Pular para o conteúdo principal

Pinte-se de branco

A propósito dos projetos de lei que estão tramitando em São Paulo sobre a obrigatoriedade do uso de telhados brancos por TODOS os prédios, ou de telhado verde, segue opinião de nosso colega Arquiteto e Urbanista Oscar Muller




Fonte
Nossos políticos estão trabalhando em uma nova lei. Coisa maravilhosa, podem pensar alguns, pois é para isto mesmo que votamos neles, e os colocamos em posição de decidir acerca das regras a que todos nos submetemos para boa convivência em conjunto. Ocorre que desta feita o objeto da sintaxe é o telhado que nos cobre. Todos sem exceção, segundo o projeto de lei que tramita, devem ser pintados de branco, e o texto da lei, como sói acontecer, é direto e taxativo: em 180 dias, às expensas de cada qual, e que fiquem nulas as disposições em contrário, etcetera e tal.

Jurema Oliveira/Wikimedia Commons
O intento se baseia da campanha "um grau a menos", que pretende diminuir o aquecimento global através de medidas como esta. Na teoria o telhado pintado de branco vai refletir mais os raios solares, diminuindo o calor interno da edificação, e consequentemente o uso de energia consumido pelos aparelhos de ar condicionado. A lógica é esta, pois a campanha nasce num contexto em que quase toda a energia elétrica provém de geradores a diesel, onde as construções já são virtualmente herméticas, e onde, pasmem, se gasta mais energia com calefação, do que com arrefecimento. Aqui talvez obtivéssemos maior economia pintando apenas as caixas dágua de preto, pois o vilão do consumo energético ainda é o chuveiro elétrico!

Se a lei é aprovada assim, todos teremos que pintar nossas coberturas, sejam feitas de sapê, telhas barro, lajes aparentes, ou o que for. Ocorre que a maioria das coberturas executadas com materiais naturais permitem que o ar mais quente, que sobe por convecção, escape, contribuindo assim para manter o conforto térmico do ambiente. "Respiram" como dizemos no nosso jargão profissional, e perderiam sua eficiência se pintados.

Quanto as lages expostas, coberturas em fibro-cimento, telhas de concreto, metálicas e outras, a pergunta que me faço é acerca da durabilidade da medida, uma vez que na megalópolis que habito, a incidência da forte poluição, agravada pelos fungos que atacam nossas coberturas, em pouco tempo tratariam de tornar o branco em gradações acinzentadas, concorrendo para o negro. Fico cogitando se isto demoraria mais do que os 180 dias para acontecer...


De mais a mais, ninguém se preocupou em estudar os efeitos causados por esta reflexão massiva (que São Paulo não é lá muito pequenina), em relação ao efeito estufa, ou dentro dos ambientes vizinhos com janelas mais altas, que receberiam a insolação refletida de baixo para cima, situação que aposto, nem o mais visionário dos projetistas sequer sonhou.

Penso também que se a edificação com cobertura branca de fato se aquecer menos com a incidência solar, isto causaria uma economia energética proporcional, pois se utilizaria menos o ar condicionado nos dias quentes, mas e no inverno? O telhado branquinho, reflexivo, não sabe se é verão ou inverno, reflete os raios solares da mesma maneira o tempo todo, impedindo também que o imóvel se aqueça nos dias mais frios. Então compraremos aquecedores, instalaremos sistemas de calefação, lareiras, e o que mais estiver disponível para voltar a viver como dantes no quartel de Abrantes... E como fica o
proprietário d
a edificação simples, que já penou para comprar a tinta que a lei obrigou, e certamente perdeu alguns dias de trabalho fazendo a pintura antes que os peremptórios 180 dias vençam, e lhe seja aplicada alguma multa?


O citatino médio das grandes urbes vivencia a cidade desde as ruas, mormente muradas nas laterais por altos edifícios, ou tem dela uma triste paisagem desde a janela de algum destes edifícios, uma vista composta pelos telhados abaixo, e pelas ruas com parca arborização. Talvez a cidade ganhasse um ar modernoso em preto e branco, certo, o "vintage" está na moda, mas sustentabilidade também, e falando nisto...
Fonte

Que tal se ao invés de obrigar indiscriminadamente com um "pinte-se tudo", a lei oferecesse incentivos fiscais para criação de coberturas vivas, e exigisse um estudo feito por profissional competente para salvaguardar as coberturas naturais, e implementar lajes com cobertura vegetal onde fosse possível?


Esta alternativa verde promove benefícios ambientais bastante mais eficazes pois tem o efeito de isolar, e não de refletir. Isolando, a cobertura tanto evita que o calor entre, como também que saia, permitindo que uma edificação com boas soluções de ventilação implementadas, possa se manter confortável tanto no verão, quanto no inverno. Mas há mais vantagens relacionadas com nosso caso específico.


Nossas urbes são impermeáveis. Se tornaram superfícies cobertas por concreto e asfalto (que tal pintar o asfalto de branco?), que deixam escorrer rapidamente toda a água precipitada em direção aos nossos rios, hoje quase que totalmente canalizados, sem capacidade para este volume multiplicado pela constante impermeabilização do solo, concorrendo para provocar as constantes enchentes que maltratam os paulistanos.

