Renomear a arquitetura: quando a teoria precisa olhar para a vida

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Há livros de arquitetura que nos ajudam a entender melhor projetos e/ou a trajetória de um profissioal. Há outros que ajudam a entender melhor a própria arquitetura.  Renomear a arquitetura em sua evolução técnica, formal e ética (Editora Olhares) , do  renomado arquiteto catalão Josep Maria Montaner, pertence à segunda categoria. Fazia um tempo que um livro de teoria não me pegava tanto para a leitura e reflexão. Um dos motivos é que, depois de tantos anos trabalhando com arquitetura, uma questão continua me acompanhando desde sempre: para quem estamos projetando? A pergunta parece simples. Talvez até óbvia. Mas basta lançar um olhar mais crítico para nossas cidades, nossas casas e nossos edifícios para perceber que esta pergunta ainda está longe de ser respondida de maneira satisfatória. Quem circula por esses espaços? Quem consegue permanecer neles? Quem é considerado quando uma calçada é desenhada, quando uma moradia é planejada, quando se define a altura de uma banca...

CIDADES

As cidades, sinto-as febris como adolescentes, dançando sobre as pistas da sua própria luz, consumidas por uma inquietação difusa, cruéis, livres, impuras, amantes, absolutas de novo, com toda a sua sujidade inaugural. Sítios de queda e construção, leviandade e levitação, onde os acontecimentos se precipitam em cadeia e a verdade pequena de cada um existe verdadeiramente, alertando a composição química do todo a cada passo. Dizia às vezes que as cidades cansam, de desalmadas. Fazes-me falta - Inês Pedrosa

Uma cidade, com suas ruelas e caminhos infinitos é um caos a organizar. Seus espaços escondem vidas e hábitos que nos fazem cidadãos e participantes da organização de uma sociedade. Nossos hábitos nos fazem animais sociáveis, egressos das cavernas e formadores de núcleos. Núcleos que fazem civilizações e formam culturas. Hábitos que fazem edificações que se amontoam e ruas que perdem suas identidades com uma rapidez infinita. Nossas cidades refletem a nossa ausência de valores, o nosso vazio existencial. O que somos nós como urbe, o que fazemos nós de nossa sociabilidade? Onde se esconde a nossa solidariedade de seres que se dizem humanos? Onde a arquitetura de nossas vidas se confunde com a construção de nossas cidades? Mais que arquitetos, devíamos ser sonhadores e construtores de utopias, antes de lançarmos a pedra fundamental de nossas culturas.

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