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Urbanismo Inclusivo

A cidade é uma memória organizada"
"As  mulheres são as esquecidas da História"
( citação da filósofa Hannah Arendt)

Esse artigo que achei na internet fala sobre Portugal, mas poderia falar sobre qualquer pais ocidental.
Artigo escrito por Trigorin


O urbanismo e o ordenamento do território são sempre encarados
como temáticas neutras na perspectiva de gênero.
No entanto há um erro crasso nesta lógica consensual.
Se é neutronão é para ninguém. Ora o urbanismo e ordenamento
do território são construções dirigidas às pessoas, não a entidades abstractas.
É urgente "generizar" e humanizar o planejamento
urbano e o ordenamento do território, sob pena de estarmos a 
cartografar a exclusão. As cidades devem ter em conta os seus 
habitantes e não o habitante médio, o cidadão comum, 
que de tão comum nem existe. Quem existe são as pessoas, 
os homens e as mulheres, com diferentes idades e extractos sociais,
com múltiplas origens étnicas e influências culturais,
com as suas religiões e descrenças, com variadas limitações 
físicas e de saúde, temporárias ou permanentes,
as suas diferentes orientações afectivo-sexuais.
Por tudo isto é necessário que
os espaços urbanos sejam pensados para
a inclusão destas variadas dimensões humanas e
não para o pretenso cidadão comum.
Este pronto-a-vestir social dá tantas dores de cabeças 
como comprar uma camisa que foi feita para o americano 
médio e que depois nos fica pelos joelhos.Esta reflexão é 
particularmente pertinente num momento em que se comemora
o centenário da implantação da República e em que surgem
propostas de quem deve servir de modelo ao busto da República.
A República, como a Pátria, a Nação ou a Mãe é o parente pobre
do masculino universal. Se o homem é a medida de todas as
coisas, a mulher é a medida de todas as mães.
Este modelo redutor não serve a ninguém. Nem aos homens
que querem ser bons pais e viver os afectos. Nem às mulheres
que querem ser boas cidadãs e ser respeitadas pelas suas obras.
Obras essas que vão muito para além da mera reprodução sexual.
No entanto, basta passearmos pela nossa cidade para vermos que as estátuas com nome próprio são masculinas, algumas de mérito tão controverso quanto aquela que existe na Rotunda e que homenageia o famigerado Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal,
estadista visionário para uns e ditador assassino para outros.
Pois já com as mulheres infelizmente não há controvérsias,
porque nenhuma delas tem nome, a Maternidade, a República,
a Maria da Fonte, a Padeira de Aljubarrota, tudo distorções
consensuais da realidade, que tendem a ver a mulher como
um colectivo, sem nome e com rosto de santa. Santa paciência
para visão tão tacanha da realidade Histórica. Já lá vai o tempo
em que as mulheres para publicarem um livro o tinham de fazer com

pseudónimo masculino ou com o nome do marido.Neste centenário da República queremos uma estátua que celebre uma mulher concreta,
com os seus defeitos e qualidades, com o seu rosto e nome próprio.
Acham que não temos portuguesas famosas? Carolina Beatriz Ângelo conseguiu ser a primeira mulher portuguesa a votar em 1911
e uma das primeiras na Europa. Maria Helena Vieira da Silva
e Paula Rego são as mais internacionais artistas plásticas
portuguesas. Sofia de Melo Breyner Andersen foi uma grande
escritora. D. Catarina de Bragança responsável pelo hábito
"britânico" do chá das cinco, que apenas tem direito a um pequeno
busto, enquanto D. José I, que nada legou à posteridade
tem uma estátua equestre no Terreiro do Paço.
Amália Rodrigues é a voz portuguesa mais ouvida no mundo.
Já para não falar nas outras todas que ficaram pelos conventos
ou na sombra de homens pequenos, como atesta o disparate
abundantemente citado "por detrás de um grande homem
está sempre uma grande mulher".É tempo de fazermos
justiça e colocarmos uma grande mulher, não uma
representação anónima num busto da República com cara de
mulher ideal portuguesa, no cimo de um grande pedestal,
para que não restem dúvidas da sua importância
na História de Portugal e da Humanidade.

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