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O caro que fica mais barato


Fonte: Valor Econômico - 20.05.2008

Brasil - Já existe uma turma do verde bem atuante na indústria da construção, disposta a integrar harmoniosamente economia e meio ambiente. É marketing? Pode ser. E tudo indica que há um uso mercadológico intensivo dessa simpática moda preservacionista. O fato, porém, é que ao lado da imagem de ecologicamente correta vem estampadas idéias muito concretas para a redução do consumo de água e energia e de produção de lixo - fora um corte substancial nos custos futuros de manutenção dos edifícios. Há um desafio efetivo para a obtenção da chamada ecoeficiência, que envolve todo o projeto da construção - desde a contratação e treino de mão-de-obra, a escolha de materiais, o uso e reúso de água, o máximo aproveitamento de iluminação natural até a administração posterior do condomínio.

O volume de obras dessa turma é ainda bem pequeno quando comparado ao do conjunto da construção civil nacional. Somente na cidade de São Paulo é que já há alguma expressividade dos chamados green buildings. Segundo Alessandro do Carmo, diretor de operações da consultoria imobiliária CB Richard Ellis, cerca de 20% dos 16 milhões de metros quadrados de escritórios da capital paulista se enquadram nesse conceito.

Mas há exemplos de porte em outras praças, quase sempre envolvendo incorporadoras focadas em edifícios comerciais. São os casos do Rochaverá Corporate Towers com quatro torres, em São Paulo; e do Ventura Corporate Towers, com duas torres, no Rio de Janeiro, ambos em fase de construção, pela incorporadora Tishman Speyer, que devem consumir algo em torno de R$ 1 bilhão. Outro destaque é o Eldorado Business Tower, da Gafisa, inaugurado em novembro de 2007. A Tishman, em particular, já está nessa área verde há quase dez anos. Na sua sede, nos Estados Unidos, o enfoque da ecoeficiência se traduz em prédios comerciais desde 1999, quando foi inaugurado o HearstTower, de Nova York, com 46 andares e 80 mil metros quadrados.

O Banco ABN Amro Real entrou com tudo nessa empreitada. O primeiro prédio com certificação Leed no Brasil, por sinal, foi o da agência da Granja Viana, em São Paulo, cujo projeto foi iniciado em 2006. Do total de 50 agências do banco inauguradas em 2007,15 fazem reaproveitamento de água. "Isso nos mostrou que é possível aplicar alguns conceitos, mesmo que não seja a norma na íntegra, em outras obras", pondera o engenheiro Roberto Oranje, do Real, que buscou a certificação externa para apoiar a iniciativa. "Precisávamos do aval para reforçar a idéia de que nosso caminho estava correto", diz ele. "Nosso objetivo era disseminar a idéia na empresa".

Para poder realmente ser chamado de green building, todos esses edifícios foram atrás de uma agência que tivesse autoridade para certificá-Ios. No caso, a Leadership in Energy & Environmental Design (Leed). O que, aliás, exige um pequeno batalhão multidisciplinar e conhecimentos muito complexos. Só no que se refere a materiais, há uma lista de 14 pontos, entre eles a especificação de produtos locais; uso de madeira certificada pelo Conselho de Manejo Florestal (FSC na sigla inglesa); revestimentos certificados e renováveis; e preferência geral por matérias naturais e por produtos de fácil e rápida instalação e reparo. Esse sistema de certificação orienta e pontua as soluções sustentáveis de um projeto, avaliando o desempenho em economia de água e energia, seleção de materiais e recursos, qualidade ambiental interna e inovação e projetos. Como a lógica da sustentabilidade diz respeito à cadeia inteira da construção civil, os fabricantes devem comprovar a eficiência de seu produto por meio de selos, que são declarações individuais e certificações independentes.

Para fazer a certificação, as empresas podem contar, mundialmente, com algo como 20 agências. No Brasil, a mais utilizada é a Leed mesmo, ainda que não tenha até agora uma versão tropicalizada. Introduzida no país há pouco mais de dois anos, a certificação abrange, no momento, apenas 52 prédios - uma parcela ainda muito pequena se comparada com as 700 feitas nos Estados Unidos, que representa pouco mais de 0,5% do que foi avaliado no mundo.

Há um mês, a Fundação Vanzolini, de São Paulo, lançou uma certificação para construções sustentáveis chamada Alta Qualidade Ambiental (Aqua). Trata-se da versão adaptada ao Brasil da francesa Haute Qualité Environnementale (HQE). "Não se consegue transplantar modelos entre realidades tão distintas", justifica Joaquim Feiteira, diretor de certificação da Vanzolini. "A solução é adaptar", completa. O referencial Aqua é a primeira experiência concreta da Aliança Ambiental Global para a construção sustentável, uma entidade que já conta com 22 países participantes.

É preciso ter claro que os green buildings são atraentes do ponto de visto comercial, mesmo que acabem por custar até 10% mais que os prédios convencionais. O que ocorre é que eles se pagam, com lucro, durante sua vida útil média de 50 anos, pois o custo de operação e manutenção seria inferior ao dos outros edifícios. Segundo estimativa da CB Richard Ellis, o valor do condomínio de um green building é 30% inferior se comparado com um prédio comum, de mesmo padrão.