As coberturas vegetais retardam este processo, impedindo que a água precipitada caminhe imediatamente para as áreas mais baixas da cidade. Mais que isso, funciona como um primeiro filtro, permitindo que esta água seja acondicionada para uso nas descargas, torneiras de jardim, etc, certamente comporiam melhor paisagem para a cidade desde as janelas dos edifícios, oferecendo ainda mais qualidade de vida para os habitantes, pela simples criação destas pequenas áreas de lazer, tão preciosas para o urbanóide.

Também faz sentido culturalmente, quem sabe o tradicional churrasquinho na laje dos domingos, não poderá ser acompanhado de uma alface cultivada ali mesmo?

Comentários

  1. Também gosto da idéia da cobertura vegetal. Li alguma coisa a respeito dos telhados de grama da Noruega e achei demais.

    Bom Fim de Semana!

    ResponderExcluir
  2. Já temos uma petição pública on line acerca das coberturas sustentáveis.
    Agora é momento para fazer barulho, veicular a informação, e pedir por adesões.

    Para assinar:
    http://www.peticaopublica.com.br/?pi=ARQ2011

    Para recomendar:
    http://www.peticaopublica.com.br/Recomendar.aspx?pi=ARQ2011


    Arq. Oscar Muller

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Sua opinião é super importante para nós !

Postagens mais visitadas deste blog

13 ideias para quem ama gatos

Há pouco passou uma sexta feira. Era 13. Gosto das sextas feiras. Gosto do 13. Gosto dos gatos. Gosto dos gatos pretos, esses que tanto foram perseguidos como companheiros de bruxas.

Gatos são da casa -repetem como mantra os que não conhecem os gatos. Os gatos são deles mesmos. E de quem os conquistar. Ou de quem eles resolverem amar. 

Amor de gato é diferente do amor de cão. E não menos dramático. Gatos não toleram atrasos. Não aceitam menos que a nossa entrega. De preferência sem muito chamego, a não ser na hora que desejam. 

Gatos são hedonistas por natureza. Existem para viver com languidez e serem acariciados. Mimados. Paparicados. Gatos são aristocratas. Mesmo que revirem latas de lixo. 

Desconfiem da humildade felina. Ao primeiro toque de boa vida, se tornam preguiçosamente orgulhosos.   
“Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultu…

Ideias simples que ajudam muito

Muitas vezes a gente fica pensando em soluções mirabolantes para a casa da gente e esquece de ideias simples que ajudam bastante. Reuni algumas delas aqui

Uma gaveta bem colocada na lavanderia auxilia muito a tarefa de colocar as roupas na máquina.  Procure soluções que forneçam apoio para bacias, para cestos e simplifiquem sua vida nas tarefas de limpeza da casa. Aproveite espaços que ficariam sem uso. Essas práticas gavetas para guardar esponja e sabão são um exemplo.
Outra ideia de aproveitamento de espaço inútil. A área ao lado e na frente das cubas. Vejam que foi usado material impermeável e assim podem ser guardados os utensílios de lavar louça que são molhados. 
Usar porta toalhas em portas ajuda na organização.

Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. Na hora de cozinhar é preciso achar com praticidade tudo o que se precisa. Uma boa solução é fazer um gavetão para esses utensílios e dispô-los em locais práticos e de fácil acesso.  Pratos podem ser colocados para sec…

10 ideias de almofadas e afins para gateiros

Festas....fiquei aqui arquitetando postagens bem suaves e lindas para esses momentos. Hoje resolvi brindá-los com 10 adoráveis ideias para almofadas, pesos de porta, mobiles e outras utilidades para amantes de gatos.

Nós, os gateiros, somos uma população em ascensão no mundo. Esses seres peludos, cheios de personalidade e amor próprio nos arrebatam. Adoramos mimá-los. E eles adoram que a gente os mime....uma parceria perfeita

1- Petit Pois e gatos. Uma dupla perfeita. Ambos sempre elegantes e cheios de charme! 
2- Mobile. Adoro! Mesmo já crescida, acho que não precisam ser só adorno de quartos infantis (meu lado criança, fazer o que????). Esse aí de cima, por exemplo, achei um mimo. 
3- Quem não ia querer entrar nessa casa tão felinamente convidativa??? Quero um para a minha porta! 
4- Patchwork e gatos!!! Tudo a ver também. lembra borralho, fogo, casa da vó e tudo isso lembra aconchego. E nada mais aconchegante que a figura de um gato, pachorrento, deitado ao pé do fogo. (Gateiros enten…

Mobiles, com ar de carnaval e fantasia

"Tanto riso, oh quanta alegria"....cantava essa música nos carnavais de antigamente lembrando dos Pierrots e Arlequins que brincavam no salão. E vendo esse mobile não pude deixar de sorrir e imaginar que gostaria de ter um assim no meu quarto, marcando a época dos confetes e serpentinas. 

Longe se vai o tempo em que pulava nos salões, em que saia na avenida de cidades do interior em blocos, em que ficava vidrada na frente da TV assistindo os desfiles de escolas de samba. Mas ainda muito me agrada as cores, a possibilidade de fantasia, do brincar, do poder ser algo diferente nem que se seja por uns dias.
E porque não trazer para dentro de casa essa fantasia em forma de mobile? Reuni alguns lindos que, com boa intenção e paciência, podem ser feitos em casa. Cor, movimento, criatividade. Eis a receita.
Pode deixar sair a poesia, pode reunir retalhos ou balas e guloseimas. O que importa é a brincadeira. Como no carnaval. 
Estrelas do céu enfeitam a vida das estrelas da terra. Amei …