Arquitetura, longevidade e o afeto como tecnologia

Imagem
Minha jornada é feita de arquitetura, escritas, buscas de pesquisadora e o ato de comunicar. Tudo junto. Amalgamado. São essas as moradas onde habito e onde meus sentimentos criam raízes.   Entre plantas baixas, livros, encontros intergeracionais e projetos coletivos, fui encontrando um eixo comum: o afeto como tecnologia humana. Esta percepção sustenta meu trabalho e define minha atuação entre a técnica e a escuta, entre os espaços e a cidade que temos e os que precisamos construir. Fundamentos Técnicos e o Olhar para o Futuro Sou arquiteta formada pela UFRGS (1982), com especialização em Engenharia de Produção focada na construção civil pela mesma instituição (1998). Esta base técnica me permite atuar com precisão na criação de ambientes seguros, onde o desenho arquitetônico serve como suporte para a autonomia ao longo da vida.  Minha prática profissional hoje é dedicada à pesquisa em gerontoarquitetura e ao conceito de aging in place, a capacidade de viver em sua própr...

Nenhuma mulher deve morrer enquanto gera a vida

A maternidade é um período muito especial na vida de uma mulher. Vivemos em uma sociedade que, bem ou mal, consegue garantir condições mínimas de cuidados para uma gestante. Mas se tentarmos imaginar uma realidade bem diferente, qual a resposta que a Arquitetura pode dar?

É o que trata esse projeto. A primeira vista nada de especial em termos formais. Ah, mas são contêineres que levaram ajuda japonesa para uma região muito pobre de Zâmbia na Africa e onde o índice de mortalidade infantil e de gestantes é muito alto. Esses dados mobilizaram investidores japoneses. Inclusive pelo aspecto de reciclagem.    
Mas como vemos na entrevista (AQUI) da Arquiteta Mikiko Endo, os desafios foram maiores.
"Meu desafio era projetar uma estrutura que fosse atraente o suficiente para atrair a atenção dos moradores locais que não possuem televisores ou ler jornais, e levá-los a pensar: "Ei, eu gostaria de ficar neste lugar e dar à luz com segurança ! "- mas também construir algo que faria doadores individuais e corporativos do Japão pensarem:"! Este é um grande edifício tal, eu definitivamente gostaria de apoiar projetos semelhantes no futuro."
Se para os doadores os contêineres eram uma solução não apenas viável, mas desejável, para os moradores locais não. Eram vistos com muitas restrições quanto à forma, durabilidade, segurança. Conciliar culturas e necessidades diferentes exige do profissional que projeta uma sensibilidade e humildade de desenvolver uma empatia com o modo de pensar. Minhas ideias para o teu problema nem sempre são a solução mais viável. e é muito prepotente tentar impor soluções que para alguns parecem lógicas e modernas. Mas que para outros soam como estranhas e pouco desejáveis.

Todo esse processo de envolvimento de todos os participantes também incluiu um workshop com moradores locais que resultou na decoração da casa de espera da maternidade com selos em forma de folha e os nomes dos 100 doadores japoneses

A música e a dança foram usadas no processo o que facilitou a apropriação do espaço pelos moradores. E permitiu que mulheres pudessem ter um local onde prosseguir com segurança a sua gestação. 

E eu concordo inteiramente com a arquiteta quando ela concluí sobre o seu aprendizado com este projeto: 
"Quero manter a criação de arquitetura que trata de frente com questões da vida e da felicidade humana. Eu não quero esquecer o que aprendi com este projeto, que é que além do prestígio do arquiteto indivíduo, existe um mundo muito maior, mais amplo de alegria"
Uma arquitetura que mobiliza culturas diferentes em prol de uma causa humanitária, uma arquitetura que ajuda a salvar vidas e a garantir que mulheres possam exercer o seu papel na perpetuação da espécie com mais segurança e dignidade, esta sim, é uma Arquitetura que vale a pena ser feita. 

Mother Architecture

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cortina verde na fachada

10 motivos para NÃO fazer arquitetura

Calungas, a representação da escala nos desenhos

O Fim da Hegemonia Americana? Como a China "Hackeou" a Engenharia Civil para Humilhar Nova York