Para isso, contudo, eles exigem uma gestão eficiente de condomínio - um filão que está sendo bem explorado pela Cushman & Wakefield, que obtém 90% de seu faturamento com o gerenciamento de prédios, entre eles o edifício Eluma, na Avenida Paulista, construído há 30 anos, e que acaba de ter seus elevadores substituídos por equivalentes mais econômicos. "No Brasil, os clientes ainda não estão sensíveis porque a energia é barata", diz o diretor de projeto e construção da Tishman, Luiz Henrique Ceotto.

Em alguns países da Europa, a restrição de consumo de água e energia fazem parte da legislação. E essa é uma tendência que deverá, em uma década, conforme os cálculos da Tishman, pressionar também os brasileiros. No Eldorado Business Tower, a utilização de materiais com soluções tecnológicas inovadoras proporcionou a redução de custos operacionais. Cerca de 80% do prédio é abastecido de luz natural, o que traz economia de aproximadamente 20% em lâmpadas. Os vidros especiais utilizados, com duas camadas e uma película extra, deixam passar 75% da luz e impedem a entrada de 30% do calor. Assim, os vidros permitiram economia de 30% da capacidade instalada de ar-condicionado. "Iluminação natural e boa qualidade do ar do ambiente de trabalho são benefícios para o usuário. lmpactam na produtividade", diz Luis Fernando Bueno, diretor de operações do grupo Gafisa.

"Nosso desafio é fazer a indústria compreender esse raciocínio", afirma Nelson Kawakami, diretor executivo do Green Building Council Brasil, organização não-governamental que fomenta essa discussão. Há um reconhecimento, no entanto, de que tanto fornecedores quanto incorporadores e construtores estão agindo cada vez mais nos novos padrões - seja por marketing, consciência ecológica ou ordem da matriz. "Temos já uma oferta de cimentos ecoeficientes, bacias sanitárias de 6 litros e torneiras que economizam água, tintas solúveis em água", reconhece Vanderley John, engenheiro civil especializado em sustentabilidade e materiais de construção e membro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).

Um exemplo recente de adaptação a esse esquema é o da Tintas Coral - marca recentemente adquirida pelo grupo holandês Akzo Nobel -, que, aos poucos, está substituindo algumas matérias-primas de origem petroquímica na composição de seus produtos. Da produção de tintas da Coral, 85% é hoje feita à base de água, deixando assim de liberar VOC (sigla em inglês referente a compostos orgânicos voláteis). A alemã Henkel, por sua vez, criou o sista fIex tec, um selante que cola e preenche - um polímero que não contém solvente, evitando assim os odores fortes e nocivos aos trabalhadores e usuários do prédio. Esse selante foi aplicado no Eldorado Business Towers, em processo de certificação pelo Leed.

No entanto, o processo entusiasmado de mudança e reinvenção da construção civil enfrenta obstáculos. "Temos uma legislação e uma estrutura social diferentes dos países dos quais estamos buscando inspiração para o novo modelo", observa John. Ele chama a atenção para o fato de que a agenda ambiental está sendo contemplada, mas há muito mais a fazer em sua dimensão social: o trato da mão-de-obra. "A informalidade da cadeia é o principal problema a ser combatido", ressalta. Na sua visão, ela é endêmica e destrói a capacidade do estado de adotar políticas públicas. "Nosso foco no CBCS não é fazer edifícios avançados, mas mudar a construção média, pois 70% das habitações são feitas com construção autogerida, contra 5% a 10% em outros países".

O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon) admite que é assim. "Estamos fazendo campanha contra a informalidade, estimulando as empresas a contratarem, mas o protecionismo exacerbado das leis trabalhistas em prol do trabalhador assusta as empreiteiras", diz Mauricio Bianchi, coordenador do comitê de tecnologia e qualidade do sindicato, para quem a grande transformação deve ser feita no canteiro de obras. "É preciso treinar as pessoas, de forma a internalizar valores", defende. "Cartilhas com explicações sobre a coleta seletiva e o controle do desperdício são um bom início de trabalho, com exemplos bem concretos".

Durante a construção do recém inaugurado Eldorado Tower, foi mantida no canteiro uma escola de alfabetização, ensino fundamental e secundário para 56 operários. Escola em canteiro de obras não chega a ser uma novidade, nem privilégio de projetos sustentáveis, "mas com certeza é um processo de conscientização, com efeito multiplicativo", acredita Bueno, da Gafisa.

A questão da mão-de-obra é importante não só na construção. "Um edifício sustentável é um potencial a ser concretizado", adverte Ceotto. Além da busca por uma construção que impacte o menos possível o meio ambiente, é preciso equacionar a vida útil do prédio. "É durante esse longo período que a construção deverá ter desempenho ecoeficiente: não existe edifício verde com alto custo operacional".

http://www.eletrobras.com/pci/main.asp?ViewID=%7BF5EAADD6%2DCCB0%2D4E29%2DA0C4%2D482D3D66BB65%7D&params=itemID=%7B76667FF8%2DCE10%2D4F9B%2DB0A7%2DAB2C564E19AD%7D;&UIPartUID=%7BD90F22DB%2D05D4%2D4644%2DA8F2%2DFAD4803C8898%7D

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