O quanto as cidades são seguras para mulheres?

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Estava em uma conversa em um aplicativo de mensagens (aquele mesmo que quase todos usam) quando surgiu o assunto sobre uma rua bem famosa daqui. E eu disse que não me sentia segura ao andar por ela. Que tinha uma percepção de insegurança. E a resposta foi que seria talvez uma visão pessoal. Como sei que a visão (e experiência) das mulheres sobre o que é uma cidade segura pode ser diferente das visões masculinas, fui pesquisar a respeito em artigos acadêmicos e governamentais recentes para entender mais sobre a realidade. É mesmo percepção pessoal. Ou.... Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva, divulgada em setembro de 2024, mostrou um dado alarmante: que 97% das brasileiras sentem medo de sofrer violência quando se deslocam pela cidade. A mesma pesquisa aponta que 71% das mulheres já sofreram algum tipo de violência durante seus deslocamentos urbanos. Entre mulheres negras e LBT, os índices sobem ainda mais.  Isso não é sensação isolada. Se per...

Nenhuma mulher deve morrer enquanto gera a vida

A maternidade é um período muito especial na vida de uma mulher. Vivemos em uma sociedade que, bem ou mal, consegue garantir condições mínimas de cuidados para uma gestante. Mas se tentarmos imaginar uma realidade bem diferente, qual a resposta que a Arquitetura pode dar?

É o que trata esse projeto. A primeira vista nada de especial em termos formais. Ah, mas são contêineres que levaram ajuda japonesa para uma região muito pobre de Zâmbia na Africa e onde o índice de mortalidade infantil e de gestantes é muito alto. Esses dados mobilizaram investidores japoneses. Inclusive pelo aspecto de reciclagem.    
Mas como vemos na entrevista (AQUI) da Arquiteta Mikiko Endo, os desafios foram maiores.
"Meu desafio era projetar uma estrutura que fosse atraente o suficiente para atrair a atenção dos moradores locais que não possuem televisores ou ler jornais, e levá-los a pensar: "Ei, eu gostaria de ficar neste lugar e dar à luz com segurança ! "- mas também construir algo que faria doadores individuais e corporativos do Japão pensarem:"! Este é um grande edifício tal, eu definitivamente gostaria de apoiar projetos semelhantes no futuro."
Se para os doadores os contêineres eram uma solução não apenas viável, mas desejável, para os moradores locais não. Eram vistos com muitas restrições quanto à forma, durabilidade, segurança. Conciliar culturas e necessidades diferentes exige do profissional que projeta uma sensibilidade e humildade de desenvolver uma empatia com o modo de pensar. Minhas ideias para o teu problema nem sempre são a solução mais viável. e é muito prepotente tentar impor soluções que para alguns parecem lógicas e modernas. Mas que para outros soam como estranhas e pouco desejáveis.

Todo esse processo de envolvimento de todos os participantes também incluiu um workshop com moradores locais que resultou na decoração da casa de espera da maternidade com selos em forma de folha e os nomes dos 100 doadores japoneses

A música e a dança foram usadas no processo o que facilitou a apropriação do espaço pelos moradores. E permitiu que mulheres pudessem ter um local onde prosseguir com segurança a sua gestação. 

E eu concordo inteiramente com a arquiteta quando ela concluí sobre o seu aprendizado com este projeto: 
"Quero manter a criação de arquitetura que trata de frente com questões da vida e da felicidade humana. Eu não quero esquecer o que aprendi com este projeto, que é que além do prestígio do arquiteto indivíduo, existe um mundo muito maior, mais amplo de alegria"
Uma arquitetura que mobiliza culturas diferentes em prol de uma causa humanitária, uma arquitetura que ajuda a salvar vidas e a garantir que mulheres possam exercer o seu papel na perpetuação da espécie com mais segurança e dignidade, esta sim, é uma Arquitetura que vale a pena ser feita. 

Mother Architecture

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