencializar o problema, mas certamente não nos ajudaria a combatê-lo. Não foram feitos estudos acerca da reflexão que a medida provocaria no contexto desta metrópole (e suas várias ilhas de calor), já vitimada pelo efeito estufa, e com presença massiva de partículas em suspensão.

8- Há um custo social agregado à medida que também precisa ser considerado, dada a periculosidade envolvida nas tarefas de pintar e manter brancas as coberturas, sempre altas, e muitas vezes impróprias ao trânsito, por sua inclinação ou fragilidade. Este custo social se potencializa com a escassez de mão de obra qualificada.

9– As obras arquitetônicas e as edificações preservadas por seu valor histórico não foram levadas em conta, a medida nestes casos geraria agressão visual e descaracterização do nosso patrimônio histórico.

10- A medida impediria a implantação de sistemas passivos de condicionamento, ou que utilizem as superfícies das coberturas para a captação de energia solar.

11– Há divergência de temperatura e de meio ambiente para cada bairro de São Paulo. Nossa metrópole abriga várias e diferentes "ilhas de calor". A medida iguala um bairro extremamente arborizado e de casas térreas, com outro verticalizado e sem cobertura vegetal em sua área.

12- Uma tinta comum sofreria lixiviação com o tempo, e sua química seria carregada pelos dutos do sistema pluvial até os rios que cortam a cidade, provocando mais danos ambientais. O projeto de lei não exige uso de produto inerte, e mesmo que o fizesse, não há capacidade de fiscalização dos órgãos públicos para garantir este controle. 


13- Vale lembrar que nossas coberturas de barro retém a água precipitada absorvendo cerca de 3,5 a 4 litros de água por m2, devolvendo paulatinamente esta umidade para o ambiente com a ação do sol, depois que a chuva cessa. Ninguém fez o cálculo, mas estes 4 litros por metro em Sampa agravariam tragicamente nosso problema com enchentes...

Esse debate serviu para mostrar que a cidade tem muito mais a ganhar com discussões democráticas e que reúna especialistas com dados locais do que em meramente importar soluções de fora em questionar. Ponto para o vereador que abriu esse espaço e se dispôs a mostrar que realmente está interessado em ajudar a melhorar a sua cidade. Ponto para os debatedores que, em alto nível, ponderaram soluções e se uniram em uma luta para também mostrar que a sustentabilidade na construção precisa de mais espaços qualificados como esse, que é necessário mais incentivos para que soluções locais possam ser implementadas e aprimoradas. 

Comentários

  1. É cada coisa em São Paulo.

    Um Lindo Fim de Semana!

    beijinhos

    ResponderExcluir
  2. Justamente, cara amiga!

    O grande perigo é assumir normas e protocolos estrangeiros sem contextualizá-los, como vem sendo feito com as certificações para a construção civil feitas por aqui...

    Oscar Müller

    ResponderExcluir
  3. E olhe outra pesquisa comprovando o que foi defendido no debate
    http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planeta-urgente/pintar-telhados-de-branco-e-solucao-duvidosa/

    Abraços

    ResponderExcluir
  4. Este artigo é sobre arquitetandoideias.blogspot.com marcador digno na minha opinião. É economizar para referência futura pena. É uma leitura fascinante, com muitos pontos válidos para a contemplação. Eu tenho que concordar em quase todos os pontos feitos no âmbito deste artigo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Sua opinião é super importante para nós ! Não nos responsabilizamos pelas opiniões emitidas nos comentários. Links comerciais serão automaticamente excluídos

Postagens mais visitadas deste blog

10 ideias de almofadas e afins para gateiros

Festas....fiquei aqui arquitetando postagens bem suaves e lindas para esses momentos. Hoje resolvi brindá-los com 10 adoráveis ideias para almofadas, pesos de porta, mobiles e outras utilidades para amantes de gatos.

Nós, os gateiros, somos uma população em ascensão no mundo. Esses seres peludos, cheios de personalidade e amor próprio nos arrebatam. Adoramos mimá-los. E eles adoram que a gente os mime....uma parceria perfeita

1- Petit Pois e gatos. Uma dupla perfeita. Ambos sempre elegantes e cheios de charme! 
2- Mobile. Adoro! Mesmo já crescida, acho que não precisam ser só adorno de quartos infantis (meu lado criança, fazer o que????). Esse aí de cima, por exemplo, achei um mimo. 
3- Quem não ia querer entrar nessa casa tão felinamente convidativa??? Quero um para a minha porta! 
4- Patchwork e gatos!!! Tudo a ver também. lembra borralho, fogo, casa da vó e tudo isso lembra aconchego. E nada mais aconchegante que a figura de um gato, pachorrento, deitado ao pé do fogo. (Gateiros enten…

13 ideias para quem ama gatos

Há pouco passou uma sexta feira. Era 13. Gosto das sextas feiras. Gosto do 13. Gosto dos gatos. Gosto dos gatos pretos, esses que tanto foram perseguidos como companheiros de bruxas.

Gatos são da casa -repetem como mantra os que não conhecem os gatos. Os gatos são deles mesmos. E de quem os conquistar. Ou de quem eles resolverem amar. 

Amor de gato é diferente do amor de cão. E não menos dramático. Gatos não toleram atrasos. Não aceitam menos que a nossa entrega. De preferência sem muito chamego, a não ser na hora que desejam. 

Gatos são hedonistas por natureza. Existem para viver com languidez e serem acariciados. Mimados. Paparicados. Gatos são aristocratas. Mesmo que revirem latas de lixo. 

Desconfiem da humildade felina. Ao primeiro toque de boa vida, se tornam preguiçosamente orgulhosos.   
“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultu…

Como utilizar cortinas na decoração

Hoje temos postagem de convidados. O Cesar Fernandes da Tibério Construtora
vai nos falar sobre como utilizar cortinas na decoração.


Cortinas são fundamentais para diversos ambientes do seu lar. Além de transmitir uma sensação de amplitude ajudam a controlar a entrada de luz. E ainda dão um up no visual de qualquer ambiente. A decoração com cortinas pode parecer óbvia, mas é uma das formas mais práticas de renovar um ambiente.
Tamanho Para causar uma sensação de amplitude invista nas cortinas que começam pelo menos 15 cm antes da borda da janela e vão até o chão. Na verdade o tamanho vai depender muito do ambiente. Há casos em que pode-se usar todo o vão da parede. A altura que ela fica do piso da sua casa pode ser de sua escolha mas como o objetivo é dar um ar de maior extensão para a parede, recomenda-se que fique junto ao piso. Leve em conta que há tecidos que podem encolher em lavagens. As vezes é melhor fazer um pouco maiores para que não fiquem pequenas na manutenção. 
CoresNão exis…

Gavetas e detalhes que fazem diferença na cozinha

Organizar. Sempre um desafio na hora de planejar móveis e espaços. E um dos locais onde mais precisamos de locais coringas para guardar coisas são nas nossas cozinhas. 
Haja gavetas, nichos, cantinhos que podem ser aproveitados para os mais diversos usos. Separei algumas ideias para inspiração Aproveitando rodapés: Muitos colegas tem optado por fazer os rodapés de armários de cozinha em alvenaria e revestir a frente com pedras ou cerâmicas. É uma solução pratica principalmente pela limpeza e umidade. Mas se sobrar espaço e a opção for usar rodapés, eles podem ser usados para guardar várias coisas. (Confesso que não sei se são o melhor local para guardar vinhos, mas quem sabe...)   Porta trecos e panos de prato: Eles são super práticos porque aproveitam espaços pequenos e estreitos e guardam aquelas coisas meio feias quando ficam à vista. Não recomendo guardar panos de prato úmidos. E esse porta facas abaixo, ao lado do fogão, é super prático!  
Outro exemplo de aproveitamento de canto par…